Por Martin Suchanek, Poder Operário, Alemanha.

Foi um acampamento muito especial. E, além disso, um grande sucesso. O simples fato de termos conseguido realizar o evento apesar dos graves obstáculos impostos pelo Estado já é, por si só, um sucesso político. Poucas semanas antes do evento, o local originalmente previsto foi cancelado devido à pressão exercida pelo Verfassungsschutz (serviço de inteligência nacional). Para nós, no entanto, sempre esteve claro que levaríamos o evento adiante independentemente do local. E foi exatamente o que fizemos. Gostaríamos de aproveitar esta oportunidade para agradecer a todos os nossos companheiros e apoiadores que ajudaram a organizar o «Internationalismus 2026» mesmo nessas condições e a transformá-lo em um sucesso.

No entanto, o mais importante é que este foi o primeiro acampamento organizado pela Arbeiter:innenmacht (Poder Operário da Alemanha), Arbeiter*innenstandpunkt (Perspectiva Operária da Áustria), Marxistische Aktion Schweiz (Ação Marxista da Suíça) e REVOLUTION (Organização Internacional da Juventude Comunista da Áustria e Alemanha) da Liga Internacional Socialista (LIS). Mais uma vez, pudemos receber companheiros e companheiras de nossas organizações irmãs: o Movimento Socialista dos Trabalhadores (MST), da Argentina; Workers Power, da Grã-Bretanha; o Partito Comunista dei Lavoratori (PCL), da Itália; e Socialismo y Libertad, do Estado espanhol, além de companheiros e companheiras da Dinamarca.

Internacionalismo

Para nós, internacionalismo não é simplesmente uma palavra. Pelo contrário, ele molda nossa política, nossos métodos, nosso programa e nossa estrutura organizativa. Durante cinco dias, abordamos questões fundamentais relacionadas à luta de classes internacional e à luta contra o governo alemão liderado por Merz, em 65 oficinas e debates plenários. Se queremos mudar este mundo — o que significa revolucioná-lo —, devemos compreender as causas profundas da crise capitalista, a luta pela repartição do mundo, a catástrofe ecológica que se aproxima, a guerra, os deslocamentos, o crescimento da extrema direita, o racismo e o nacionalismo. Devemos compreender a luta contra a opressão social das mulheres e das pessoas queer, dos jovens, das nações oprimidas, dos migrantes e dos refugiados como parte integrante da luta de classes, e aprender a construir esses movimentos e mobilizações, incorporando neles uma perspectiva socialista. Infelizmente, o espaço disponível neste relatório não é suficiente para abarcar sequer os pontos de debate e as contribuições mais importantes. No entanto, ficamos especialmente satisfeitos com as contribuições de companheiros e companheiras de outras seções, alguns dos quais fizeram suas apresentações presencialmente e outros de forma on-line. Entre eles estavam Ezra, do Quênia; Shahzad, do Paquistão; Bill, dos EUA; e Mariano Rosa, da Argentina.

Temas

Nas sessões, abordamos o desenvolvimento da economia mundial, o declínio da hegemonia estadunidense e a ascensão da China como o mais importante rival imperialista dos EUA, assim como a crise no interior da União Europeia. Além disso, analisamos profundamente a guerra na Ucrânia e seu duplo caráter: por um lado, uma nova Guerra Fria entre a Rússia e a OTAN; por outro, a justificada guerra de defesa da Ucrânia. 

Dedicamos várias oficinas à situação no Irã, à luta contra o imperialismo estadunidense e às perspectivas revolucionárias para derrubar o regime reacionário daquele país. Também analisamos a situação na Palestina com o mesmo nível de profundidade.

O segundo dia foi dedicado à luta contra a opressão das mulheres e das pessoas LGBTIAQ, assim como à luta contra o racismo. Pretendemos publicar, no final deste ano, um conjunto abrangente de teses sobre o racismo como parte de nossa revista teórica «Revolutionärer Marxismus»  (Marxismo Revolucionário). Apresentamos um relatório preliminar sobre esse trabalho durante o acampamento.

A crise na UE e o ataque sem trégua de Merz às aposentadorias, ao emprego e aos sistemas de seguridade social constituíram outro tema central. Como sempre, isso coloca uma questão urgente: como podemos acabar com a influência da burocracia, que paralisa toda resistência com sua política de colaboração de classes e seu apoio ao imperialismo alemão? Outro tema central foi a luta contra o rearmamento e a militarização, tanto em nível teórico quanto prático, e na campanha da REVOLUTION para mobilizar nas escolas e nas ruas, como parte de uma ampla aliança contra o serviço militar obrigatório e a Bundeswehr (Exército alemão) nas escolas.

Crise de direção

Assim como em todos os nossos acampamentos, um tema central foi a crise de direção da classe trabalhadora e nossa intervenção no movimento operário. Por isso, várias oficinas foram dedicadas ao Die Linke, à crítica de seu programa reformista e às tarefas enfrentadas pelos revolucionários. Também concentramos nossa atenção nas lições que devem ser extraídas do fracasso histórico do stalinismo, um debate que consideramos essencial, dado que as correntes maoistas e stalinistas atualmente se apresentam, sobretudo entre os jovens, como uma alternativa — ainda que falsa — ao reformismo social-democrata e à burocracia sindical.

Um dos pontos altos de nossos debates foi a perspectiva oferecida pela reagrupação revolucionária para a classe trabalhadora, especialmente o debate sobre a situação na Argentina, onde a Frente de Esquerda dos Trabalhadores-Unidade (FIT-U) encontra-se em um ponto de inflexão. Ela enfrenta a tarefa de superar suas limitações como mero frente eleitoral e transformar-se em um partido capaz de organizar as dezenas de milhares de eleitores que deram as costas ao peronismo e se voltaram para a FIT-U, conquistando-os para um partido operário revolucionário unificado, baseado em um programa por um governo dos trabalhadores. No marco da turnê europeia de Alejandro Bodart, pretendemos realizar um grande ato público em Berlim no início de outubro.

Diferentemente do acampamento anterior, também organizamos várias oficinas para ensinar habilidades práticas. E, como sempre, não houve apenas debates e discussões, mas também uma noite política e cultural e um programa de lazer que incluiu esportes, sessões de cinema, um concerto de violoncelo e violino e uma batalha de rap — que já se tornou um elemento habitual de nossos acampamentos.

Saímos do acampamento nos sentindo revitalizados.

Por fim, em uma série de oficinas, concentramos nossa atenção na construção da Liga Socialista Internacional (LIS), em seu programa, seus métodos e seu futuro desenvolvimento como corrente internacional, incluindo nosso trabalho no Quênia, Paquistão e Argentina, assim como nossas campanhas internacionais, como nossa participação na Flotilha Global Sumud. Também arrecadamos centenas de euros para nossos companheiros do Líbano e sua luta contra a «normalização»  das relações com Israel por parte do governo libanês. Dedicamos a sessão plenária de encerramento integralmente à questão da construção de nossa corrente internacional e de como podemos alcançar uma Internacional revolucionária. Os oradores da Argentina, Espanha, Alemanha e Áustria, assim como numerosas intervenções do público, fizeram uma avaliação muito positiva do evento. E com razão.

«Internacionalismus 2026» contribuiu para fortalecer os grupos «Arbeiter:innenmacht», «Arbeiter*innenstandpunkt», «Marxistische Aktion» e «REVOLUTION». Ao mesmo tempo, e sobretudo, «Internacionalismus 2026» também fortaleceu a LIS.

Em primeiro lugar, porque nossos companheiros adquiriram novos conhecimentos e novas habilidades para a luta de classes. Uma tarefa fundamental de todo acampamento é fortalecer os revolucionários, formar e fortalecer quadros para a luta. Porque os quadros não podem ser formados apenas no momento da revolução. A consciência revolucionária não cai do céu, e a organização não surge espontaneamente. Como analisamos as situações, como convencemos as pessoas e como organizamos as lutas: tudo isso precisamos aprender.

E o acampamento contribuiu enormemente para isso. Passamos uma semana adquirindo conhecimentos e aprendendo como, juntos, podemos levá-los ao mundo nos próximos meses. Em nossas escolas, universidades e locais de trabalho, nos sindicatos e em organizações como o Die Linke.

Em segundo lugar, um acampamento de cinco dias como «Internacionalismus 2026» não é simplesmente um lugar onde as pessoas adquirem novos conhecimentos. Ele também serve para fortalecer uma organização como um coletivo unido pela solidariedade, como instrumento de luta conjunta. Porque é o espírito de luta compartilhado, a moral que um acampamento desse tipo é capaz de fomentar e a experiência vivida de intercâmbio e internacionalismo para além das fronteiras que fazem de um acampamento verdadeiramente um sucesso. Porque não queremos apenas compreender o mundo; queremos transformá-lo radicalmente, derrubar todas as condições nas quais as pessoas são obrigadas a ser seres escravizados, desprezados, humilhados e alienados. Quem quiser criar um mundo socialista, livre da exploração e da opressão, também deve desejar os meios para fazê-lo: um partido revolucionário e uma Internacional!