Por Martin Suchanek
As garrafas de champanhe estão sendo abertas no Conselho Executivo da VW (Volkswagen). Na reunião do Conselho de Supervisão, em 3 de setembro, a direção, os representantes dos empresários, o estado da Baixa Saxônia, governado pelo SPD, os conselhos de trabalhadores e os sindicatos concordaram unanimemente (!) com um plano de reestruturação praticamente sem precedentes:
- Na Alemanha, 50 mil dos 284.032 empregos existentes (número em 31 de dezembro de 2025, segundo o Relatório Anual da VW de 2025) serão eliminados — de maneira “socialmente responsável”, é claro. Desses, 15 mil serão nas marcas Audi e Porsche. Em escala mundial, foi tomada a decisão de eliminar outros 50 mil empregos — sem qualquer rede de proteção social, é claro. Ao todo, portanto, 100 mil trabalhadores, de um total de mais de 602.659 empregados em todo o mundo no final de 2025 (número que não inclui 26 mil empregados em joint ventures na China), serão demitidos.
- Quatro unidades na Alemanha — Emden, Hannover, Zwickau e Neckarsulm — deverão ser fechadas depois de 2031, embora tenha sido aventada a possibilidade de uma mudança para outros produtos ou mercados — por exemplo, uma mudança para a produção de defesa, como na unidade da VW em Osnabrück.
O Conselho Executivo da VW, portanto, prevaleceu em todos os pontos fundamentais. Na bolsa de valores alemã, o DAX 40, o preço das ações da VW subiu na manhã de 4 de setembro mais de 6% no início das negociações — uma alta que não era vista havia muito tempo — enquanto as ações da Porsche subiram 3%. Mesmo que o boom na bolsa provavelmente seja de curta duração, os principais meios de comunicação do capital alemão também estão expressando otimismo. Finalmente, segundo o FAZ, “foram estabelecidas metas específicas de lucro e redução de custos, juntamente com várias áreas de ação; desde a planejada redução pela metade da gama de modelos até a reorientação dos negócios na América do Norte e na China”. No entanto, continua o jornal, a decisão agora precisa ser implementada. O conselho de trabalhadores e a IG Metall não devem diluir a decisão que apoiaram por meio de negociações “mesquinhas”.
Conselho de trabalhadores e IG Metall capitulam
É evidente. A burguesia é uma classe ingrata. Sem o consentimento do conselho de trabalhadores, da IG Metall e do estado da Baixa Saxônia — que possui uma participação de 20% na VW —, o programa de demissões em massa jamais teria obtido maioria. Em vez disso, chegaram a um acordo com o CEO Blume a portas fechadas.
Para colocar de maneira clara: o conselho de trabalhadores e a IG Metall (assim como o estado da Baixa Saxônia, governado pelo SPD) capitularam. Cederam ao Conselho Executivo em todos os pontos. Agora, os comentaristas burgueses estão pressionando para que sua posição seja levada às últimas consequências: a declaração de capitulação deve ser implementada de forma consistente.
Mas por que eles concordaram com isso em primeiro lugar? Em uma declaração conjunta, Christiane Benner, primeira presidente da IG Metall, e Daniela Cavallo, presidente do Conselho Geral e do Conselho de Trabalhadores do Grupo Volkswagen AG, justificam seu acordo da seguinte maneira:
“Nesta situação, os representantes dos trabalhadores, juntamente com o estado da Baixa Saxônia, assumiram novamente a responsabilidade, impediram uma perigosa escalada do conflito e abriram caminho para soluções viáveis. Para isso, todas as partes fizeram concessões.”
“Uma cisão da principal marca Volkswagen de veículos de passageiros e da divisão de componentes da VW está fora de questão, o que significa que o ataque às estruturas de cogestão foi efetivamente repelido. Nenhuma fábrica foi abandonada e, ao contrário do que afirmaram vários meios de comunicação, nenhum fechamento de fábrica foi finalizado.”
Mais uma vez, a burocracia sindical e dos conselhos de trabalhadores bate no próprio peito. Enquanto a direção “escalaria” a situação e, assim, “inquietaria” os trabalhadores, a burocracia assumiria a “responsabilidade” — apunhalando os trabalhadores pelas costas e concordando com o plano do Conselho Executivo. O que isso realmente impediu?
Em primeiro lugar, impediu que uma resolução desse tipo fosse apresentada à assembleia de acionistas, onde a burocracia dos sindicatos e dos conselhos de trabalhadores não tem voz. No fim das contas, é a assembleia de acionistas — e não o Conselho de Supervisão, composto pelos chamados parceiros sociais — que agora tem efetivamente a palavra final na Volkswagen. Mesmo que não fosse necessário convocá-la, os representantes sindicais e dos conselhos de trabalhadores no Conselho de Supervisão se subordinaram aos acionistas. O poder do Conselho de Supervisão, instituição da parceria social e da cogestão, há muito vem sendo enfraquecido pelo poder dos próprios mercados financeiros. Entretanto, nem a IG Metall, nem o conselho de trabalhadores, nem o governo estadual do SPD estão dispostos a enfrentar essa realidade. Ela é, porém, reconhecida indiretamente pelo fato de votarem em defesa dos interesses dos acionistas e contra os interesses dos trabalhadores — enquanto continuam fingindo que mantêm as rédeas da ação em suas próprias mãos.
Em segundo lugar, porém, uma coisa fica clara mais uma vez. Os representantes sindicais e os membros dos conselhos de trabalhadores veem a si mesmos como representantes “melhores”, mais responsáveis, dos interesses de longo prazo de “sua” empresa. Os burocratas reconhecem que cortes de pessoal, aumento da produtividade e “medidas duras” são necessários. Apenas argumentam que essas medidas não podem ser “unilaterais”. Afinal, eles também compartilham o objetivo de que a VW permaneça na vanguarda da indústria automobilística, em vez de ser superada por algum concorrente estrangeiro. Para alcançar isso, porém, segundo Benner e Cavallo, o Conselho Executivo precisa fazer sua “lição de casa” e finalmente “colocar em prática os investimentos necessários, impulsionar a inovação e garantir empregos no longo prazo”.
Que escárnio! Depois de terem acabado de concordar com a demissão de 100 mil trabalhadores, eles fingem defender a segurança dos empregos. Não defendem. Isso fica ainda mais evidente quando se trata dos empregos dos 50 mil trabalhadores que não estão empregados nas unidades alemãs. Para Cavallo, presidente do conselho de trabalhadores do grupo, esses trabalhadores são, no máximo, uma nota de rodapé. Quando se trata de preservar unidades, o foco está realmente apenas nas que ficam na Alemanha.
É importante entender que Cavallo e Benner não são simplesmente sindicalistas ruins. O problema é mais profundo. Assim como toda a direção dos sindicatos industriais na Alemanha e os dirigentes de todos os conselhos de trabalhadores das grandes corporações, elas se veem como representantes melhores dos interesses gerais de “sua” empresa — e agem de acordo com isso. Por isso, querem evitar uma escalada com o Conselho Executivo e uma luta contra todas as demissões a quase qualquer custo.
A rendição não é a única opção
Mas, na VW, tudo está em jogo. Quem se deixa envolver pela engrenagem da colaboração de classes acaba em uma rendição completa. A decisão do Conselho de Supervisão representa, portanto, um duro golpe contra todos os trabalhadores da VW e contra toda a classe trabalhadora na Alemanha e em todo o grupo.
A capitulação está longe de ser a única opção. Os trabalhadores da VW estão entre os mais bem organizados de toda a classe trabalhadora. Na Alemanha, mais de 90% dos trabalhadores do Grupo VW são membros da IG Metall. Nas eleições para os conselhos de trabalhadores, o sindicato conquista entre 83% e 85% das cadeiras.
A IG Metall é, portanto, uma força com a qual é preciso contar dentro do Grupo VW — e em toda a indústria metalúrgica e elétrica alemã. No entanto, não consegue utilizar esse poder de maneira eficaz, contentando-se, na melhor das hipóteses, com ações simbólicas de um dia, como o “Dia de Ação da Indústria Automotiva”, planejado para 21 de setembro. Ela não possui nenhum plano de ação para isso. Em vez disso, repete como um mantra que as equipes responsáveis pela gestão devem fazer sua “lição de casa” e, além disso, reúne-se com CEOs de grupos empresariais e associações patronais para escrever cartas de apelo ao governo federal, pedindo que forneça mais subsídios à grande indústria.
A direção da IG Metall chega a esperar que o apoio estatal do governo traga de volta os “bons velhos tempos”, quando a parceria social e a colaboração de classes na Volkswagen — e em outros fabricantes de automóveis — eram tão bem-sucedidas. No entanto, ela se recusa até mesmo a considerar as razões por trás do sucesso da indústria automobilística alemã no mercado mundial. Afinal, o crescimento do faturamento e dos lucros não caiu simplesmente do céu; foi resultado das altas taxas de exploração, do aumento constante da produtividade e dos lucros extraordinários derivados da exploração global. Isso permitiu que muitos concorrentes fossem derrotados. Durante décadas, a política de colaboração de classes também garantiu a competitividade da indústria alemã por meio de acordos de produtividade. Mas esses “bons velhos tempos” não voltarão; acabaram definitivamente.
O impacto disso sobre a consciência da classe trabalhadora, entretanto, permanece; na verdade, pesa sobre ela como um pesadelo. Durante anos, os empregos pareciam relativamente seguros, e os salários permanecem acima da média até hoje. Por exemplo, trabalhadores da produção da VW em Wolfsburg ganham cerca de 56 mil euros brutos por ano. A remuneração média anual bruta de todos os empregados — incluindo engenheiros, pesquisadores e setores altamente qualificados da produção — nas montadoras alemãs chega a 93 mil euros.
Essa situação também constitui a base social para a ideologia da parceria social entre os trabalhadores, a maioria dos quais pertence à aristocracia operária. A isso se soma o fato de que, durante décadas, eles foram educados no espírito dessa mesma colaboração de classes, que vinculou seu próprio futuro ao sucesso de “sua” empresa.
Os últimos anos, com um número cada vez maior de programas de reestruturação e recuperação, enfraqueceram a confiança de muitos trabalhadores na “parceria social”. A atual onda de demissões está agravando ainda mais essa situação. Isso também ficou evidente nas assembleias de trabalhadores realizadas nas últimas semanas. Os trabalhadores estão indignados e furiosos com a direção, mas também frequentemente desesperados e sem saber o que fazer. Eles não sabem o que o futuro reserva e, de alguma forma, ainda esperam um futuro dentro do grupo. Os conselhos de trabalhadores e os burocratas sindicais estão tentando explorar esse estado de espírito contraditório, vendendo até mesmo a mais vergonhosa liquidação — uma capitulação diante da direção — aos trabalhadores como um “compromisso” que, seguindo o lema “a esperança é a última que morre”, de alguma forma oferece um caminho adiante.
No curto prazo, portanto, é possível que a raiva dirigida contra a direção seja canalizada pelos conselhos de trabalhadores e pela IG Metall para canais “pacíficos”. Mas o problema com a burocracia também está claro: além de maquiar a situação, ela não tem nada a oferecer. Sua política não salvará uma única unidade; ao contrário, está ajudando a administrar a maior onda de demissões da história da VW.
É necessária uma oposição baseada na luta de classes
No entanto, a implementação dessa capitulação não acontecerá da noite para o dia. Ela ocorrerá ao longo de meses, até mesmo anos. Isso significa que a luta contra as demissões e os fechamentos não terminou, mesmo que a direção do grupo tenha conquistado uma grande vitória.
Dentro do Grupo VW — e também em outras montadoras — não estão se desenvolvendo apenas raiva e indignação misturadas a desespero e uma esperança vaga de que, de alguma maneira, as coisas continuarão. Uma oposição também começa a tomar forma entre sindicalistas de esquerda e combativos, delegados sindicais e alguns membros dos conselhos de trabalhadores. Por exemplo, delegados da IG Metall na unidade da Daimler em Untertürkheim organizaram protestos no local de trabalho durante o horário de expediente e criticaram abertamente a direção da IG Metall por sua política de cooperação com as associações empresariais.
Isso é um sinal do que está por vir. De maneira geral, a oposição dentro dos sindicatos e dos locais de trabalho é atualmente fraca, mal organizada e fragmentada. Isso também se deve ao papel do aparato burocrático, que possui uma longa história de repressão contra grupos sindicais oposicionistas (incluindo a cooperação com as direções empresariais contra esses mesmos grupos).
Entretanto, não existe alternativa à construção de uma oposição organizada e orientada pela luta de classes contra a burocracia na VW e em outras empresas. A atual escalada da situação torna isso urgentemente necessário — e permite organizar trabalhadores que anteriormente não estavam ativos.
É, portanto, essencial que esses movimentos se tornem o mais visíveis possível em 21 de setembro e durante os dias de ação da DGB contra os cortes sociais. Está planejada uma reunião de coordenação da oposição sindical para os dias 16 e 17 de outubro, em Kassel.
Uma estratégia fundamental é levar esse debate para dentro da Die Linke. A Die Linke também poderia se estabelecer, nesse conflito, de maneira muito prática como um “partido organizador baseado na classe” dentro da classe trabalhadora, mas precisa decidir se deseja fazer isso como ala esquerda da burocracia ou como voz da base.
Ações simbólicas e protestos de um dia não serão suficientes para impedir as demissões em massa na VW. O que é necessário é um plano de luta, greves por tempo indeterminado e ocupações das unidades de trabalho contra todas as demissões e fechamentos, combinados com a luta pela expropriação sem indenização da VW (e de todas as outras corporações que estão colocando dezenas de milhares de pessoas no desemprego) sob controle dos trabalhadores.
No entanto, para desenvolver e impor um plano de ação dentro dos sindicatos, também é necessário reunir essas diversas iniciativas de oposição: uma conferência nacional e democrática de ação de todos os grupos de oposição dentro dos sindicatos, incluindo as estruturas sindicais do Die Linke (Partido de Esquerda). O que é necessário é uma alternativa política organizada à “parceria social” e à colaboração de classes da burocracia.








