O governo está tentando desmantelar a direção de uma luta exemplar.

No dia 3 de fevereiro, com um precedente inédito, o próprio Chefe de Gabinete, Manuel Adorni, pelas redes sociais, com o ameaçador título de “quem faz, paga”, assegurou nos meios de comunicação que seriam demitidos 10 dirigentes do Hospital e que outros 29 seriam sancionados. A virulência do governo é proporcional ao golpe que recebeu com essa luta exemplar, que conquistou um triunfo salarial inédito, transformando-se em um exemplo para todo o movimento operário. É preciso defender a nova direção antiburocrática do Garrahan, impulsionando uma grande campanha nacional e internacional.

As autoridades do hospital haviam iniciado um processo de sindicâncias internas fraudadas, por uma medida de força realizada em outubro de 2025, contra os principais referentes da luta do Garrahan, entre os quais se encontra nossa companheira e Secretária-Geral da Associação de Profissionais e Técnicos, Norma Lezana, outros membros dessa associação, dirigentes da ATE e ativistas. Tão grosseira e ilegal é a operação montada pelo governo e pelas autoridades do hospital que o Chefe de Gabinete nacional a anunciou pelos principais jornais e canais de TV antes que o processo interno de sindicâncias tivesse sido concluído, explicando abertamente que queriam acabar com a direção de esquerda do hospital, cuja principal dirigente é publicamente conhecida por ser de nosso partido, o MST.

Esse nível de ataque tem razão de ser no fato de que a heroica luta do Garrahan demonstrou que o Governo pode ser derrotado. A luta do Garrahan não apenas conquistou um triunfo econômico significativo, como também expôs com firmeza que o Governo segue de pé unicamente porque à frente das centrais sindicais não há dirigentes como Norma Lezana. No contexto da pretendida votação da contrarreforma trabalhista, há a intenção de enviar uma mensagem ao conjunto das trabalhadoras e dos trabalhadores. Não devemos permitir isso.

Norma Lezana

Uma derrota categórica

No ano de 2025, as trabalhadoras e os trabalhadores do hospital Garrahan foram o único exemplo de luta operária que derrotou categórica e repetidas vezes a política de ajuste de Milei. Para isso, levaram adiante um plano de luta de longo fôlego, com consultas permanentes aos trabalhadores e incontáveis greves, marchas, festivais e uma infinidade de iniciativas que os colocaram no centro da cena e transformaram sua luta em uma causa nacional, que chegou a ter mais de 90% de apoio.

O triunfo foi categórico porque o Governo apostou em quebrá-los, mas, longe de conseguir isso, em sua obstinação, um aparente “conflito salarial” escalou e se transformou em um conflito político. Isso levou ao aprofundamento das medidas sindicais, conseguiu ampliar o arco unitário em torno do conflito e se instalou no debate nacional, não apenas como um conflito salarial, mas sobre a importância de sustentar o hospital pediátrico mais importante da Argentina e a necessidade de que seja declarada a emergência sanitária pediátrica. Em consequência, reforçou-se ainda mais a solidariedade e o apoio social a essa importante luta.

Além disso, veio à tona a existência de uma trama de corrupção nas próprias autoridades do hospital, que destinavam fundos provenientes de doações da sociedade argentina e de serviços cobrados no hospital público para duvidosos “investimentos financeiros”, o que derrubou a mentira de que não havia recursos.

A força acumulada pela luta do Garrahan encurralou deputados e senadores, que acabaram votando a emergência sanitária pediátrica. Isso obrigou o Governo a vetar a lei e a voltar a votá-la com maioria especial (obtendo ainda mais apoio do que na votação anterior). Encurralado e derrotado, mas em seu afã de não ceder, o Governo, que segue sem aplicar a lei votada, viu-se obrigado a conceder um aumento salarial de 61%. E isso em um contexto de uma pauta salarial para o restante dos trabalhadores do país de 1% ao mês. Ou seja, um duro golpe na política salarial e na burocracia cúmplice da convalidação da redução salarial.

Um exemplo que não podem tolerar

O triunfo do Garrahan revelou que o Governo, por mais tetos salariais e intenções de destruir a organização das trabalhadoras e dos trabalhadores, não consegue vencê-los se estes lutam até o final. Também mostrou que, para lutar até o final, é necessária uma direção sindical combativa, democrática, plural e classista. Este último ponto é crucial, já que o golpe indireto na burocracia sindical e em sua política de que “não se pode” recebeu um desmentido direto, aprofundando ainda mais sua crise, com a perspectiva de uma direção alternativa.

Em uma palavra, o Garrahan coloca em risco toda a política de Milei para o movimento operário. Desde suas intenções — as do imperialismo e dos capitalistas nacionais — de destruir as condições de trabalho e os direitos sindicais, até o enfraquecimento do controle de seus agentes no movimento operário.

No mesmo mês em que pretende modificar a legislação trabalhista na Argentina (que, embora avance no caminho, não está livre de perigos), precisa enfraquecer o setor que mais vem lutando, na prática, contra essa reforma e que se transformou em um exemplo a ser seguido. E esta é a explicação última desse ataque virulento, que não deixa de revelar a insegurança política de Milei.

Tudo ou nada…

Desde o momento em que vieram à tona as sindicâncias, no final do ano passado, a Associação de Profissionais e Técnicos, dirigida por Norma Lezana, advertiu sobre a manobra que estava sendo preparada, que, longe de ser uma sindicância interna, era uma arma política de perseguição sindical. Imediatamente, iniciaram-se as defesas correspondentes, a denúncia política dessa perseguição e a manutenção das atividades de mobilização, com o objetivo de articular a luta contra a reforma trabalhista e contra a intenção de demissões.

Agora, diante da pressa do governo em demitir ilegalmente as companheiras e os companheiros, a partir do Hospital, cercados por uma ampla solidariedade interna e pelo ativismo do restante do país, foi lançada uma campanha de solidariedade para impedir que se concretize esse atropelo à liberdade sindical. Campanha que é imprescindível estender em nível internacional, motivo pelo qual estamos chamando todas as organizações comprometidas com a luta de classes e com a resposta aos avanços autoritários das ultradireitas a cercar de solidariedade a direção do Hospital Garrahan, enviando vídeos e pronunciamentos que difundiremos amplamente.