Em 18 de janeiro haverá eleições para eleger o próximo Presidente de Portugal. No quadro geral de candidatos postula-se uma variado de expressões políticas que vão desde os partidos reformistas a dois candidatos de extrema-direita. A novidade e o verdadeiro elemento progressivo na actual situação política em Portugal, é que se apresenta uma nova alternativa de esquerda, anti-sistémica, surgida do seio da classe trabalhadora portuguesa,  independente do poder vigente e dos partidos de sempre. Referimo-nos ao candidato André Pestana, um trabalhador da educação (professor do ensino secundário e doutorado em Biologia) que liderou importantes lutas sociais, como a histórica mobilização de 2023, protagonizada pelo “Sindicato de Todos os Profissionais da Educação” (S.TO.P.) De seguida partilhamos aqui a entrevista que realizamos ao André Pestana.

Porquê um trabalhador e lutador social como tu se apresenta como candidato a Presidente em Portugal?

André Pestana (AP): porque estava cansado de ver sectores significativos do povo de Portugal ser enganado com falsas alternativas, as políticas de extrema-direita (do género Milei na Argentina, ou Bolsonaro no Brasil, ou Trump nos EUA) e não quero que este país que já viveu uma ditadura fascista por 48 anos, no século passado, volte a repetir a mesma desgraça no actual século XXI.

Como surgiu a tua candidatura e com que apoios contas?

AP: a minha candidatura resulta igualmente por haver um cansaço e descontentamento com as antigas forças de esquerda em Portugal (PCP, BE, etc) e é necessário uma nova força política à esquerda, verdadeiramente anti-sistémica, ou seja, anti-capitalista. Neste quadro cerca de 50 dirigentes sindicais e de luta social, desafiaram-me  e convidaram-me para me candidatar a esta eleições presidenciais. Conto com o apoio de milhares de trabalhadores e de eleitores descontentes com a ineficácia das velhas esquerdas. Veremos os resultados depois em 18 de janeiro.

Actualmente, quais são os principais problemas sociais e democráticos dos trabalhadores e do povo?

AP: são os baixos salários, a falta de habitação digna e a preços acessíveis, a idade da reforma que caminha para ser aos 70 anos, as pensões muito baixas de mais de um milhão e meio de portugueses e, por fim, o actual governo da direita “clássica” (a AD) que é apoiado pela nova extrema-direita /André Ventura do partido neo fascista “Chega” e do João Cotrim da “Iniciativa Liberal”. Com a direita e a extrema direita no poder tudo será ainda pior.

Que partidos são os responsáveis pela actual situação?

AP: principalmente a direita que está no governo já há dois anos, mas também o outro partido da “esquerda” social democrata (o PS – partido dito socialista)  que co-governa o país há mais de 40 anos, sem que nunca se tenha qualitativamente mudado o país, a favor dos interesses da larga maioria da população, ou seja, dos trabalhadores. A agravar esta situação, tivemos uma outra esquerda, uma velha esquerda, o Partido Comunista Português (PCP) e o BE (Bloco de Esquerda – BE) uma força reformista como o Syriza na Grécia ou o Podemos em Espanha ou o PSOL no Brasil, em quem largos milhares de trabalhadores e jovens depositaram sérias e fortes esperanças e que, entretanto, foram canalizadas para o apoio a um governo do PS (conhecido como “geringonça”) e que acabou por contribuir fortemente para o surgimento da extrema-direita fascista em Portugal (mesmo que não o desejassem), uma extrema direita que até aí nem existia de forma organizada em partidos políticos com força significativa.

Como há que enfrentar a extrema-direita?

AP: primeiro com mobilizações sociais, fortes manifestações e greves gerais, como a que já ocorreu em dezembro último contra um “pacote laboral” do governo da direita com o apoio da extrema-direita. É aí na prática que se desmascara a demagogia da extrema-direita que finge que é contra a corrupção e pelos direitos dos trabalhadores e acabam, sempre a ser a favor dos interesses dos capitalistas e de regimes ditatoriais.

Quais são as propostas centrais que vais defender?

AP: uma clara posição de acabar com os milhões de euros dados anualmente aos partidos políticos que só favorecem os partidos do sistema da direita à esquerda. Depois vamos (1)defender a redução da idade de reforma dos trabalhadores para os 62 anos, dado que em Portugal está nos quase 67 anos e caminha para os 70 anos de idade. Por outro lado, ainda sobre os pensionistas, (2)exigimos desde já que a pensão mínima devia ser de 1.000 euros, pois em Portugal há mais de um milhão e 250 mil de pensionistas que recebem menos de 470 euros, o que torna impossível viver com um mínimo de dignidade. Também vou defender, acabar com o projecto do governo actual para alterar as leis do trabalho para pior, (3)acabar com o “Reforma laboral” (o atual governo quer colocar o trabalhador a trabalhar até 50h por semana, sem se pagar horas extraordinárias e legalizar o despedimento sem justa causa). Para os jovens (4)defendo o fim das propinas no ensino superior público, quer em licenciaturas, quer em mestrados. Sou claramente (5)a favor dos direitos das mulheres e da comunidade LGBT, bem como sou contra a discriminação permanente a que a comunidade negra e outros sectores oprimidos estão sujeitos na nossa sociedade. Sou a (6)favor da transição energética e o fim dos combustíveis fósseis em todo o mundo, para proteger o planeta das alterações climáticas que podem levar (junto com as guerras) ao desaparecimento da Humanidade. Neste sentido, também vou deixar a (7)minha solidariedade com o povo da Palestina, bem como o da Venezuela, que sofreram e sofrem (em Gaza e na Palestina) um verdadeiro genocídio e  na Venezuela, um golpe militar inqualificável e intervenção imperialista num país soberano.  E sobre as (8)mobilizações do povo iraniano contra a ditadura do seu regime político também estou solidário, sem que isso signifique qualquer apoio ao regresso dos  descendentes do Xa Reza Pahlavi que foi tanto opressor do povo iraniano, quanto os Ayatolás, no actual poder do Irão. Também defendo de forma destacada (9)“nem mais um euro para as guerras e os negócios da indústria de armamento que Trump e NATO nos exigem” e a “dissolução dos blocos militares”. A guerra que devemos fazer não é contra outros povos mas sim contra os baixos salários/reformas, contra a degradação dos serviços públicos, contra a destruição ambiental, contra a precariedade, contra as diferenças sociais gritantes, contra o racismo, a xenofobia e o machismo…

Como se tem desenvolvido a tua campanha?

AP: muito bem, junto da classe trabalhadora, em contacto directo com motoristas, empregados bancários, operários, professores, jovens e outros movimentos ambientais e sociais.

Porque há que votar no André Pestana?

AP: é fácil, se queremos mudar a sociedade (sem ser com o tipo de regimes estalinistas conhecidos no leste da Europa de ditaduras de partido único), se queremos a defesa intransigente dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, do combate à destruição ambiental que prossegue, se queremos uma esquerda melhor, mais democrática e combativa, se queremos a sua renovação (ou seja, uma Nova esquerda) e que seja mais revolucionária, então é indispensável “abrir a pestana” e votar em André Pestana, a 18 de janeiro em Portugal.