A recente invasão militar dos Estados Unidos à Venezuela, que incluiu bombardeios em Caracas e o sequestro ilegal de Maduro e sua esposa, colocou o sistema multilateral de justiça e diplomacia diante do espelho de sua própria obsolescência.

Por: Gonzalo Zuttión

Enquanto o território sul-americano era agredido pelas forças comandadas por Donald Trump, os organismos do regime capitalista reagiram com a lentidão e a ineficiência que os caracteriza. A convocação urgente da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) terminou em um fracasso estrondoso, expondo uma fratura política que impossibilitou até mesmo a redação de um comunicado unificado. Essa espécie de paralisia institucional acaba sendo a confirmação de que essas organizações carecem das ferramentas necessárias para frear a prepotência de um imperialismo que decidiu reconfigurar a ordem mundial com base na força bruta e no desrespeito ao direito internacional.

O encontro ministerial da CELAC, realizado de forma virtual, expôs posições que hoje se mostram irreconciliáveis dentro da região, pelo menos no discurso. De um lado, um bloco de governos progressistas (para classificá-los de alguma forma), liderado por Brasil, Colômbia e México, tentou impulsionar uma declaração de rejeição à ação militar, alertando sobre o perigoso precedente que representa a violação da soberania nacional. Do outro lado, Javier Milei liderou um bloco de dez países que bloqueou qualquer tentativa de condenação. O alinhamento cego do governo argentino com Washington foi tal que enviaram delegações de baixo escalão diplomático para esvaziar a cúpula, enquanto trabalhavam em comunicados alternativos que celebravam o sequestro de Maduro, qualificando-o como um marco na defesa da liberdade. Essa divisão transformou a cúpula em um trâmite expresso, demonstrando que, enquanto as potências bombardeiam, os organismos regionais se perdem em engrenagens administrativas estéreis.

Essa impotência também se refletiu nos recintos da ONU, onde o Conselho de Segurança se reuniu em um clima de máxima tensão, mas sem resultados práticos. Enquanto o representante venezuelano denunciava um ato de guerra colonial destinado a capturar as reservas petrolíferas, a administração Trump limitava-se a invocar o artigo 51 da Carta da ONU sobre legítima defesa, uma justificativa jurídica que a maioria da comunidade internacional observa com ceticismo, mas que não se traduz em ações.

A realidade é que Trump já declarou mortas essas instituições ao afirmar publicamente que o direito internacional não faz sentido diante dos interesses estratégicos de seu país. Com ameaças latentes de intervir na Colômbia ou declarações sobre a anexação da Groenlândia, o mandatário norte-americano deixa claro que o novo mapa do imperialismo não admite mediações diplomáticas nem limites geográficos.

A mobilização popular como única garantia de soberania

Os limites da diplomacia burguesa são estruturais, especialmente quando os supostos juízes do sistema internacional são os mesmos algozes dos povos. Não se pode esperar uma resolução progressiva de instituições que convivem com exercícios militares conjuntos com os agressores enquanto fingem debater a paz.

A CELAC e a OEA demonstraram ser incapazes de enfrentar o avanço do imperialismo ianque porque muitos de seus membros são lacaios diretos da política estadunidense, priorizando a convivência econômica em detrimento da defesa da soberania regional. Do mesmo modo, a experiência demonstra que também não se pode depositar nenhuma confiança nos governos progressistas da região. Um exemplo escandaloso disso é a atitude de Delcy Rodríguez, que, após assumir a presidência da Venezuela sob a tutela da justiça de seu país, mostrou uma imediata submissão a Trump. Ao convidá-lo a trabalhar em uma “agenda de cooperação” poucas horas após a captura de Maduro, deixa entrever a existência de pactos ou negociações prévias que facilitaram a entrega da soberania. Essa esterilidade institucional e cumplicidade política só servem para ganhar tempo enquanto a ingerência norte-americana se consolida no terreno.

Diante desse cenário de capitulação dos governos latino-americanos, a única saída real reside no protagonismo dos povos mobilizados de forma independente. Hoje, mais do que nunca, é urgente enfrentar o intervencionismo e o avanço estadunidense na região, sem que isso signifique apoiar regimes autoritários como o de Maduro, mas sim construir uma alternativa que repudie qualquer ingerência estrangeira e defenda os direitos da classe trabalhadora. A verdadeira resistência contra o imperialismo não sairá dos salões da ONU, mas da organização operária e popular que seja capaz de exigir a ruptura de tratados militares, a anulação de acordos de saque e a expulsão das bases norte-americanas em solo continental.

Diante dessa situação, é urgente transformar toda a indignação em um plano de luta regional. Os governos tímidos que pedem diálogo enquanto caem bombas apenas facilitam o caminho para Trump e seus sócios locais. Só a unidade de ação dos povos da América Latina, com independência de classe e sem compromissos com a burguesia estrangeira, poderá frear esse avanço colonialista. Um exemplo concreto dessa saída necessária foram as mobilizações realizadas em frente à Embaixada dos Estados Unidos e em diversos pontos da região, onde se demonstrou que a soberania se defende nas ruas, enfrentando tanto os regimes opressores internos quanto a voracidade de um império que busca devorar o continente. Precisamos organizar a luta e construir uma ferramenta política anticapitalista e socialista que sirva para que sejam os trabalhadores a decidir seu próprio destino, varrendo com a farsa da diplomacia imperial e suas instituições vazias.

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