A situação política na Bolívia continua se agravando. Rodrigo Paz aposta na mão dura para quebrar a resistência. Os bloqueios permanecem firmes e chegaram a derrotar novamente as forças armadas. Isso o levou a reforçar a política ditatorial de sequestros seletivos de dezenas de dirigentes. Uma verdadeira aberração que repudiamos veementemente e pela qual convocamos a solidariedade internacional para continuar apoiando a revolução boliviana.

Por César Latorre

Ontem, a escalada de sequestros seletivos aumentou. Cinco líderes da COB foram sequestrados em plena via pública. Pessoas encapuzadas, sem identificação nem mandado judicial, lançaram gás lacrimogêneo no interior do veículo em que viajavam para obrigá-los a sair. Também circulam vídeos de brutalidade e torturas contra os detidos, que violam todos os tratados internacionais aderidos pela Bolívia. Além disso, vazou na madrugada de hoje uma lista com mais de trinta nomes que a polícia tem ordem de sequestro.

Exigimos a libertação imediata de todos os presos. Não devemos admitir e precisamos construir a maior campanha internacional como contribuição indispensável para a derrota deste governo fantoche do imperialismo que pretende implantar uma ditadura cívico-militar na Bolívia.

A polícia boliviana agride brutalmente dirigentes da COB

Contexto e recapitulação dos últimos acontecimentos

Como analisamos em artigos anteriores, a revolução em curso (por mais que isso incomode aqueles que a chamam de “rebelião”, minimizando seu caráter) levou as políticas deste governo fantoche ao triturador da luta de classes. Após alguns dias de ter perdido a orientação, Rodrigo Paz, com o apoio do imperialismo ianque e após uma crise no gabinete em que trocou o chefe da defesa, deu início a uma escalada repressiva que segue em curso.

Sob o pretexto da posse do novo ministro da Defesa, o governo lançou uma nova política que combina repressão e negociação. É evidente que não chegam a um consenso absoluto, mas há uma mudança e a linha repressiva é a que consegue se impor neste momento. Pois, embora convoquem ao diálogo, enviam a regulamentação do estado de exceção ao Congresso.

Expressão clara desse giro foi a atitude de um Rodrigo Paz envaidecido, que gravou um vídeo convocando abertamente a guerra civil, pedindo à população que se mobilizasse contra os bloqueios em apoio às forças armadas. E embora depois tenha apagado a publicação com as críticas que recebeu, mostra claramente que a linha do governo é ditatorial mas, que não conta com um consenso social majoritário para levar adiante essa política.

Lista de dirigentes das diferentes organizações em luta que estão sendo perseguidos.

Avanço da política repressiva

Enquanto encaminhava ao Congresso a regulamentação da lei de exceção, o novo ministro (com profundas conexões com o aparato militar estadunidense) ordenou a desocupação de dois tribunais e, por outro lado, começaram alguns sequestros seletivos, como o de Justino Apaza (dirigente organizador do cabildo aberto no Alto) e Simona Quispe (dirigente indígena e ex-legisladora).

A política de sequestros seletivos, com indivíduos encapuzados que detêm dirigentes sem qualquer explicação e em plena via pública, merece repúdio internacional por parte de todas as organizações de direitos humanos. A metodologia utilizada pelas piores ditaduras militares mostra que o governo, com assessoria dos EUA, antes de cair, recorrerá às metodologias mais atrozes.

O apoio internacional

O imperialismo iniciou uma campanha política tentando justificar o apoio sob o pretexto do narcotráfico e saiu com força para apoiar a ditadura à qual atribuem o eufemismo de democracia. Não trata-se de apenas uma declaração de Marco Rubio, mas também financiamento material e assessoria militar. Além disso, o imperialismo colocou Ernesto Justiniano, com quem vem trabalhando desde a DEA. O Escudo das Américas também se pronunciou a favor de Paz.

Está claro que a revolução em curso está assumindo uma dimensão preocupante ao capitalismo mundial e aos imperialistas ianques em particular.

O estado de exceção

Ambas as câmaras votaram a regulamentação do estado de exceção enviada pelo Executivo em sessões expressas no meio do feriado de Corpus Christi. Desde ontem à madrugada, a regulamentação foi enviada ao Executivo para sua promulgação. O que, enquanto escrevemos estas linhas, ainda não aconteceu.

No entanto, como mencionamos acima, enquanto se debatia o estado de exceção, o governo avançou com sequestros seletivos de dirigentes sindicais, associativos, indígenas e comunitários, utilizando métodos ditatoriais.

A derrota em San Julián

Ao mesmo tempo em que o governo tenta avançar com esses métodos, decidiu começar a desmontar os bloqueios na zona sul, onde sabe que têm menos apoio social. Conseguiu desmontar um no ponte Lipari, lançando uma campanha para ganhar força e avançar contra outros.

Para o bloqueio seguinte, em San Julián, não recorreu apenas às forças de segurança, mas também utilizou a União Juvenil de Santa Cruz (grupo paramilitar da burguesia da região de La Medialuna). Esse grupo de choque atuou em coordenação com a polícia. A polícia lançava gás lacrimogêneo e usava balas de borracha, enquanto a União Juvenil Santacruzenha usava balas de fogo. No entanto, as comunidades e os moradores se reorganizaram e obrigaram a polícia a se retirar do local. Em seguida, dirigiram-se à delegacia, que foi completamente desocupada. A presença da UJS foi como gasolina no fogo.

A polarização aumenta

Esses fatos confirmam a linha do governo de utilizar sequestros e forças paramilitares para derrotar a revolução. E é preciso levar muito em conta que, embora não tenha consenso para fazê-lo, ele aposta em ir até o fim, apoiado pelo imperialismo, que não pode permitir que um processo revolucionário derrube um presidente na região, pelo que isso significaria.

Rodrigo Paz não vai sair como os presidentes anteriores; vai se agarrar ao cargo até que não reste nenhuma possibilidade. Por isso mesmo, a revolução boliviana requer a maior solidariedade internacional e também que os organismos de organização das massas radicalizem ainda mais suas medidas, garantindo a paralisação total e a autodefesa dos bloqueios no caminho para conquistar o poder político e acabar com a política de fome de Rodrigo Paz e do imperialismo ianque.

Derrotemos a escalada fascista de Rodrigo Paz!

Liberdade imediata a todos os dirigentes detidos!

Toda a nossa solidariedade com a revolução boliviana!

Todo o poder à COB, CSUTCB, FEJUVES, Túpaj Katari e às organizações em luta!