Que organização internacional necessitamos?

A crise que estamos vivendo apresenta enormes oportunidades e desafios. As lutas da classe trabalhadora e dos povos marcarão a dinâmica do período que começamos a atravessar. Com elas virá um processo de radicalização e giro à esquerda que abre a perspectiva de construir importantes organizações revolucionárias. No entanto, a existência de condições favoráveis ​​para essa tarefa não garante o seu sucesso. Depende da nossa capacidade de responder apropriadamente, da análise à política e à tática.

O debate em torno das diferentes orientações para a construção de organizações internacionais é fundamental na atualidade. Desde a Liga InternacionalSocialista, tentamos levá-lo à Conferência convocada pela FITU. Infelizmente, isso não foi debatido em profundidade pelo resto das organizações, por isso queremos desenvolver nossas opiniões sobre o assunto nesta nota.

Duas concepções equivocadas

A crise e a dispersão do movimento trotskista no pós-guerra tiveram consequências importantes para as diferentes organizações que reivindicaram o legado da Quarta Internacional. Aos erros oportunistas e sectários devemos acrescentar o desenvolvimento de concepções errôneas sobre como enfrentar o problema da construção de organizações revolucionárias a nível nacional e internacional.

Uma delas era a tendência de pensar e agir como se o problema de direção do proletariado pudesse ser resolvido a partir de uma direção nacional. Denominamos essa prática de “nacional-trotskismo” e conduziu ao abandono da construção internacional. Isso descreve muito de perto o presente e a história do Partido Obrero. A Conferência refletiu o seu quase inexistente desenvolvimento internacional.

Mas isso nada mais é do que a consequência de uma concepção profundamente enraizada naquela organização. PO pensa que, sozinho, sua liderança resolveu os principais problemas teóricos e políticos do nosso tempo, e que pode por si só guiar a política concreta para cada situação nacional. Em outras palavras, o problema de direção internacional do proletariado já está resolvido, é o PO. O que resta é que as outras organizações revolucionárias e o proletariadoo reconheçam.

A partir desta concepção equivocada, eles propuseram como tarefa para a Conferência FIT-U resolver o problema de direção do proletariado. Essa orientação superdimensionada impede a Conferência de atuar de forma efetiva sobre a realidade, com objetivos mais modestos. Simultaneamente, reduz a análise e o debate político concreto a uma série de slogans “todo-o-terreno”, válidos para qualquer situação de luta de classes.

Outra concepção, que denominamos “partido-mãe” internacional, é uma generalização dogmática e equivocada da tática de apoiar, a partir de um partido mais consolidado, a formação de núcleos revolucionários e seu desenvolvimento em cada país. A crise do trotskismo do pós-guerra levou à formação de agrupamentos defensivos, tendências internacionais em torno de um partido mais desenvolvido. Mas, tornar essa necessidade em um método é um grande erro.

O PTS e sua fração trotskista expressam plenamente essa orientação. Suas organizações internacionais se constroem a partir da adesão não apenas a um programa e a uma concepção estratégica, mas a toda uma tradição teórico-política, que inclui um cânone de interpretação dos clássicos e da história do movimento trotskista. Isso, mais uma vez, implica presumir que a própria direção resolveu os principais problemas do presente, e que o resto das tradições e correntes do movimento trotskista nada têm a contribuir para a elaboração coletiva.

A Esquerda Socialista e a UIT-CI, por sua vez, resultaram em uma variante semelhante, produto de um conservadorismo notório que os leva a se apegar dogmaticamente as elaborações anteriores. Isso não apenas os desarma na interpretação da realidade em constante mudança, mas também os estagna na construção defensiva que reúne apenas aqueles que vêm do morenismo. Notavelmente, é o oposto dos esforços de Moreno para se tornar parte do movimento trotskista internacional.

O projeto LIS

Desde a Liga Internacional Socialista, defendemos outro modelo de construção internacional. Entendemos que a magnitude e a extensão do processo de radicalização em que estamos entrando é muito maior do que a capacidade de resposta dos grupos internacionais atualmente existentes. É por isso que é essencial construir uma organização que esteja aberta à confluência de organizações socialistas revolucionárias que vêm de diferentes tradições.

O movimento trotskista internacional passou por uma série de crises ao longo das décadas, cuja análise vai além deste artigo. Razões objetivas e subjetivas levaram a um panorama de fragmentação e agrupamentos defensivos, cada um dos quais sustentando (frequentemente com métodos burocráticos) sua interpretação do legado programático, teórico e da história da corrente.

Essa realidade tem sido um fator que tem dificultado o avanço qualitativo do trotskismo diante da crise do aparato e das correntes contrarrevolucionárias e reformistas. Claro que não é o único fator, existem condições objetivas. Mas sobre esse fator podemos atuar de maneira direta, fazê-lo se torna decisivo.

A partir da LIS, buscamos construir uma organização internacional que responda a esses desafios do presente. Temos demonstrado na prática que existem condições para que partidos nacionais e grupos internacionais de diferentes tradições dentro do movimento trotskista se unam. Mesmo que deste trabalho comum possa surgir uma nova tradição, que incorpore o melhor das anteriores e as supere. Isso requer uma abertura genuína para trabalhar com as diferenças.

A base para isso é uma compreensão comum das tarefas do momento, um programa claro que retoma os ensinamentos fundamentais do socialismo revolucionário e uma delimitação estratégica na defesa da revolução socialista e do partido leninista. A partir desses pontos surgem nuances, debates. Por isso, também é necessário dar-nos um funcionamento que permita que essas discussões se desenvolvam democraticamente no marco de uma intervenção comum.

Necessitamos de uma organização internacional sólida, que debata e elabore coletivamente. A contribuição de diferentes perspectivas é fundamental para a construção de uma análise científica da realidade. Somente com a elaboração coletiva podemos intervir efetivamente para transformá-la.