Desde Socialistas em Luta (SeL), rejeitamos a intensificação das políticas coercitivas do governo dos Estados Unidos contra Cuba. As disposições recentes orientadas a penalizar terceiros países que comercializem petróleo ou derivados com a ilha constituem medidas unilaterais de pressão econômica, de caráter extraterritorial, que afetam de forma direta as condições materiais de vida da população. Essas políticas não são instrumentos de democratização: são mecanismos de castigo coletivo que transferem disputas geopolíticas para o terreno social.

A aplicação dessas medidas coincide com um momento de extrema vulnerabilidade. A interrupção do fornecimento energético proveniente da Venezuela — próximo de 30 mil barris diários, entre 30 e 40% das necessidades nacionais — deixou Cuba sem um de seus principais suportes operacionais. Em janeiro, o país recebeu apenas 84.900 barris em uma única entrega proveniente do México, muito abaixo da média diária de 37 mil barris registrada durante 2025. O resultado é uma crise energética profunda, com apagões prolongados, deterioração produtiva e graves impactos sobre os serviços básicos.

Nesse contexto, é necessário reconhecer um fato social incontornável: o esgotamento material e político levou setores crescentes da população a perceber a pressão externa — e inclusive a intervenção — como uma possível saída. Essa percepção não surge de uma adesão ao poder estrangeiro, mas da ausência de horizontes internos críveis, do fechamento do debate político e da falta de mecanismos efetivos para incidir nos rumos do país. Compreender essa deriva é uma condição indispensável para deslegitimá-la.

Desde uma perspectiva de esquerda democrática, afirmamos com clareza que nenhuma transformação emancipatória pode provir da coerção externa. As potências não atuam em nome dos direitos dos povos, mas de seus próprios interesses estratégicos. A história latino-americana demonstra que a pressão econômica e a tutela política geram dependência, fragmentação social e novas formas de subordinação, e não democracia nem justiça social.

Mas, da mesma forma, seria politicamente estéril atribuir a crise cubana exclusivamente a fatores externos. A responsabilidade do atual bloco governante é central. Durante décadas consolidou-se um modelo de poder altamente centralizado, com escassa prestação de contas, hostil ao pluralismo político e cada vez mais desconectado das dinâmicas sociais reais. A redução do socialismo à administração burocrática e ao controle político esvaziou de conteúdo o projeto emancipatório que, em outro momento, mobilizou amplos setores da sociedade.

A soberania não pode sustentar-se apenas como rejeição à ingerência estrangeira. A soberania é inseparável da democracia política, dos direitos civis e da participação popular efetiva. Quando a cidadania não dispõe de canais reais para deliberar, organizar-se e disputar decisões estratégicas, a soberania converte-se em uma fórmula retórica administrada de cima.

As políticas de sanções, restrições financeiras e isolamento comercial impostas pelos Estados Unidos são reais e profundamente danosas. Mas seu impacto é amplificado por um bloqueio interno feito de rigidezes econômicas, falta de transparência, penalização do dissenso e uma cultura política que confunde estabilidade com paralisia. Esse entrelaçamento explica por que amplos setores sociais não percebem saídas endógenas e acabam depositando expectativas — contraditórias e desesperadas — em fatores externos.

Hoje, Cuba enfrenta uma crise multidimensional: uma população envelhecida que supera 20%, pensões que não cobrem o custo básico de vida, um sistema de saúde deteriorado, uma educação em retrocesso, serviços públicos intermitentes, infraestrutura colapsada e um processo de dolarização informal que aprofunda desigualdades. A isso soma-se a persistência da repressão política, com mais de 1.185 pessoas privadas de liberdade por exercer direitos fundamentais, o que corrói ainda mais a confiança social.

Desde Socialistas en Lucha (SeL), sustentamos que a melhor maneira de fechar o caminho à intervenção estrangeira não é o imobilismo, mas a democratização profunda. Somente uma abertura real de direitos políticos, o reconhecimento do pluralismo social, a legalização da organização independente e a restituição da soberania popular podem reconstruir um horizonte compartilhado e restituir legitimidade ao projeto socialista.

Cuba não enfrenta uma disjuntiva entre coerção externa ou continuidade autoritária. A verdadeira alternativa é entre dependência e democracia, entre administração burocrática e protagonismo popular.

Nossa posição é inequívoca: rejeição a toda forma de dominação externa e oposição à ordem interna que fechou a participação social. Defendemos um socialismo democrático, baseado em direitos, deliberação pública e controle popular do poder.

Nem coerção imperial nem fechamento burocrático.

Por soberania popular, democracia política e socialismo desde baixo.

Socialistas en Lucha (Socialistas em Luta)