Em uma nota assinada por Rafael Santos e publicada no Prensa Obrera (1), o PO novamente faz gala da mentira e da amálgama para atacar o MST e a LIS, coloca-se do lado oposto da solidariedade operária internacionalista ao praguejar contra o Comboio Internacional de Solidariedade com a Ucrânia e, de passagem, ratifica sua política semicampista funcional a Putin. Uma verdadeira “salada russa”.
Por Guillermo Pacagnini
Mentiroso serial
A nota, que pretende polemizar com um artigo de Rubén Tzanoff — dirigente do SOL Espanhol e da LIS, embora Santos o apresente como sendo do MST — dispara repetidamente uma série de mentiras e disparates sobre a natureza do Comboio e sobre nossa política.
Primeira mentira de Santos: afirma que a iniciativa é de “apoio político à OTAN”, solidária com o “lado ucraniano-otanista” na “guerra que trava contra Putin”. Evidentemente, não apresenta nenhuma citação que sustente tamanha barbaridade.
Segunda falsidade: investe contra a LIS perguntando, de maneira capciosa, se vamos intervir nas ações contra a guerra e “continuar reivindicando dos governos imperialistas o envio de armas, bombas e que aprofundem os ataques contra a Rússia”. Novamente, toda evidência brilha pela ausência.
E prossegue seu texto, recorrendo a um arsenal de amálgamas vulgares. Pretendendo colocar na boca da LIS declarações individuais de David Acosta, um dos vários coordenadores do Comboio, nas quais ele se refere, entre outras questões, a supostos “conselhos militares dirigidos às potências imperialistas”, que não têm relação com a convocatória oficial do Comboio e foram extraídas de um boletim da Rede Europeia de Solidariedade. E misturando, em um interminável parágrafo, até a “ICE nos EUA” e a “perseguição da Espanha aos imigrantes africanos em Ceuta e Melilla”… Todas essas são afirmações que não compartilhamos e que manifestamente não fazem parte da política e do programa da LIS. Um método caótico, para tentar demonstrar o indemonstrável.
Esse modus operandi atravessa toda a nota, incluindo afirmações que beiram o ridículo: “O plano proposto pelo Comboio (…) quer confiscar os fundos russos retidos/roubados pelos EUA para comprar mais armamentos para o exército ucraniano de Zelensky”.
Cabe separar a muita palha do pouco trigo da nota de Santos para chegar à essência de suas afirmações. Que são duas: atacar uma iniciativa de frente único para solidarizar-se com o povo da Ucrânia e, novamente a partir do campismo, ratificar sua solidariedade com Putin e com a agressão armada contra esse povo.
O Comboio: unidade de ação solidária com o povo ucraniano
Como bem explicita a RT em sua nota, o Comboio é uma iniciativa solidária de unidade de ação para apoiar o povo da Ucrânia. (2) Participam dela ativistas e organizações sindicais, movimentos sociais e forças políticas de diferentes países, incluindo a Ucrânia. Busca-se articular uma campanha internacional de caráter humanitário para arrecadar e levar ao povo ucraniano insumos hospitalares, geradores elétricos, veículos e outros materiais necessários que possam ser adquiridos ou recebidos como doação.
Como a própria nota também explicita, para além do transporte de ajuda logística e humanitária, o Comboio pretende se transformar em uma ação política para dar visibilidade e fortalecer a solidariedade internacional com o povo agredido, promovendo uma participação mais ampla de organizações operárias e populares de diferentes países. A LIS aderiu a essa iniciativa, com nossa própria identidade e programa, sem assinar o documento de convocação por considerá-lo unilateral — questão que deixamos explicitada —, mas o método de tergiversações do PO oculta esse fato. O que ratificamos em uma nova publicação. (3)
E fazemos isso dando continuidade a diversas campanhas e ações internacionalistas de apoio ao povo ucraniano em geral e aos nossos camaradas da Liga Socialista Ucraniana/LIS, que fazem parte da heroica resistência, inclusive com companheiros que tombaram na frente de combate. E o povo da Ucrânia encontra-se em uma situação extremamente complicada devido à destruição de hospitais e da infraestrutura energética, entre outras atrocidades perpetradas pelo imperialismo russo agressor, algo que somente a insensibilidade e a insensatez política do PO podem desconhecer.
Uma iniciativa que possui muitas semelhanças com a Flotilha Global Sumud, de unidade de ação ampla, em torno de dois pontos claros: o apoio ao povo palestino e a rejeição à agressão sionista, para além das importantes diferenças existentes entre seus integrantes. Nesse caso, o PO acabou aderindo à última missão. Entretanto, diante deste Comboio, qual é a razão pela qual o PO renega e combate uma ação unitária de solidariedade operária e popular internacionalista? Certamente, o nacional-trotskismo genético do PO faz com que sua predisposição às campanhas internacionalistas seja episódica, escassa e ordenada por suas necessidades nacionais. Mas, essencialmente, trata-se de sua política campista absolutamente funcional a Putin, com a qual temos intensificado a polêmica desde o início da invasão.
Campismo recarregado
Mas a verdadeira essência da nota de Santos é seu caráter funcional ao governo de Putin. Como foi o caso da Conferência de Atenas, na qual a reivindicação central pela retirada das tropas russas e contra a invasão imperialista esteve ausente de seu documento. (4) Um esquecimento que denuncia essa predileção pelas posições campistas do PO, que nesta nota parece aparecer em versão “aumentada e corrigida”.
Para Santos, o essencial da “guerra entre a OTAN e a Rússia” é que existe “uma frente imperialista que quer impor uma mudança de regime na Rússia, saquear seus recursos econômicos e superexplorar mais de 100 milhões de trabalhadores russos”. … Com uma grande imaginação e afastado de toda realidade, além de afirmar que “a guerra começou muito antes. Podemos tomar como ponto de partida o golpe de Maidan em 2014…” (para fazer a Rússia aparecer como vítima?), recorre a uma insólita comparação histórica: seria necessário evitar uma espécie de “Tratado de Versalhes” que imponha condições econômicas à Rússia (sic).
Pretende desqualificar nossa política de apoio ao povo afirmando que a guerra “não se define por quem invadiu ou disparou primeiro”. Uma tremenda barbaridade, quando é evidente que o exército russo invadiu, ocupou e bombardeou, destruindo inclusive hospitais. Ignora todo o posicionamento histórico do marxismo revolucionário.
Nossa política, a dos revolucionários, que ratificamos na resolução do III Congresso da LIS (5), é integral e segue o caminho indicado por Lenin e Trotsky. Parte de uma análise marxista que considera todos os elementos da realidade, isto é, os três sujeitos envolvidos no conflito. A Ucrânia é um país semicolonial, para além da orientação pró-OTAN do governo burguês de Zelensky. A Rússia, independentemente do debate sobre seu grau de desenvolvimento, é um país imperialista, uma grande potência (e não uma “potência média”). O terceiro sujeito é a OTAN, que evidentemente possui ingerência no conflito: é uma aliança militar imperialista liderada pelos EUA. E uma análise correta considera os dois processos que se combinam nesta guerra: a invasão da Rússia, uma grande potência agressora, contra uma semi colônia como a Ucrânia, que se defende; e a intervenção imperialista norte-americana não direta, que, evidentemente, pretende condicionar a Rússia a serviço da disputa pela hegemonia e da nova ordem que deseja impor. A política revolucionária deve responder de maneira integral a esse duplo caráter: uma guerra justa de soberania nacional contra a potência invasora e, ao mesmo tempo, um enfrentamento interimperialista. Assim como é completamente equivocado omitir qualquer um desses processos, é principalmente equivocado ignorar o direito à autodeterminação do povo ucraniano. Impulsionar o derrotismo é colocar-se no campo do imperialismo russo. A política dos revolucionários nos obriga a combinar a defesa do direito à autodeterminação do povo ucraniano com a rejeição à invasão russa e a exigência da retirada de suas tropas, bem como a rejeição à ingerência e à utilização do conflito pelos EUA e pela OTAN. E, nesse marco, a delimitação categórica em relação ao governo de Zelensky, como vêm fazendo nossos companheiros da LSU/LIS.
O fato de que, por seu próprio interesse, a OTAN apoie a Ucrânia contra a Rússia não obriga os revolucionários a desconhecer o direito do povo ucraniano à autodeterminação. Como Lenin assinalava com toda clareza: “A circunstância de que a luta pela liberdade nacional contra uma potência imperialista possa ser aproveitada, em determinadas condições, por outra ‘grande’ potência em benefício de suas finalidades, igualmente imperialistas, não pode obrigar a social-democracia a renunciar a reconhecer o direito das nações à autodeterminação.” (6)
Enquanto isso, o PO continua preso aos seus dilemas, afirmando que a restauração capitalista não foi concluída, que existe uma casta burocrática e que a Rússia é apenas uma “potência média”. Para além do legítimo debate sobre o grau de desenvolvimento imperialista — de caráter mais regional ou com predominância de seu aspecto militar —, não se pode desconhecer, como faz Santos, que é o segundo exército mais poderoso do mundo (7) que agride um país semicolonial e que está desenvolvendo uma clara estratégia anexionista.
A “confraternização revolucionária dos trabalhadores de ambos os países e a instauração de governos de trabalhadores”, corolário da nota de Santos, passa a ser um cumprimento protocolar, puro propagandismo no marco de uma política regressiva e equivocada de ponta a ponta.
Os incuráveis herdeiros do mestre Altamira
É evidente que os dirigentes do Partido Obrero, em cada uma de suas atuações, demonstram não apenas que não renunciam de forma alguma à marca genética de seu fundador, Jorge Altamira, mas que, em alguns aspectos, demonstram ser seus alunos prediletos. Não apenas por suas análises catastrofistas, que os levam a se posicionar de maneira equivocada diante da realidade mundial atual, abordando todo conflito como uma ante-sala de uma terceira guerra mundial. Mas também por seu método não científico de tomar apenas um aspecto da realidade e extrair conclusões gerais que derivam em políticas equivocadas — raciocínio compartilhado por sectários e oportunistas e bem abordado por Trotsky em suas célebres discussões com o POUM durante a Guerra Civil Espanhola (8). E que o leva a se desorientar completamente na hora de definir o caráter desta guerra.
Mas, fundamentalmente, demonstra a marca altamirista no método utilizado para a polêmica, recorrendo à tergiversação e à amalgama.
Trotsky afirmava que um marxista é reconhecido pelo método de se informar, rejeitando o costume daqueles que ajustam a realidade a um esquema preestabelecido para demonstrar o indemonstrável. Rejeitava o método da amalgama, que consiste em escolher elementos parciais da realidade, distorcê-los, articulá-los de maneira arbitrária e temperá-los a serviço de demonstrar o indemonstrável. Questão que estudou muito bem ao analisar o método do stalinismo, especialista em amalgamar e colocar no mesmo saco de agentes do imperialismo todos os revolucionários e trotskistas. (9)
O PO transformou esse método de intrigas e mentiras em uma prática habitual para conduzir os debates e desqualificar o oponente.
É isso que Santos faz em seu artigo escandaloso. Isso seria muito grave se se tratasse apenas de uma discussão jornalística. Mas é muito pior, porque se trata de colocar de pé uma campanha de solidariedade operária e internacionalista com um povo submetido a uma criminosa agressão imperialista.
- Ucrânia: a LIS e o MST no comboio de apoio à guerra imperialista
- Comboio de Solidariedade Internacional à Ucrânia
- Ucrânia: por que participamos do Comboio de Solidariedade Internacional?
- Abaixo as guerras imperialistas! Pela unidade revolucionária internacional dos trabalhadores
- III Congresso da LIS: Documento sobre a Ucrânia
- Lenin, V. O direito das nações à autodeterminação, Prosveschenie, 1914.
- Os 20 exércitos mais poderosos do mundo | WIRED.
- Trotsky, L. Os ultraesquerdistas em geral e os incuráveis em particular. 1937, em A Revolução Espanhola, Ed. EY.
- Trotsky, L. Um novo marco na amalgama stalinista. Escritos, 1935








