Por Manuel Velasco
A dinâmica atual do capitalismo demonstra que a guerra na Ucrânia, a agressão imperialista na Venezuela e o assédio militar contra o Irã não são eventos isolados, mas uma das expressões críticas da disputa interimperialista pelo controle das fontes de energia. O bloqueio do estreito de Ormuz expôs as fraturas na hegemonia militar dos Estados Unidos, evidenciando que o controle das rotas comerciais terrestres e marítimas é um dos eixos sobre os quais as potências capitalistas tentam monopolizar a cadeia de valor e o sistema energético mundial. O modo de produção capitalista é incapaz de superar suas próprias contradições estruturais, chocando-se inevitavelmente contra um gargalo histórico: a necessidade de assegurar o fluxo ininterrupto de insumos energéticos para sustentar a produção e garantir o lucro.
A estratégia dos Estados Unidos
A década de 1970 reconfigurou a situação energética dos Estados Unidos, que se viram obrigados a explorar alternativas diante do fim do petróleo barato. Com o século XXI chegaram novos métodos de produção, como o fracking, o que garantiu novas fontes de abastecimento ao imperialismo ianque. Por outro lado, durante os últimos anos, a Casa Branca foi atribuindo maior relevância ao gás natural liquefeito (GNL) e reforçando o controle das rotas marítimas de abastecimento.
A partir de 2014, a política para ocupar o lugar de importador de gás permitiu que se consolidassem como o principal fornecedor da Europa, fornecendo 28% do GNL que o continente recebia em 2021 e 58% em 2025. O mercado de GNL está estruturado de maneira fragmentária a partir da soma de contratos bilaterais, interesses empresariais, políticos e uma infraestrutura exposta às tensões regionais, diferenciando-se do mercado petrolífero, muito mais homogeneizado. Entretanto, não escapa ao condicionamento imposto pelo transporte do recurso, sendo profundamente dependente das rotas marítimas e, portanto, suscetível às disputas em desenvolvimento por seu funcionamento e controle.
Como consequência da estratégia seguida, as exportações energéticas estadunidenses deram um salto no último ano, passando de 87,5 bilhões de dólares em 2025 para 146,5 bilhões em 2026. O aumento de 67% nas exportações não significou somente o aumento do volume exportado, mas também maior captura de valor em um contexto de fortes confrontos entre as potências mundiais. O total das exportações é composto por 55 bilhões de petróleo bruto, 33,5 bilhões de gás natural e 58 bilhões de produtos refinados.
Regiões como o Oriente Médio são de especial importância para o controle energético. A reorganização dos jazimentos localizados em frente à Síria, Palestina e Líbano, promovida pelos Estados Unidos e Israel, é interpretada por alguns jornalistas como uma tentativa de substituição geopolítica do Nord Stream do mar Báltico pelo corredor EastMed-Poseidon do Mediterrâneo.

Em defesa da hegemonia
Por outro lado, a estratégia de Washington para conter a expansão global de Pequim concentra-se em sufocar as cadeias de abastecimento que alimentam o crescimento industrial e tecnológico do gigante asiático. Ao impor severas sanções e restrições comerciais a países-chave como Rússia, Venezuela e Irã, os Estados Unidos tentam bloquear o fluxo de matérias-primas críticas — especialmente petróleo, gás e minerais estratégicos — em direção aos mercados chineses. Esta política busca enfraquecer a base manufatureira da China e, ao mesmo tempo, encarecer os custos de produção de suas empresas, limitando sua capacidade de competir em setores de alta tecnologia e infraestrutura em nível internacional.
Entretanto, esta ofensiva do Ocidente colide frontalmente com a contraestratégia sustentada por Pequim, assentada sobre o monopólio quase absoluto dos elementos tecnológicos do futuro: as terras raras. Longe de recuar, o gigante asiático consolidou um avanço assimétrico e estratégico neste setor-chave. De acordo com os relatórios da Agência Internacional de Energia (IEA), a China não apenas domina cerca de 69% da extração mineral global de terras raras, como também exerce um controle vertical sufocante ao concentrar mais de 90% da capacidade mundial de refino e separação e 95% da fabricação de ímãs permanentes, insumos indispensáveis para a produção de veículos elétricos, microchips, aerogeradores e armamentos de última geração.
Diante da pressão de Washington, Pequim transformou este monopólio técnico em uma arma de coerção macroeconômica. Por meio de sucessivas ondas de restrições e licenças de exportação de uso duplo aplicadas a minerais críticos, compostos de terras raras (como o samário ou gadolínio) e tecnologias de processamento, a China demonstrou sua capacidade de paralisar ou encarecer drasticamente cadeias de valor inteiras nos Estados Unidos, Europa e Japão. De fato, análises recentes advertem que o endurecimento desses controles fronteiriços coloca diretamente em risco mais de 6,5 trilhões de dólares anuais em produção industrial manufatureira fora das fronteiras chinesas. Ao vetar o fornecimento a contratantes de defesa estadunidenses e estrangular as cotas de exportação de ímãs permanentes, Pequim busca inverter a equação de dependência: enquanto Washington tenta sufocar o fornecimento energético fóssil da China, o Politburo responde bloqueando as bases minerais da transição tecnológica do Ocidente.
A pressão estadunidense sobre esses três fornecedores estratégicos busca desmantelar os corredores logísticos e financeiros alternativos que Pequim construiu nos últimos anos. Irã e Rússia representam pilares fundamentais para a segurança energética chinesa, fornecendo milhões de barris de petróleo bruto diariamente por meio de rotas que evitam os pontos de controle tradicionais da Marinha estadunidense. Ao sancionar as entidades financeiras e as frotas de transporte que facilitam esse comércio, Washington tenta cortar as receitas desses regimes e obrigar a China a depender de mercados energéticos globais mais suscetíveis à influência ou regulamentação do Ocidente.
Armamentização e fornecimento energético
O mapa energético global deixou de ser um terreno de consensos diplomáticos para se transformar em um cenário cru de acumulação e reconfiguração de poder. Nas últimas décadas, Washington realizou uma mudança estratégica fundamental: as crises de abastecimento já não são percebidas como ameaças à segurança nacional, mas como janelas de oportunidade para a rentabilidade financeira e o reposicionamento geopolítico. Esta lógica mercantilista instrumentaliza a instabilidade global, transformando a vulnerabilidade de regiões inteiras no motor que consolida a hegemonia econômica das corporações estadunidenses.
A urgência por trás desta corrida pelos recursos fósseis é hoje exacerbada pelo surgimento da inteligência artificial e da infraestrutura digital de última geração, cujas demandas elétricas e industriais são massivas e insaciáveis. Em sua disputa frontal contra a China pela supremacia tecnológica e econômica, os Estados Unidos recorrem cada vez mais à economia de guerra e à desestabilização geopolítica como mecanismos para derrubar obstáculos materiais e assegurar o controle de novos territórios estratégicos. A violência e o conflito armado revelam-se, sob esta perspectiva, não como anomalias do sistema internacional, mas como as ferramentas necessárias de uma potência que busca monopolizar os recursos indispensáveis para a indústria do amanhã.
Entretanto, embora seja planejada como solução, a política militar de Trump resulta em mais problemas inclusive para os próprios Estados Unidos. O desequilíbrio nos preços do petróleo a partir do conflito com o Irã combina-se com a situação crítica das reservas petrolíferas estadunidenses, que chegaram ao seu nível mais baixo em 43 anos.
Capitalismo sem saída
Muito para trás parecem ter ficado os anos em que as cúpulas internacionais passavam dias inteiros falando da urgente “transição energética” e do suposto compromisso dos Estados com a descarbonização. Neste momento, com as ultradireitas governando, a burguesia aposta nos métodos mais destrutivos para sustentar seus lucros. Ainda assim, a burguesia não tem seu domínio garantido pelas forças militares. Os tropeços de Trump no Irã e de Putin na Ucrânia refletem que os imperialismos não conseguem impor seus interesses apenas pela força. Respostas como as do povo da Bolívia se multiplicarão em um mundo onde o bem-estar e a paz são negados à classe trabalhadora.
Com a manutenção do capitalismo, daqui para frente nos esperam mais confrontos, depredação ambiental e exploração, mas também resistência dos povos. Por isso, é urgente fortalecer uma alternativa socialista no mundo para mudar o rumo da história. Uma saída estratégica é impossível sem a construção e consolidação de uma ferramenta revolucionária internacional. Esta ferramenta é indispensável para superar a dispersão das lutas atuais, unificar as resistências em uma única frente e organizar as massas com independência política para disputar o poder. Sem um instrumento dessa natureza, a força alcançada pelas mobilizações atuais corre o risco de se dispersar. Por tudo isso, o agrupamento internacional dos revolucionários é a tarefa mais urgente para demolir as estruturas do sistema e abrir caminho para uma sociedade socialista.







