Por Verónica O’Kelly

Eu escrevo com indignação, mas também com a sensação sufocante de que estamos nos acostumando ao inaceitável. O Brasil vive uma barbárie cotidiana contra as mulheres. Não é exagero retórico. É dado oficial, é sangue derramado, é medo entranhado na rotina de metade da população.

Em 2025, o país registrou o maior número de feminicídios desde que o crime foi tipificado pela Lei do Feminicídio, em 2015. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, foram 1.470 vítimas ao longo do ano, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta número ainda maior: 1.568 vítimas em 2025, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior.

Cada número desses tem nome, história, família. Mas o padrão se repete de forma brutal: mulheres negras, mortas dentro de casa, assassinadas pelo próprio parceiro ou ex-companheiro. Entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas eram negras. A violência de gênero no Brasil tem cor e tem classe. Ela escancara que o machismo estrutural se entrelaça com o racismo e a desigualdade social.

Na maioria dos casos, o feminicida tinha relação direta com a mulher vítima: 59,4% foram mortas pelo parceiro íntimo e 21,3% pelo ex-parceiro. Em 97,3% dos casos com autoria identificada, os crimes foram cometidos por homens. A mentira de que o perigo está “na rua escura” cai por terra. O perigo mora dentro de casa.

E mesmo quando as mulheres procuram ajuda, o Estado falha. Uma em cada oito vítimas de feminicídio havia obtido medida protetiva de urgência. 13,1% foram assassinadas apesar de estarem sob proteção judicial. Isso não é tragédia, é política de Estado.

O caso de Tainara Souza Santos, mulher de 31 anos, escancarou essa brutalidade. Ela morreu após quase um mês internada, depois de ser atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro por um carro dirigido por um ex-companheiro, em plena Avenida Rebouças. Foi um feminicídio cometido à luz do dia, numa das principais avenidas de São Paulo. A violência patriarcal não se esconde, ela se sente autorizada, encorajada.

E há ainda a naturalização da cultura do estupro. Em Copacabana, adolescentes praticavam estupros em grupo, em plena área turística do Rio de Janeiro, e as meninas não denunciaram por medo de não serem acreditadas. Esse silêncio não é escolha. É produto de uma sociedade que culpa vítimas, protege agressores e ensina mulheres a sobreviverem em vez de viverem.

Não me venham dizer que é um problema individual, de “homens doentes”. Se fosse, não haveria padrão. Não haveria estatística. Não haveria essa repetição quase mecânica de corpos femininos assassinados dentro de casa. A misoginia é estrutural. Ela sustenta um sistema que precisa que as mulheres vivam com medo para aceitar salários menores, jornadas duplas, dependência econômica, silêncio.

Menos de três reais por mulher.

Em 2024, o Ministério das Mulheres teve autorizados R$ 256,4 milhões para três programas da pasta. No entanto, apenas 14,29% desse montante foi executado, o equivalente a R$ 36,6 milhões. Na prática, isso significa que o investimento federal para enfrentar a violência contra as mulheres não chega a três reais por mulher no país.

O governo Lula, em todo o seu mandato, não alterou estruturalmente essa desigualdade orçamentária. Mantém-se uma lógica em que as mulheres continuam entre as áreas com menor prioridade na União. O Arcabouço Fiscal impõe limites ao crescimento real das despesas públicas, comprimindo o gasto social. Mas enquanto as planilhas são preservadas, a população aumenta e a violência contra as mulheres se intensifica.

Discurso não salva vidas. Campanha publicitária não impede feminicídio. Sem orçamento robusto, sem ampliação de casas-abrigo, sem equipes multidisciplinares, sem resposta rápida às denúncias, sem autonomia econômica para as vítimas, tudo vira retórica vazia.

Se vivemos uma epidemia de feminicídios, o governo precisa agir como se fosse uma emergência nacional. É necessário decretar emergência em violência de gênero e destinar todos os recursos necessários para proteger mulheres, acolher vítimas, garantir moradia, renda e segurança. O Estado é responsável. Ele não pode se esconder atrás de planilhas fiscais enquanto mulheres morrem quatro vezes por dia.

Eu me recuso a aceitar essa barbárie como normal. E sei que não estamos sozinhas. Mulheres socialistas, ao lado de companheiros que entendem que essa luta também é deles, seguimos organizadas. Lutamos não apenas por políticas imediatas, que são urgentes e indispensáveis, mas para derrubar o sistema que transforma opressão em engrenagem do lucro.

Porque a violência contra as mulheres não é um desvio. Ela é funcional a uma ordem que precisa de desigualdade para existir.

E eu escolho lutar por outra ordem. Por um mundo feminista e socialista, onde nenhuma mulher precise viver com medo para que o sistema continue funcionando.