O Partido Obrero publicou uma nota muito crítica à Conferência Antifascista que será realizada em Porto Alegre, de 26 a 29 de março. Nessa nota, como é seu costume histórico, desenvolve toda uma série de mentiras e ataques infundados ao MST. Trata-se de um método lamentável, ainda que não nos surpreenda por ser recorrente nessa organização.

Por um lado, o PO critica o caráter da convocatória com base na caracterização de alguns de seus convocantes de diversos países. E, a partir daí, falseia afirmando que o MST avaliza a política desses setores por participar de reuniões prévias ou do próprio evento em março. A acusação é ridícula do começo ao fim.

No mundo atual, em que uma de suas características centrais é a ascensão de novas ultradireitas de caráter altamente reacionário ou neofascista, impõe-se a necessidade política de impulsionar a maior unidade de ação nas ruas para derrotá-las. Essa é a tarefa que, em todos os países, deve ser levada adiante contra os governos que aplicam esses planos ultrarreacionários ou qualquer plano de ajuste contra os direitos sociais e democráticos do povo trabalhador.

Ao mesmo tempo, em diferentes países surgem eventos de debate, como esta Conferência de Porto Alegre, em que a tarefa colocada é debater a fundo como enfrentar as ultradireitas, com quais políticas, com que relação entre a mobilização e a construção de uma política alternativa que não pode ser junto a forças pró-burguesas nem de caráter reformista em seu programa e projeto. Onde surge a possibilidade de discutir tudo isso, é importante fazê-lo, para que anticapitalistas e socialistas ganhemos força e espaço nessa luta central contra os planos de Trump, Milei, o bolsonarismo e outras expressões ultradireitistas perigosas e atuais.

É por essa razão que não apenas é legítimo, como também necessário, participar de todo evento de debate e intercâmbio, como a Conferência de Porto Alegre, para a qual fomos convidados a participar a fim de difundir nossas propostas concretas e estratégicas — e assim o faremos. O MST não é organizador desse evento; não é nossa responsabilidade nem quem participa, nem a política desses setores em cada país. Somos participantes de um evento ao qual fomos convidados e, como tais, levaremos ali as posições que consideramos corretas, como parte do intercâmbio que será desenvolvido.

Também farão parte da Conferência de Porto Alegre outras organizações da Argentina, entre elas Vientos del Pueblo, organização que integrou as listas da Frente de Izquierda junto conosco. Se o PO e outras forças da FIT-U também participassem, haveria um bloco muito mais forte de anticapitalistas e socialistas na Conferência, atuando em comum com outras organizações de esquerda que estarão presentes. Mas o sectarismo do PO, ao dizer “obrigado, não fumo”, em última instância apenas favorece aquelas organizações do progressismo que diz criticar, ao lhes deixar o caminho livre. Quando é muito necessário participar a fundo de todos os debates, realizá-los abertamente, fomentar o intercâmbio sobre como podemos derrotar as ultradireitas. E, como certamente haverá divergências com diferentes organizações convocantes e participantes — várias das quais fazem parte do progressismo e de concepções reformistas —, também nesse intercâmbio é preciso assinalar a responsabilidade política de setores que, ao terem sido administradores do ajuste a partir dos Estados burgueses, decepcionaram e colaboraram para que as novas direitas extremas chegassem ao poder. São debates e lutas políticas que precisam ser travados para a construção da alternativa política necessária. Existem diferenças de programa e de projeto, e nós impulsionamos em todos os lugares as alternativas de esquerda anticapitalistas e socialistas necessárias, que realmente apostam em mudanças de fundo, e sempre tentaremos confluir com quem estiver disposto a construí-las. Todo esse debate pode e deve ser impulsionado, em vez de ficar à margem com sintomas de infantilismo — doença política bastante antiga — quando é possível coincidir, debater e tentar avançar, como fazemos em cada evento do qual participamos.

No mundo em que vivemos hoje, o que é insólito e regressivo é que existam organizações como o PO que rejeitam a possibilidade de fazer parte de eventos plurais de debate contra a ultradireita. A tal ponto que, em sua nota, o PO reconhece que os temas em debate no evento de Porto Alegre serão: “a ofensiva da ultradireita no mundo, a solidariedade dos povos, o avanço da ultradireita no Brasil, a resistência palestina ao sionismo e ao genocídio, o enfrentamento dos trabalhadores contra o fascismo na América, resistência, articulação e alternativas democráticas, entre outros”. É assim mesmo. E qual é o problema de intervir em cada um desses temas? Evidentemente, nenhum. Exceto para o PO, que deve acreditar que, sozinho e por conta própria, vai derrotar o avanço das ultradireitas sem debater com ninguém nem lutar politicamente em outros âmbitos e diante de outras posições, por uma política socialista e de fundo. Além disso, é insólito porque o próprio PO, tempos atrás, participou de outros eventos, por exemplo, convocados pelo NPA e pela Luta Comunista, com os quais também tem diferenças, e inclusive participou, muitos anos atrás, do próprio Fórum Social Mundial, na mesma Porto Alegre. Mas, de repente, participar e debater — porque o MST o faz — agora estaria errado.

Nós temos outra visão política: consideramos positivo participar não apenas deste, mas de todo evento, conferência, fórum ou espaço onde se debate como enfrentar a ultradireita e onde somos convidados a dar nossas opiniões. Porque milhões de trabalhadores e jovens precisam enfrentar essa ofensiva reacionária, e é central travar uma luta política em todos os lugares. Esta Conferência deveria ter ocorrido no ano passado e foi suspensa por inundações, quando sua organização estava mais centrada em algumas forças políticas e sociais de Porto Alegre, em particular o MES, que é uma importante organização de esquerda no Brasil, com a qual temos uma relação fraterna e um passado comum, embora também tenhamos construções internacionais distintas e, portanto, diferenças lógicas. Após a incorporação mais forte do MES ao SU (IV), essa corrente internacional assumiu de forma mais direta a organização da Conferência, junto a outras forças. De nossa parte, apesar de termos diferenças importantes com o SU — razão pela qual construímos outro espaço internacional com a LIS —, ao mesmo tempo estamos abertos a debater, trocar e buscar pontos de acordo para impulsionar a mobilização nos países. Participar ativamente desta Conferência de Porto Alegre faz parte desses intercâmbios, sempre úteis para esclarecer posições e, assim, tentar contribuir de forma efetiva na luta contra as direitas extremas. E, no evento, além de debater e trocar, tentaremos avançar em acordos ou em algumas tarefas comuns com quem tivermos mais coincidências sobre o que fazer daqui para frente.

Logicamente, em todo evento desse tipo há pontos de acordo, assim como diferentes posições, e certamente existem discrepâncias políticas importantes com setores do progressismo reformista que participarão, bem como divergências quanto aos métodos de luta. Mas só ao PO ocorre que o simples fato de participar equivale a dar apoio a políticas pró-burguesas ou reformistas. Com esse critério, não se poderia participar de nenhum evento, pois em muitos dos que ocorrem no mundo há heterogeneidade de posturas e posições, e, sobre essa base, é muito correto e necessário buscar pontos de ação comuns, sem esconder as questões em que haja matizes ou diferenças. Assim aconteceu, por exemplo, em eventos passados organizados pela FIT-U, onde surgiram diferenças sobre a Ucrânia, os novos imperialismos e como responder a esses fatos. Porque o problema da direção da nossa classe é muito complexo, no qual não apenas o reformismo coloca obstáculos, mas também, em algumas ocasiões, o infantilismo de setores do próprio trotskismo, como é o caso do PO e de outras forças.

A realidade, como sempre, está muito distante das análises ultra-sectárias do PO, inclusive das críticas falaciosas que em seu texto faz à nossa política na Argentina. Pois o MST, como é evidente, não apoia nenhuma força nem pró-burguesa nem reformista. De fato, propomos que a FIT-U mude seu caráter eleitoral e limitado, justamente para atrair milhares e milhares de trabalhadores e, assim, fortalecer uma construção anticapitalista e socialista contra todas as variantes que não têm esse caráter. Algo a que o PO se opõe há anos, preso a um eleitoralismo que, na prática, fortalece as variantes possibilistas ou reformistas. A verdade é que o MST, na Frente de Esquerda, como integrante da Liga Internacional Socialista, participou recentemente de um muito importante 3º Congresso Internacional da LIS, com delegados e representantes de todos os continentes. Ali debatemos e votamos documentos de fundo e estratégicos muito importantes, que são públicos e estão à disposição de quem quiser vê-los e debater seriamente. Algo que o PO poderia ter feito, em vez de se dedicar a inventar coisas que não são.

Em resumo, nossa participação na Conferência de Porto Alegre, assim como em outros eventos contra as extremas direitas ou neofascistas que existem ou possam surgir daqui para frente, é positiva. Por isso agradecemos aos companheiros do MES e a outros dirigentes que nos convidaram a participar. E o faremos como parte de uma luta política que travamos e continuaremos travando em todos os lugares contra todas as ultradireitas e seus cúmplices em diferentes países, sem nenhuma limitação às críticas necessárias nem à delimitação política sobre quais ferramentas políticas é preciso construir e quais são os modelos que fracassaram. Sem cair em um abstencionismo fruto de raciocínios tão limitados e funcionais à extrema direita, como o expresso na nota falaciosa do PO.

Mentiras para boicotar um 24M massivo, unitário e de luta

Por outro lado, necessitado de inventar argumentos, o PO critica em sua nota nossa visão sobre a luta de Direitos Humanos em nosso país e afirma que, no meu caso, como representante do MST na reunião preparatória rumo a Porto Alegre, eu teria dito que: “celebrava o crescimento de Movimentos antifascistas e antecipou que, em 24 de março, no 50º aniversário do golpe, é preciso unir forças contra a ultradireita e o fascismo com urgência”. Uma pergunta à direção do PO: não é motivo de alegria que cresça um movimento antifascista? A 50 anos do golpe, não é preciso unir forças na luta para derrotar a extrema direita? Pelo que está escrito em sua nota, interpreta-se claramente que o PO não acredita que isso deva ser feito, numa definição novamente funcional à extrema direita de Milei e a seus projetos.

Em sua nota, o PO também antecipa que fará o mesmo no próximo 24M. Para esconder esse sectarismo, que neste ano será ainda mais grave e visível, mais uma vez falseia os fatos, inventa e afirma sobre o MST: “Sua posição em relação à luta contra o fascismo, com uma clara inclinação a um frente com faixas progressistas dos partidos da burguesia, já se manifestou no último 24 de março de 2025, ao romper com a realização de uma coluna independente e convergir com a oposição burguesa cúmplice do governo, La Cámpora, o Movimiento Evita, faixas peronistas”. Aqui fica evidente sua ausência absoluta e boicote à enorme mobilização unitária do último 24M de 2025, onde nada do que o PO inventa ocorreu. O que houve, sim, foi uma política muito correta da imensa maioria do Encontro Memoria Verdade e Justiça para articular um ato comum de todos os organismos de Direitos Humanos, como pôde ser visto no palco, na leitura de suas corretas consignas e na ausência de aparelhos do PJ (peronismo) dirigindo o evento. Enquanto isso, o PO terminou com outras poucas forças em um ato marginal, à margem da Plaza de Mayo, várias horas depois e quando a maioria dos milhares que se mobilizaram naquele dia já havia se retirado. A isso conduz uma miopia política que, ao que tudo indica, pretende repetir no aniversário dos 50 anos do golpe. Tudo muito lamentável.

De todo esse debate, há um fato ainda mais insólito: o PO e outras forças se negaram a marchar para um ato comum e muito progressivo de todos os organismos de Direitos Humanos do nosso país, mas depois foram, sem reclamar, a um ato na Plaza de Mayo convocado pelo PJ, com um cenário ao fundo que trazia como única consigna “Argentina com Cristina” e sob o canto geral e o discurso centrado em “vamos voltar”. Para ir até lá com sua coluna, não tiveram nenhum problema. Isso sim foi uma capitulação absoluta ao aparato do PJ, o que confirma que, onde há sectarismo, o oportunismo caminha ao seu lado. Talvez tenham agido sob a mesma velha e equivocada lógica de pretender mudar o conteúdo dos atos apenas com sua presença. Já haviam cometido erros graves por essa concepção anos atrás, ao ir à marcha de Blumberg e, antes ainda, à marcha reacionária do Papa na Argentina.

Trotskismo nacional, sindicalismo apoliticista e falsidades: a história viva do PO

Como parte de suas falácias, o PO também critica, desde Buenos Aires, nossos companheiros brasileiros, a quem tenta acusar sem sentido. Afirma que: “Revolução Socialista permanece no PSOL, inclusive agora, que integra uma coalizão política com o PT e chamou a apoiar Lula e seus candidatos”. Trata-se de uma definição absurda e de um trotskismo nacional de opinar à distância e porque o ar é grátis, já que nossos camaradas vêm travando uma luta política, são uma fração pública e ultracrítica da direção majoritária do PSOL, como se pode ver e ler em todas as suas intervenções e materiais públicos. E estão fazendo o possível para articular com outras organizações, tanto da esquerda do PSOL quanto de outras que estão fora dele, para tentar colocar de pé uma verdadeira alternativa no Brasil. De tudo isso, o PO, sentado em uma sede em Buenos Aires, sequer toma conhecimento.

Pode parecer insólito, mas não é. Tudo o que foi dito faz parte da realidade de uma organização e de sua prática cotidiana, que, além disso, vem fazendo todo o possível para evitar que a FIT-U se coloque politicamente como um grande polo convocante de uma ampla articulação que lute a fundo contra todo o plano do governo argentino. Dentro da Mesa Nacional da FIT-U, é quem mais se opõe a que nosso frente atue, cresça, convoque, coordene, impulsione e desempenhe o papel que deve desempenhar por ser a principal força política da esquerda do nosso país.

No entanto, o PO atua para impedir esse avanço e, diante de cada fato, pretende que o restante siga atrás de suas mais do que criticáveis intervenções sindicais. Como as que realiza na direção do SUTNA, onde vem se equivocando seriamente, enfraquecendo e reduzindo esse sindicato e a luta pelos direitos de seus trabalhadores, sob um método burocrático de funcionamento que debilita a unidade necessária contra a patronal. Contra essa postura tão nociva, seguiremos travando uma luta política na FIT-U.

Desde o MST seguiremos batalhando por uma Frente de Esquerda melhor, não eleitoral nem aprisionada em posturas de pequenos aparelhos sindicais em crise, e travando batalhas políticas em todo evento para o qual formos convidados, onde levaremos nossas posições de fundo anticapitalistas e socialistas contra toda a ultradireita. Uma tarefa que exige desenvolver fortes intercâmbios políticos em eventos como o de Porto Alegre, para o qual participaremos com uma destacada delegação do nosso partido. E, por outro lado, a mais ampla unidade nas ruas em cada país, como no nosso, contra a reforma trabalhista e em defesa das e dos trabalhadores do Garrahan, que acabam de realizar um enorme Cabildo Abierto, que deverá ter continuidade para vencer essa luta, que se transformou em um centro indiscutido da luta de classes em nosso país.

Para finalizar, e a fim de compreender por que o PO escreve tantos ataques contra o MST, recordemos que sua direção atual, marcada por muitos elementos de crise, rompeu há alguns anos com seu dirigente histórico Altamira. Mas é evidente que não rompeu com seu método de falsidades e de sectarismo/oportunismo ferrenho que vem desde suas origens. Razão pela qual, se não houver nenhuma mudança em suas concepções equivocadas, está condenada a repetir os erros profundos que a colocam na mais aguda marginalidade no terreno internacional.