Por Socialist Horizon, publicado originalmente no PuntoRojo.

O “memorando de entendimento”, composto por 14 pontos, tem como objetivo suspender a guerra dos Estados Unidos contra o Irã por 60 dias. Durante esse período, o Irã reabrirá o Estreito de Ormuz e os EUA encerrarão o bloqueio aos portos iranianos. As sanções sobre a compra de petróleo iraniano serão suspensas, permitindo a retomada das exportações de petróleo bruto e derivados.

O acordo também exige a “cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano”, bem como a garantia da “integridade territorial e da soberania do Líbano”. Não está claro como isso será implementado na prática, já que Israel continua atacando o Líbano e ampliando sua ocupação territorial, enquanto o Irã declarou que atacará Israel e os países do Golfo caso Israel prossiga com sua ofensiva durante esse cessar-fogo.

As questões controversas relativas ao programa nuclear iraniano e aos 100 bilhões de dólares em ativos iranianos congelados pelos EUA não fazem parte do acordo e serão tratadas em uma etapa posterior. Cabe destacar que o acordo prevê a criação de um fundo internacional de reconstrução e desenvolvimento econômico de 300 bilhões de dólares para a reconstrução do Irã, que será financiado principalmente pelos Estados do Golfo.

Retorno à situação anterior

Em essência, o acordo devolve a situação ao ponto em que se encontrava antes de Trump atacar o Irã, embora após um custo de 132 bilhões de dólares, a destruição de instalações militares estadunidenses em toda a região e o assassinato de mais de 3.500 iranianos, incluindo o assassinato seletivo de mais de 175 pessoas — em sua maioria meninas em idade escolar — na escola primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab.

Em suma, o acordo confirma que a guerra representa uma derrota significativa para o imperialismo estadunidense e, em particular, para a ofensiva liderada por Trump, que buscava reverter o declínio do poder global dos EUA, sem alcançar nenhum dos objetivos declarados: nem um levante popular no Irã, nem uma mudança de regime, nem a destruição da capacidade militar iraniana, nem o fim do programa nuclear do Irã, nem a reabertura do estreito.

Essa derrota é mais significativa do que as do Iraque ou do Afeganistão, onde o exército estadunidense derrotou, ocupou e impôs facilmente uma mudança de regime antes de acabar derrotado no longo prazo. O Irã possui uma capacidade militar muito inferior à dos EUA, mas foi capaz de frustrar o ataque estadunidense, manter intactos seu regime e sua infraestrutura militar, atacar e destruir com êxito bases e ativos navais estadunidenses desdobrados na região, infligir danos sem precedentes a Israel com mísseis e fechar e controlar um ponto estratégico fundamental para o comércio mundial, obrigando os EUA a capitular.

Esse último aspecto tem consequências importantes. A ideia de que uma potência regional relativamente menor, como o Irã, possa superar em manobras e estratégia a maior e mais letal força militar do mundo, infligindo-lhe um golpe dessa magnitude, demonstra ao restante do mundo que os EUA não são invulneráveis e podem ser derrotados. Isso pode estimular os rivais dos EUA e as potências regionais a resistirem a Trump e ao Estado estadunidense e até mesmo a adotarem medidas semelhantes caso sejam ameaçados ou se tornem alvo de ataques, como ocorreu com o Irã.

Trump se enfraqueceu, mas os democratas não podem oferecer uma alternativa

Essa aventura militar fracassada também é extremamente impopular nos EUA. As pesquisas revelam que 78% da população deseja que a guerra termine de uma vez por todas e mais de 70% acreditam que os EUA não alcançaram seus objetivos. O apoio a Donald Trump despencou praticamente por completo, e apenas cerca de 37% do eleitorado aprova suas ações. Esse é o menor índice já registrado pelas pesquisas para um presidente nessa etapa do mandato.

Apesar de a guerra contra o Irã ter representado um desastre para o trumpismo — o que, em outras circunstâncias, poderia impulsionar a oposição —, os democratas não conseguem tirar proveito político desse fracasso. Embora tenham se oposto retoricamente à versão de Trump da guerra contra o Irã, a direção do Partido Democrata também seguiu uma política de mudança de regime no país. Como os democratas não se opõem à guerra dos EUA contra o Irã — apenas à tentativa temerária de Trump —, limitaram-se a uma oposição simbólica, tentando aprovar no Congresso um projeto de lei sem qualquer possibilidade de êxito, a chamada “Lei dos Poderes de Guerra”.

Além dessas manobras parlamentares, não ofereceram nenhuma oposição substantiva ou coerente, nem fizeram qualquer esforço para mobilizar a oposição popular à guerra, por receio de que ela pudesse ultrapassar palavras de ordem inofensivas como “Não aos reis” e se voltasse contra o imperialismo estadunidense. Incapazes de apresentar uma alternativa real à guerra ou de canalizar em seu favor a indignação e o descontentamento populares, acabaram se somando ao coro belicista da direita contra o memorando de entendimento de Trump, classificando-o como um “documento de rendição”.

O regime iraniano sai fortalecido desse resultado no curto prazo. Encontra-se em melhores condições para negociar a devolução de seus ativos congelados, conseguir a suspensão das sanções estadunidenses, consolidar seu controle interno diante de dissidentes e opositores e inclinar a balança do poder de negociação a seu favor frente aos Estados do Golfo, que apostaram em vão na derrota do Irã pelos Estados Unidos.

O Irã, contudo, enfrenta uma série de reveses. A morte de seu líder supremo e a situação incerta de seu filho como sucessor — gravemente ferido e, segundo rumores, em coma na Rússia —, assim como as mortes de muitos outros dirigentes políticos, militares e cientistas de destaque, terão consequências que ainda são desconhecidas. O que se pode afirmar até o momento é que a Guarda Revolucionária e uma ala mais radical do regime também consolidaram seu poder no interior do Estado.

A guerra beneficia os rivais imperialistas dos EUA e fortalece as alianças regionais

Rússia e China também saíram do conflito mais fortes do que antes. A Rússia se beneficiou da venda de armas ao Irã, enquanto o petróleo e o gás russos foram isentos das sanções estadunidenses, permitindo que o país voltasse a participar dos mercados globais de energia. A China também se beneficiou da guerra contra o Irã ao aproveitar a crise energética mundial para acelerar suas importações de energia, adquirindo petróleo iraniano com grandes descontos, revendendo o escasso gás natural liquefeito a outros países asiáticos e obtendo valiosas informações de inteligência sobre as táticas militares dos EUA. Tanto a China quanto a Rússia testaram armamentos estratégicos e tecnologias de comunicação e vigilância que se mostraram mais eficazes na zona de guerra contra os EUA do que qualquer um esperava.

O ataque militar liderado pelos EUA proporcionou a Pequim um verdadeiro campo de testes para observar as capacidades e o desempenho do armamento estadunidense, dos sistemas de mísseis e de defesa antiaérea, da logística, dos padrões de ataque, das táticas de bloqueio naval, dos desdobramentos militares e das vulnerabilidades energéticas. Isso representou um estudo valioso para a China, especialmente no contexto de sua preparação para uma eventual invasão de Taiwan, que poderia desencadear uma guerra com os EUA, incluindo a forma de enfrentar um possível bloqueio do Estreito de Malaca liderado pelos Estados Unidos.

A guerra também deu origem a novos realinhamentos políticos que evidenciam um fortalecimento das alianças regionais. O Paquistão e a Arábia Saudita estreitaram seus laços e avaliam um novo acordo militar que também poderá incluir a Turquia. A Índia, Israel e os Emirados Árabes Unidos mantêm conversações semelhantes. Dubai e Abu Dhabi estão em desacordo e levantaram a possibilidade de uma divisão dos Emirados Árabes Unidos.

É provável que a trégua não dure, a menos que consigamos organizar uma oposição de massas

O acordo é frágil. As questões mais polêmicas continuam sem solução e pode ser impossível conciliá-las dentro do prazo de 60 dias. A guerra desestabilizou a região e abalou a economia mundial, contribuindo para a instabilidade, a escassez, a inflação e a incerteza. Israel poderá fazer fracassar o acordo caso continue sua ofensiva genocida no Líbano, algo que parece provável, com ou sem o apoio dos EUA. Diante de todos esses cenários, é provável que o cessar-fogo fracasse e que haja mais guerra e destruição.

A única maneira de os socialistas, os anti-imperialistas e os opositores da guerra nos EUA agirem para impedir que Trump reacenda o conflito é organizando uma oposição de massas. Isso pode ser alcançado vinculando a oposição à guerra e aos enormes custos de seu fracasso ao aumento da inflação, à especulação de preços promovida pelo capital e ao custo de vida crescente, que está empurrando muitas pessoas da classe trabalhadora para a beira da pobreza. Também é necessário estabelecer uma ligação entre a oposição à guerra no exterior e sua “guerra invertida” no plano interno: a guerra de classes travada pela classe capitalista contra a classe trabalhadora, os ataques do ICE contra migrantes e refugiados e a repressão estatal autoritária contra a esquerda política. Precisamos descobrir como ativar e mobilizar a indignação de classe latente que hoje permeia a sociedade estadunidense e direcioná-la contra um regime corrupto e violento que não se deterá até ser detido.