Por Alberto Giovanelli
A crise política e social na Bolívia se acelera a passos largos. Desde a Liga Internacional Socialista descrevemos os diferentes processos que foram resistindo às medidas que o presidente Paz tratou de aplicar desde o primeiro dia de sua posse, há pouco mais de 6 meses. Desde a rejeição das comunidades indígenas à Lei de Reconversão de Terras, junto às mobilizações de transportistas pelos problemas do combustível adulterado e caro, avançou-se em uma espiral de conflitos que hoje, 16 de maio, abarca quase a totalidade dos trabalhadores e camponeses do Estado Plurinacional. Centenas de bloqueios se expressam nas ruas das principais cidades do país, onde na prática confluem a poderosa COB com professores, camponeses e outros setores sociais.
Apesar de o Governo de Paz estar tentando negociar de todas as formas e sem êxito com os distintos setores mobilizados, não conseguiu desativar os conflitos. Pelo contrário, as organizações indígenas, camponesas e populares denunciam que cada proposta do Governo é uma armadilha que pretende preservar os interesses agroindustriais e ganhar tempo frente a uma mobilização que continua se expandindo.
A crise não se detém
Nas últimas semanas o mal-estar social se estendeu de maneira acelerada. Um dos detonadores mais imediatos foi o escândalo da gasolina adulterada ou de baixa qualidade, denunciada por distintos setores do transporte por provocar danos mecânicos em milhares de veículos. Para piorar, nem sequer o aumento do combustível impediu a escassez e as filas continuam nos postos de gasolina. A debilidade do governo para resolver o problema aprofundou o desgaste político e alimentou um clima de descontentamento e revolta social cada vez mais amplo.
Depois se desenvolveram os conflitos do magistério e da saúde, com paralisações e mobilizações nacionais que exigem aumento salarial e respostas às suas demandas setoriais.
A marcha indígena e camponesa, iniciada há quase um mês em comunidades camponesas de Pando e Beni e que chegou em 1º de maio a La Paz, segue recebendo demonstrações de solidariedade de comunidades, sindicatos e organizações operárias, entre elas a FSTMB e a COB.
Foi a pressão, desde baixo, dos setores de base mobilizados que empurrou as direções dessas organizações a terem de se manifestar e incluir em suas pautas a exigência da renúncia de Paz.

Desde a “Marcha pela defesa das florestas da Amazônia e da segurança jurídica dos territórios indígena-originário-camponeses”, somam-se às exigências da consulta prévia às comunidades indígenas e camponesas antes da aprovação de leis que incidam sobre esses setores.
Atualmente existem mais de 70 pontos de bloqueio em rotas estratégicas do país e a tendência segue sendo ascendente. Embora a produção ainda não esteja completamente paralisada, em várias cidades começam a ser sentidos os efeitos do desabastecimento parcial de carne, frango e outros produtos básicos.
O crescimento do conflito levou o governo a dar um salto em sua resposta repressiva. Durante as últimas horas começaram operações de desbloqueio com participação militar que provocaram duas mortes de trabalhadores mineiros no dia de ontem, sexta-feira, 15. Paralelamente cresceram os rumores sobre uma possível decretação de estado de exceção, alimentados pela crescente presença das Forças Armadas em estradas e pontos de conflito.
Ontem à noite também foram reportadas fortes repressões com gás em pontos de bloqueio em El Alto, como na zona de Río Seco. No entanto, apesar das tentativas dos aparatos repressivos de desobstruir as rotas bloqueadas, longe de desativar os protestos, a repressão parece estar aprofundando a radicalização de setores que agora começam a exigir com mais força a renúncia de Rodrigo Paz do governo.
Já destacamos que em todo esse processo há uma forte tendência à auto-organização, embora isso ainda não tenha se plasmado na conformação de uma direção unificada de todo o processo de resistência e mobilização.
Até agora a COB, a CSUTCB, a Federação Tupaj Katari e juntas de bairro estabeleceram compromissos de unidade, diante da pressão das bases, para alcançar a renúncia de Paz. Em concreto, existe um fortalecimento e revitalização das organizações sindicais e populares, que voltam a aparecer como referências políticas frente ao desgaste governamental.
No imediato, tudo parece indicar que o descontentamento tende a se expandir e o governo, na defensiva, não consegue recuperar a iniciativa, o que aumenta a possibilidade efetiva da queda de Paz. Recordemos além disso que seu possível sucessor, o vice-presidente Edman Lara, rompeu com o próprio Paz horas depois de ele assumir a presidência, e nesse caso seria o encarregado de convocar novas eleições em um prazo de 90 dias.
Mas essas especulações acerca da saída institucional que a burguesia boliviana está discutindo não solucionarão a crise estrutural e de caráter terminal que atravessa o país. Pelo contrário, colocam em primeiro plano a necessidade que já expressamos em outros artigos e nas ações dos simpatizantes bolivianos da LIS: a construção de uma organização que aglutine a totalidade dos setores anticapitalistas bolivianos, superadora da experiência traumática do MAS e Evo Morales, que seja capaz de enfrentar o modelo de saque e espoliação, e de endividamento externo do país sob as diretrizes do FMI.
Nesta situação não existem alternativas moderadas. Devemos aproveitar este processo para começar a discutir como estabelecer um governo próprio, que comece a discutir como tomar em suas mãos uma saída que deve ser anticapitalista, revolucionária e socialista.





