Por Sergio García
Entre os dias 26 e 29 de março, será realizada em Porto Alegre, Brasil, uma conferência antifascista. A conferência é organizada pelos companheiros do MES-PSOL daquele país, juntamente com organizações do SU (IV) de diferentes países: o PT de Porto Alegre, o PCdoB local, o Movimento Sem-Terra (MST) daquela região e outros setores sindicais e sociais locais. Diferentes organizações e figuras de referência de outros países também participarão como convidados. O mesmo faremos a partir do MST na Frente de Esquerda, pois recebemos o convite para participar e estaremos presentes para apresentar nossas propostas e opiniões sobre o que fazer diante da ascensão de novas forças e governos de extrema direita com tendências neofascistas. Não devemos subestimá-los; pelo contrário, temos que compreender sua periculosidade e, ao mesmo tempo, não devemos vê-los como fenômenos invencíveis. Há muitas experiências e debates em curso e uma necessidade urgente de derrotar esses projetos de ultradireita. Deixamos neste trabalho algumas opiniões e propostas a esse respeito.

RAZÕES DE UM ASCENSO POLÍTICO EXTREMO
Nos últimos anos, começou-se a ver com certa naturalidade a chegada ao governo — ou a possibilidade de que isso aconteça — de forças políticas de extrema direita em diferentes países. É um processo que tem suas origens ou causas na crise anterior dos partidos e regimes tradicionais, tanto em países centrais quanto periféricos. Em outras palavras, a irrupção de figuras disruptivas à frente de fenômenos de extrema direita de caráter neofascista é um subproduto da crise mais geral do sistema capitalista mundial, desde a crise geral de 2008. Também da brutalidade dos ajustes e da corrupção com que as forças políticas históricas responderam nos anos seguintes a partir dos governos, e da decepção que milhões viveram nesse período, abrindo-se para a busca de novas experiências opostas a tudo o que havia antes. A nova ascensão dessa extrema direita, que em alguns países consegue peso eleitoral em faixas de massa, faz parte de uma situação internacional que apresenta essa e outras características, como a polarização assimétrica em um processo de luta de classes — que resiste e enfrenta seus projetos e outros burgueses que governam no mundo — com fortes manifestações em diferentes países, mas sem uma liderança política com peso nas massas que proponha uma saída alternativa ao capitalismo.
A existência de expressões encabeçadas por Trump, Milei, Modi, Meloni, Bolsonaro, entre outros exemplos, coloca em modo de urgência política e social a necessidade de a classe trabalhadora e a juventude enfrentá-los e lutar para derrotá-los nas ruas, a fim de impedir que avancem com seus planos de ataque direto aos direitos sociais e democráticos. Torna-se evidente que seu programa é liquidar os direitos dos trabalhadores e do povo, facilitar os lucros do poder econômico corporativo imperialista mais concentrado e consolidar regimes muito mais autoritários como suporte repressivo indispensável para o desenvolvimento de seus planos de fundo ultrarreacionários. A isso há que somar Netanyahu, com seu governo e regime de características fascistas, com genocídio e limpeza étnica contra o povo palestino.

É nesse contexto que surge a necessidade imperiosa de debater a fundo como enfrentá-los e derrotá-los, e de reconhecer a importância estratégica de construir alternativas de esquerda anticapitalistas e socialistas, diferentes de todos os modelos possibilistas-reformistas do período anterior. Especialmente porque não podemos ignorar que, nos anos que antecederam o surgimento desses fenômenos da extrema direita, houve um ciclo de governos chamados progressistas ou possibilistas-reformistas, ou do movimento bolivariano em nosso continente, que refletiam na superestrutura política uma primeira busca pela esquerda por parte de setores da população, mas, uma vez no governo, a maioria não passou de administradores do capital e de seus ajustes, ou, na melhor das hipóteses, não se atreveu a tomar medidas profundas e anticapitalistas. Com isso, na prática, acabaram desempenhando o papel negativo de aprofundar o processo de decepção de milhões, facilitando assim as confusões e o atraso na consciência de uma parte importante da população. Esse processo culminou na ascensão final de alternativas de cunho neofascista que se apoiam nessa realidade de crítica a todas as experiências anteriores, para o desenvolvimento de suas políticas e ideologias nefastas que enfrentamos hoje. Vale o exemplo da Venezuela, onde hoje repudiamos e enfrentamos o intervencionismo de Trump e sua ofensiva contra a soberania venezuelana, sem perder de vista que o regime madurista havia sofrido uma mutação muito regressiva muito antes do ataque dos EUA, semeando o país de autoritarismo, perseguições, miséria e perda de conquistas sociais anteriores e gerando uma situação de fraqueza, desmobilização e falta de apoio social para enfrentar a investida imperialista.
Causas da ofensiva imperialista na região
A questionada hegemonia estadunidense — que vem se deteriorando nas últimas décadas, dando um salto ainda maior após a crise mundial de 2008 — possibilitou uma nova tentativa imperialista, por meio de Trump em seu segundo mandato, de reconfigurar toda a estrutura da arquitetura política internacional, apoiada em novos alicerces que garantam a hegemonia ianque. O que vimos em 2025 e estamos vendo em 2026 é a concretização dessa tentativa, que está a meio caminho e com um prognóstico indefinido quanto aos seus resultados finais e duradouros. Essa política é agora liderada pela vertente mais visível dessa ascensão da extrema direita, pelo peso específico de ser a principal potência imperialista, em disputa com os impérios emergentes da China e da Rússia.
Trump se envolve diretamente em diferentes regiões e em seus conflitos, como no Oriente Médio, primeiro em Gaza e agora com seus bombardeios criminosos ao lado de Israel sobre o Irã. Ele se envolve nas negociações na Ucrânia, pela Groenlândia, na Venezuela interveio diretamente e, paralelamente, hostiliza Cuba. O nefasto presidente dos EUA ataca, avança e, ao mesmo tempo, freia e negocia, porque também está ciente de seus limites. E nesse contexto de busca por consolidar seus objetivos e defender seus interesses, ele precisa recompor seu controle regional sobre o continente latino-americano. Daí decorre sua necessidade de controlar todo o negócio petrolífero venezuelano; sua pretensão de controle total do Canal do Panamá; suas ameaças sobre a Colômbia, onde mantém bases militares que Petro permite; seu apoio total a Milei para que os produtos estadunidenses possam invadir a Argentina sem obstáculos tributários e, ao mesmo tempo, suas corporações fiquem com nossos bens comuns, saqueiem, destruam e também adquiram as chamadas terras raras. Para essa política regional, conta, além de Milei na Argentina, com governos e aliados diretos em países como Equador, Paraguai, Panamá e Honduras, entre outros, que refletem mudanças políticas regionais em sintonia com a situação internacional. A necessidade de enfrentar todos os seus planos políticos e econômicos é uma bandeira e uma tarefa urgente, que se disputa nas ruas de cada país latino-americano e, em grande parte, nas ruas do país do norte.
A casa dele não está em ordem
Em meio às tentativas de Trump de avançar sobre o que ele equivocadamente considera seu quintal, surge uma situação particular e encorajadora: o povo estadunidense está bagunçando a própria casa dele. Uma forte mobilização em torno da luta contra o ICE e outras reivindicações foi se radicalizando e ganhando caráter nacional, com forte protagonismo da classe trabalhadora, ativismo e influência de posições de esquerda. Isso marca uma situação objetiva na luta de classes daquele país, com elementos muito progressistas que definem sua situação atual como resposta à política profundamente reacionária e imperialista de Trump, que atravessa, em seu próprio país, momentos de crise e fraqueza que, além disso, no futuro, poderão ter seu reflexo no plano eleitoral. É um regime que, ao mesmo tempo em que precisa sustentar a política internacional do governo, racha por dentro com perspectivas incertas e tensões sociais e polarização cada vez maiores, com um movimento de luta que se encaminha para preparar um 1º de maio que será emblemático e de alta combatividade, em meio a assembleias que preparam esta e outras ações prévias. Toda essa situação torna imprescindível mobilizar internacionalmente um forte apoio e solidariedade aos trabalhadores e à juventude que lutam contra Trump e seu projeto dentro das fronteiras dos Estados Unidos, onde pode estar em jogo que nossa classe desferir um golpe certeiro em todo o plano trumpista, e onde é necessário, como propõem nossos camaradas do Socialist Horizon na LIS, fortalecer uma organização revolucionária e uma frente única de organizações socialistas.

Importância do debate
Nos tempos que vivemos, as convocatórias para eventos de debate diante desses fenômenos da extrema direita e diante das agressões de Trump — como a Conferência que será realizada em Porto Alegre, outros fóruns anteriores dos quais também participamos e outros que certamente ocorrerão nos próximos tempos — são expressões necessárias dessa urgência de intercâmbios políticos para definir qual rumo político devemos seguir. Por essa razão, a partir do MST na Frente de Esquerda Unidade da Argentina e como parte da LIS, participamos de todos os encontros de intercâmbio para expressar nossas opiniões, sabendo que sempre encontraremos pontos de acordo que permitam articular e combinar tarefas, e também nuances e diferenças com a maioria das organizações participantes, já que no debate serão expressadas diferentes políticas e estratégias.
Consideramos os debates coletivos algo muito necessário e, por isso, os incentivamos. Somos defensores de um intercâmbio aprofundado e de colocar sobre a mesa todas as questões que definem como enfrentar e derrotar todas as direitas extremistas que representam um enorme perigo para a humanidade, sem que isso elimine a necessidade de também enfrentar, em outros países, os demais governos capitalistas que, de uma forma ou de outra, atacam os direitos da população trabalhadora, ao mesmo tempo em que promovemos ações com a maior unidade de ação diante de qualquer agressão que os EUA decidam realizar em nosso continente ou em outros lugares do mundo.

Contra a extrema direita: duas tarefas diferentes e relacionadas
A luta contra os governos e as novas manifestações neofascistas requer, em primeiro lugar, uma estratégia de luta em cada país onde eles chegaram ao poder e estão aplicando planos brutais de ajuste, mudanças estruturais e transformações rumo a novos regimes altamente autoritários e repressivos. Esses planos não são detidos com medidas isoladas, ações sem mobilização em massa, nem com antigas lideranças sindicais e políticas que fingem um confronto enquanto negociam parte do plano aplicado. Diante da monstruosidade da extrema direita, é necessário um maior protagonismo da classe trabalhadora, o uso de suas armas, como a greve geral, convocatórias para paralisações gerais ativas, com impulso a autoconvocatórias genuínas e com as necessárias mobilizações de massa nas quais também participem a juventude, os setores populares e as classes mais atingidas. Em resumo, é preciso mobilizar a força de toda a classe trabalhadora e a maior unidade de ação para derrotá-los, bem como impulsionar a tática da frente única em todas as circunstâncias que o tornem necessário.
Vale o exemplo recente da Argentina para tomar nota dos problemas reais que existem e que vão além da própria existência dessa ascensão da extrema direita. Em nosso país, a maioria das dirigentes sindicais, em particular a cúpula burocrática da CGT, negociou abertamente a reforma trabalhista escravizante, deixou passar a primeira votação no Parlamento, depois convocou apenas uma greve sem mobilização na segunda sessão e, finalmente, no último dia da terceira sessão no Congresso, simplesmente não convocou nada. Enquanto isso, um setor sindical dissidente convocou naquele dia uma mobilização, mas sem a greve de 36 horas que havia anunciado anteriormente. Assim, criou-se um cenário de bloqueios e ações de luta de rua impulsionado pela esquerda, algo positivo, mas certamente mais fraco do que o necessário para conter Milei, que, logicamente, conseguiu avançar com sua reforma trabalhista que retira direitos conquistados ao longo de décadas e que agora terá de ser enfrentada em sua tentativa de aplicação. Mais uma vez, antigos dirigentes sindicais agrupados politicamente no peronismo permitiram o avanço da extrema direita, confirmando pela enésima vez a relação direta que existe, neste caso muito negativa, entre as direções sindicais e políticas que já não servem mais e precisam ser superadas por algo novo.


A segunda tarefa que temos pela frente, e que logicamente é tema de debate e intercâmbio na Conferência de Porto Alegre e em todos os eventos da atualidade, decorre e se combina com as conclusões da anterior, mas tem seus próprios caminhos e tarefas. Falamos da necessidade política urgente de construir e fortalecer alternativas políticas anticapitalistas e socialistas que se empenhem em ganhar peso em setores das massas e forte inserção social. Não há nenhuma possibilidade de gerar novamente entusiasmo em setores da população trabalhadora e na juventude se a receita política for repetir os mesmos passos programáticos e de projeto dos partidos que fizeram parte dos regimes capitalistas e já decepcionaram milhões de pessoas, cujas condições de vida pioraram sob seus governos. Tomando novamente o exemplo argentino, senadores e deputados que respondem a governadores peronistas acabaram de dar quórum e votos a Milei para que ele possa aprovar sua reforma trabalhista. É disso que estamos falando. Nesse sentido, acreditamos que o pior que a esquerda pode fazer é ficar politicamente presa em alianças com esses setores corresponsáveis pela situação que hoje aflige milhões no continente.
Nós, que continuamos acreditando na necessidade de construir partidos e organizações revolucionárias em todo o mundo, lutamos ao mesmo tempo para desenvolver alternativas políticas fortes junto àqueles que também consideram isso necessário e urgente. A maior unidade de ação nas ruas contra as novas ultradireitas é decisiva, só que isso não implica uma cópia dessa unidade no plano político, onde o que determina uma construção para desempenhar um papel progressista é seu conteúdo político-programático, que nesta etapa deve ser de fundo, em chave anti-imperialista e anti-Trump, com a necessária combinação em chave anticapitalista devido ao caráter das medidas que devem ser tomadas se quisermos não apenas derrotá-los, mas também colocar em pé um novo projeto em cada país e em todo o continente.

Nesse plano, coexistem dentro da esquerda diferentes concepções e orientações. Há aquelas que tendem a se diluir em alianças onde predominam políticas oportunistas que não respondem à situação atual e acabam servindo de freio. Há aquelas que, no plano do sectarismo, vegetam em estruturas fechadas, sem se abrir para convocar com ousadia os milhões que rompem com os velhos partidos, dando-lhes um papel ativo e protagonista. E, por nossa parte, lutamos por um terceiro caminho; que, com base em um programa anti-imperialista, anticapitalista e socialista, impulsionemos a unidade das forças que compartilham um projeto como esse. Que forjemos alternativas que travem a luta política em todos os campos da luta política e de classes, e não apenas no plano eleitoral. Na Argentina, a partir do MST, levamos adiante esse debate dentro da Frente de Esquerda, que é uma frente eleitoral que ocupa um espaço político importante, mas deveria ser muito mais do que isso, avançando para se tornar um partido comum de tendências organizadas democraticamente, aberto a intelectuais, referências sociais e outros setores de trabalhadores e jovens que nos apoiam. Concretamente, a unidade antifascista de que precisamos e que promovemos combina tarefas nas ruas, na luta de classes e na luta política. São tarefas relacionadas e, ao mesmo tempo, diferentes. No final do caminho, o decisivo será se, a partir da esquerda, conseguiremos construir alternativas que tenham peso entre as massas e que se arrisquem a disputar o poder. É por esse objetivo que lutamos. Para que, algum dia, nós, as e os trabalhadores, governemos. E continuamos acreditando que podemos fazer isso.






