O motivo desta carta é abrir um intercâmbio com vocês sobre tudo o que está acontecendo no país e sobre as possibilidades que, em consequência, estão se abrindo para a esquerda anticapitalista e socialista e para a nossa Frente de Esquerda Unidade.
Por um lado, é evidente que, no último tempo e após ter conseguido votar seu projeto reacionário de reforma trabalhista, o governo de Milei foi se metendo cada vez mais em uma série de problemas econômicos, políticos e sociais que o estão afetando gravemente. A inflação constante, a queda da produção, do consumo e o atraso salarial e a precarização de milhões vêm gerando um forte aumento do mal-estar e descontentamento social e uma baixa considerável nos níveis de apoio ao governo. Algo que piora ainda mais diante dos evidentes fatos de corrupção, com o caso Adorni como exemplo mais emblemático da casta oficialista, que também se vê afetada pelos negociados presidenciais no caso $LIBRA. A combinação dessas questões traz, ao mesmo tempo, um salto nas ações de luta e de enfrentamento ao governo, sobretudo em uma grande quantidade de províncias do interior do país. Algo que, nos meses seguintes, pode se refletir ainda mais na AMBA, o que permitiria impulsionar um salto qualitativo nos níveis de enfrentamento ao governo e em seu processo de enfraquecimento.
Ao mesmo tempo, se algo não mudou é o comportamento cúmplice e passivo das direções burocráticas no plano sindical, que permitiu ao governo avançar com seu plano de ajuste e de reformas estruturais. Nem sequer agora, que está mais enfraquecido, decidem convocar ações para derrotar todo o projeto ultradireitista de Milei. Mantendo o caminho de negociações e algumas iniciativas judiciais limitadas. Razão a mais para seguir impulsionando e coordenando por baixo as lutas em curso e as que virão.
Enquanto isso, no plano político, o peronismo dentro do Parlamento colaborou repetidas vezes com alguns senadores ou deputados que respondem a seus governadores e deram quórum ou apoiaram diretamente leis do governo. Mas agora toma nota do enfraquecimento de Milei e referentes de sua estrutura central se encontram em gira nacional, buscando relançar o PJ como opção crível em 2027, por trás de acordos de diferentes facções e um projeto moderado e conservador que o sustente. O que implica que, inclusive suas alas mais críticas, como a de Grabois, apenas se proponham umas PASO, mas sempre aceitando a unidade final com a estrutura hierárquica do PJ e seus desígnios e candidatos.
Diante de tudo isso, e em meio a um país que reflete uma forte polarização social e política, não consideramos casual que a esquerda e nossa Frente de Esquerda em particular apareçam em alta e mais visíveis como opção diante da opinião pública em todas as pesquisas que vêm sendo realizadas. Refletindo uma amostra da crise e polarização existentes e do positivo que exista uma frente situada à esquerda de todas as demais forças do regime e do sistema capitalista. Nos trabalhos de diferentes consultoras e nas análises de muitos meios e jornalistas de diferentes extrações políticas, reconhece-se que a esquerda é um ator político em crescimento. Por exemplo, recentemente se situou a Frente de Esquerda com 9% em uma pesquisa nacional. E a companheira Myriam Bregman é quem mais consegue capitalizar esse avanço com bons índices de apoio eleitoral e imagem positiva, que se expressam em diferentes pesquisas e estudos de opinião. O que é uma conquista política que toda a nossa frente tem que compreender e analisar e tentar nos dar políticas e iniciativas comuns para que, em conjunto, nossa força de unidade da esquerda se desenvolva e avance muito mais, junto ao crescimento de suas figuras e principais referentes. Acreditamos que isso está colocado. Porque medições que nos situem em torno de 10% são expressão de uma mudança, de uma busca que inclusive poderia se desenvolver mais se atuarmos decididamente e em unidade. Por isso é necessário debater a fundo toda a situação e o que fazer adiante.

Nesse sentido, sendo Myriam quem aparece melhor posicionada, é lógico que partamos desse fato da realidade; em nosso caso reconhecemos esse avanço e queremos colaborar em potencializá-lo, por isso nos colocamos à disposição para intercambiar ideias que fortaleçam esse processo e também o avanço da esquerda anticapitalista e socialista em geral. E, no caso de vocês, consideramos que isso os coloca diante da responsabilidade de pensar e propor iniciativas ao conjunto do FIT-U, já que todos temos que ser conscientes de que, junto ao salto na influência política de uma figura destacada da esquerda, é necessário incentivar a organização política de milhares e sua inserção em todo âmbito de luta operária, popular e da juventude, se queremos avançar qualitativamente pelas mudanças de fundo que definem nossa estratégia socialista.
Diante dessa situação aberta que coloca novos desafios, é público que tivemos algumas diferenças frente a dois fatos da realidade como o passado 24 de março e este 1º de maio. Em nossa opinião, responderam equivocadamente, dividindo desnecessariamente ambas convocações, quando mais faltava unificá-las para que nossa frente aparecesse mais forte e se postulando politicamente. Mas não pretendemos reabrir aqui esse balanço, do qual cada um tem suas opiniões. Queremos partir das coincidências que também temos — como o apoio à Flotilha Sumud Global, onde novamente viaja nossa companheira Cele Fierro, junto a médicos e referentes das forças do FIT-U — e partir também de fazer o esforço por debater sobre novos acordos que possamos ter daqui em diante, que é o essencial do momento pela responsabilidade que temos que assumir diante de toda a base social e eleitoral da Frente de Esquerda e de outros milhares e milhares que nos escutam, seguem e esperam que estejamos à altura dos desafios colocados.
Por tudo isso, acreditamos que seria muito positivo que Myriam Bregman encabece algumas propostas e convocações que impulsionem o conjunto de nossa frente para adiante e muito além de um mero acordo eleitoral, algo que todos sabemos que é muito limitado. Vocês conhecem que desde o MST viemos propondo transformar o FIT-U em um grande partido unificado da esquerda, com liberdade de tendências para que todos mantenham sua identidade e suas posições, aberto à incorporação de intelectuais, referentes sociais e antiburocráticos. E aberto a quem, com base em um acordo programático profundo, queira ser parte, de alguma forma, de uma organização comum que tenha sua coordenação nacional, seu funcionamento permanente, busca de acordos diante de todos os temas políticos e de luta e livre debate de ideias e propostas. Tratando de canalizar em organização política e militante por dentro do FIT-U, uma parte importante do apoio que já existe fora de nossa frente. E aproximando, ao mesmo tempo, milhares de decepcionados com o peronismo que buscam uma nova alternativa.
Claro que não pretendemos que se avance e debata apenas em torno de nossa proposta; colocamo-la como uma contribuição a serviço de um intercâmbio coletivo. E, ao mesmo tempo, estamos abertos a escutar outras ideias e propostas, a intercambiar sobre diferentes variantes possíveis que garantam um avanço político e a chegar a sínteses superadoras. Do que estamos convencidos é que, diante da colocação política que vem sendo alcançada, não se pode seguir fazendo o mesmo que antes nem ficar limitados a um acordo eleitoral. É aí onde vocês têm a maior responsabilidade de fazer propostas que tentem um salto qualitativo e coletivo. Por exemplo, sobre que passos poderiam ser dados, vêm dizendo que é necessário construir um Partido de Trabalhadores, algo que por si só poderia ser positivo. Se não compartilham nossa proposta, não temos problemas em explorar essa variante, porque algo é preciso fazer para nos superarmos. Mas até hoje não colocam que passos dar para esse objetivo, que ações comuns tentar, como colocar todo o FIT-U e quem queira somar-se para tentá-lo. Até agora sua proposta é algo geral e sem um planteamento que ajude sua possível concretização. Por isso, também lhes pedimos que a desenvolvam e a tragam ao concreto, se querem que seja uma tarefa coletiva que todos avaliemos a fundo e impulsionemos caso haja acordo. Para que entre todos trabalhemos para que nossa frente não se reduza a possibilidades eleitorais, mas sim que seja um fator de organização de milhares de militantes, por trás de uma estratégia comum.

Avançar em debater diferentes possibilidades e propostas comuns consideramos decisivo para sair da situação atual que limita a potencialidade de nossa frente. Porque nós compreendemos que vocês queiram avançar no desenvolvimento do PTS, como também nós seguiremos avançando no desenvolvimento do MST, mas também acreditamos que a oportunidade política que a esquerda tem pela frente não pode se reduzir a um salto pontual de uma só organização. Porque só haverá uma mudança de magnitude, positiva e qualitativa, se tivermos uma estratégia comum que potencialize um avanço conjunto em todos os terrenos da luta política, social e também em sua expressão eleitoral. Daí que também queremos debater com vocês como veem o desenvolvimento do processo revolucionário na Argentina, porque não está descartado que, na perspectiva, haja crises políticas e sociais maiores e giros profundos da situação que nos coloquem diante de grandes oportunidades. E nossa visão é que, nesses momentos, para além de matizes ou algumas diferenças, será muito necessária a unidade e o impulso de estratégias comuns. Qual é a visão de vocês? Consideram necessário também explorar essa unidade? Ou consideram que uma só organização pode responder a semelhante desafio? Acreditamos de verdade que é muito importante intercambiar sobre tudo isso.
Que desde a esquerda apareçamos melhor posicionados e com mais possibilidades em todo o cenário político nacional significa que não estamos falando de questões menores nem de apenas obter alguns deputados a mais ou ganhar algum sindicato a mais ou algum avanço pontual em outro setor popular ou da juventude. Estamos falando da oportunidade de dar um salto muito grande, atraindo vários milhões de trabalhadores e jovens, dando um salto profundo em nossa influência política e social. E de que esteja colocado que setores da população comecem a nos ver, pela primeira vez, como uma verdadeira opção política que dispute de igual para igual com todos os partidos do regime. E, diante disso, em nossa opinião, temos que aproveitar a colocação que se evidencia nas pesquisas atuais e nos locais de trabalho, estudo e bairros populares para transmitir em comum e com muita força nossa intenção e objetivo de sim querer disputar o poder político do país, para que as e os trabalhadores governem, incentivando essa possibilidade e convocando milhões de trabalhadores, jovens e setores médios castigados pela crise a nos apoiar e a se somar. Claro, fazendo isso sempre apoiados na mobilização e no impulso de organismos democráticos das e dos trabalhadores e do povo. Neste tema, quando mais gente olha para a esquerda e fala de suas possibilidades, discordamos de como vocês o colocam quando fazem referência ao tema, porque deixam como centro a ideia de que predominam as dificuldades, que agora não é possível, em vez de primeiro incentivar com força a possibilidade de ser opção de governo e poder e, nesse marco, explicar que é uma luta de fundo, com obstáculos, desafios a superar e necessidade de desenvolver uma enorme mobilização e organismos genuínos. Mas que é uma luta possível e imprescindível de ser travada em todos os terrenos, convocando a travá-la com força.

Partindo dessa realidade, consideramos que, tomando como referência o avanço do posicionamento político de Myriam Bregman e da Frente de Esquerda em geral, poderíamos convocar juntos assembleias em cada cidade para organizar milhares e aprofundar o apoio a nossas figuras e nosso programa. Também organizar eventos públicos de debate e intercâmbio, fóruns temáticos, painéis abertos sobre as propostas políticas e programáticas da Frente de Esquerda diante da crise do país, abrindo a possibilidade de que esse programa vertebre novos apoios e aproximações. E inclusive, se houver acordo, poderíamos convocar a um grande Congresso Nacional Aberto da Frente de Esquerda, que impulsione todo esse processo de avanço e entusiasme milhares e milhares em todo o país, abrindo as portas para um salto maior na construção da alternativa política que faz falta. Para isso, vocês podem habilitar a possibilidade de realizar experiências comuns que potencializem todo esse processo, seja com o impulso de algumas dessas propostas que aqui lhes apresentamos, ou com outras ideias ou iniciativas que vocês considerem e coloquem em debate.
Por tudo isso, desde o MST lhes propomos organizar uma reunião entre nossos partidos para intercambiar a fundo sobre estas ou outras propostas que vocês tenham. E também que todo o FIT-U se reúna para debater estes temas de tanta importância.
Direção Nacional do MST na Frente de Esquerda Unidade – 22 de abril de 2026







