Por Tom Alter

O país está atualmente vivenciando uma onda crescente de agressões do ICE, com 50.000 detenções em julho e agosto. Depois que a população de Minneapolis conseguiu, durante o inverno passado, fazer recuar a ofensiva e a ocupação do ICE, o ICE está empregando agora, principalmente, uma tática de atacar e prender rapidamente. Essa tática foi utilizada recentemente em Austin, Texas, resultando no disparo de ag entes do ICE contra Wilber Garcés Pérez. Milagrosamente, ele sobreviveu.

Agente do ICE atira em Wilber Garcés Pérez

Wilber Garcés Pérez é um imigrante venezuelano que entrou nos EUA há dois anos como solicitante de asilo, por meio de um programa federal de liberdade condicional migratória (parole). Esse programa foi encerrado pelo governo Trump após a chegada de Garcés Pérez, colocando em questão sua situação migratória, assim como a de inúmeras outras pessoas. O encerramento do programa desencadeou audiências judiciais às quais os imigrantes frequentemente não comparecem porque desconhecem que elas estão acontecendo. A ausência em uma audiência resulta, então, na emissão de uma ordem de deportação, sem que muitos solicitantes de asilo sequer saibam disso. Aparentemente, esse é o caso de Garcés Pérez.

A sequência exata dos acontecimentos que resultaram no disparo permanece pouco clara e é contestada. No domingo, 20 de setembro, Garcés Pérez estava fazendo uma entrega para a DoorDash. Agentes do ICE tentaram detê-lo por meio de uma abordagem de trânsito. Em algum momento durante a interação, veículos descaracterizados do ICE colidiram violentamente contra o carro de Garcés Pérez. Quando Garcés Pérez parou o carro, agentes do ICE dispararam contra o veículo, e uma das balas ficou alojada em suas costas, perto da coluna vertebral.

Garcés Pérez sobreviveu ao disparo e foi levado ao Dell Seton Medical Center. O Dell Seton é afiliado à Universidade do Texas e está localizado em um terreno de propriedade dessa universidade pública. Apesar de ter uma bala alojada nas costas e sentir dores significativas, Garcés Pérez não recebeu atendimento médico adequado. Com a bala ainda nas costas, Garcés Pérez foi transferido para o centro de detenção do ICE em Pearsall, a sudoeste de San Antonio. Inicialmente, foi mantido em uma cela sem cama e teve que dormir no chão. Somente 11 dias depois, após uma forte mobilização pública, a bala foi retirada das costas de Garcés Pérez. Imediatamente, surgiram questionamentos sobre a colaboração de médicos e funcionários públicos com o ICE, tanto por não operarem Garcés Pérez quanto por deixarem de fornecer informações à esposa dele durante horas sobre seu estado, fazendo com que ela temesse que ele tivesse morrido.

Quando a notícia do disparo do ICE se espalhou, manifestantes se reuniram no local, no norte de Austin. Os manifestantes denunciaram o disparo e exigiram responsabilização do Dell Seton enquanto ocupavam pacificamente um cruzamento. Quando o protesto começava a terminar e os manifestantes se dispersavam pacificamente, policiais de Austin lançaram gás lacrimogêneo contra a multidão, que incluía crianças. Três pessoas foram presas e acusadas de participação em tumulto. No dia seguinte, na noite de segunda-feira, 21 de setembro, foi realizado um protesto pacífico no Capitólio estadual.

A repressão estatal tem como alvo os manifestantes contra o ICE

Nos dias seguintes ao disparo e aos protestos, policiais estaduais do Texas, com a cooperação das forças policiais locais, começaram a prender pessoas que participaram do protesto de domingo à noite, acusando-as de participação em tumulto com base em poucas evidências. Circulam relatos de que existe uma declaração juramentada que cita vinte pessoas identificadas como estando “envolvidas em comportamento tumultuoso”. Quatro pessoas acabaram sendo presas em conexão com o protesto de domingo à noite.

No sábado, 26 de setembro, agentes da lei cercaram a casa de um ativista contra o ICE de San Marcos e o prenderam por sua suposta participação no “tumulto” de domingo à noite. Os ativistas do grupo Dare to Struggle parecem ser um alvo específico da polícia. Mais cedo naquele sábado, policiais estaduais prenderam Misael Ramos, também sob a acusação de “participar de um tumulto”.

Candidato ao Conselho Municipal pelo DSA é escolhido como alvo

Misael Ramos é um ativista comunitário e candidato ao Conselho Municipal de Austin, apoiado pela organização Socialistas Democráticos da América (DSA). Policiais estaduais abordaram Ramos enquanto ele passeava com seu cachorro na manhã de sábado e, segundo Ramos, perguntaram: “Você é Misael Ramos, candidato ao Conselho Municipal?” Quando Ramos pediu um mandado, os policiais disseram que não o tinham consigo e advertiram Ramos de que “dariam um fim” em seu cachorro caso ele se aproximasse deles. Ativistas e defensores dos direitos democráticos estão tentando reunir informações sobre possíveis novas prisões, enquanto as forças policiais locais e os policiais estaduais parecem determinados a intensificar a repressão contra aqueles que se opõem ao ICE.

Na noite anterior à prisão de Ramos, ele havia sido um dos principais oradores de um ato organizado pelo Sindicato dos Funcionários Públicos do Texas (TSEU), na Universidade do Texas, para protestar contra os ataques da direita ao ensino superior, expressos na eliminação de programas relacionados a raça, etnia, gênero e sexualidade e na perda de empregos no setor público. O ato marcou o evento de abertura da assembleia geral do TSEU, que contou com delegados de diferentes regiões do estado.

O TSEU é um sindicato que representa todos os funcionários do governo estadual do Texas. A notícia da prisão de Ramos chegou à assembleia do TSEU enquanto os delegados se preparavam para se reunir em seus núcleos geográficos. O núcleo da região central do Texas do TSEU votou pelo encerramento antecipado de sua reunião e seguiu para a prisão do condado de Travis, onde Ramos estava detido. Lá, seus integrantes se juntaram a um protesto de emergência e a uma coletiva de imprensa organizados pela campanha de Ramos.

Sindicato dos Funcionários Públicos do Texas se mobiliza contra o ataque do ICE

Com pouquíssimo tempo de organização, mais de 250 pessoas se reuniram para protestar contra a prisão de Ramos e participar da coletiva de imprensa. Atrás de uma barreira formada por membros do TSEU e outros apoiadores, a coletiva contou com a participação do advogado de Ramos e de representantes da campanha de Ramos, da Austin Lawyers Guild, do Austin DSA e do TSEU. Gumbo, copresidente do Austin DSA, declarou: “Este é um ato evidente de repressão política e retaliação contra os moradores de Austin que se manifestaram no domingo, depois que agentes do ICE atiraram nas costas de Wilber Rafael Garcés Pérez.”

Integrantes do Sindicato dos Funcionários Públicos do Texas se mobilizam em defesa de Wilber Garcés Pérez e Misael Ramos. Foto cedida pelo TSEU.

Falando em nome do TSEU, Tom Alter também denunciou a repressão estatal contra a militância política. “Há uma ofensiva nacional contra aqueles que lutam por um futuro melhor, contra as misérias cotidianas que o capitalismo nos impõe, desde o genocídio na Palestina até a oposição ao terror do ICE em nossas comunidades. Estamos em solidariedade com os réus de Prairieland, os 15 de Minnesota e os 8 de Michigan. Retirem as acusações contra Misael e todos os que foram presos hoje! Acabem com a colaboração dos governos locais e estaduais com o ICE!”

Assim que a coletiva de imprensa estava terminando, Ramos foi libertado da prisão mediante pagamento de fiança. Ele se dirigiu à multidão, agradecendo o apoio e reiterando sua oposição às operações do ICE e à repressão contra ativistas locais. Os integrantes do TSEU retornaram à sua assembleia geral. No dia seguinte, o TSEU aprovou uma resolução denunciando o terror do ICE, e funcionários públicos defenderam o fim da colaboração entre o governo estadual e o ICE. Os protestos locais continuaram, exigindo a libertação de Garcés Pérez do centro de detenção do ICE em Pearsall.