A Corrente Sindical e de Luta “Primeiro de Maio”, que reúne de forma unitária dirigentes e lutadores que impulsionam a mobilização e a organização da classe trabalhadora e dos setores populares pela recuperação de seus direitos e liberdades, publicou uma declaração na qual manifesta sua solidariedade às vítimas dos terremotos de 24 de junho e apresenta uma série de denúncias, acompanhadas de exigências ao governo, além de propostas e um chamado à classe trabalhadora venezuelana. Nossos camaradas da Marea Socialista, da LIS, fazem parte dessa corrente unitária.

A seguir, reproduzimos a declaração na íntegra:

Declaração da Corrente Sindical e de Luta “Primeiro de Maio” diante da catástrofe nacional, da pilhagem interna e da entrega ao imperialismo

Às trabalhadoras e aos trabalhadores venezuelanos, ao povo humilde que sofre e luta:

Da Corrente Sindical e de Luta “Primeiro de Maio”, dirigimo-nos a toda a classe trabalhadora em um momento de profunda dor coletiva. Expressamos nossa mais firme e sincera solidariedade às milhares de famílias afetadas pelos terríveis terremotos do último dia 24 de junho, cujos efeitos devastaram setores de Caracas e atingiram com ainda maior gravidade La Guaira, onde, lamentavelmente, o número de vítimas fatais continua aumentando.

Entretanto, esse desastre natural não ocorreu em um vazio. Encontrou um povo já golpeado por outras “catástrofes” provocadas pelas políticas antitrabalhadores aplicadas pelo governo que até pouco tempo era dirigido por Nicolás Maduro e que hoje está sob a condução dos irmãos Delcy e Jorge Rodríguez, juntamente com Diosdado Cabello. Isso se expressa no desmonte completo dos direitos fundamentais e das conquistas históricas que nossa classe alcançou após décadas de luta.

O terremoto apenas sobrepôs sua destruição a uma realidade de asfixia generalizada. A resposta governamental à emergência foi o que sempre foi: lenta, burocrática e indiferente. Não se trata apenas da falta crônica de preparação para situações de contingência, mas da prova irrefutável do desinvestimento público estrutural, de um sistema de saúde em ruínas e de uma rede de corrupção imobiliária — tanto no setor público quanto no privado — que permitiu construções em condições precárias, multiplicando o custo em vidas humanas.

Enquanto o povo enterra seus mortos, as cúpulas políticas revelam sua face mais desumana, instrumentalizando a tragédia para avançar suas agendas particulares. O atual governo, aprofundando sua postura de submissão à ocupação estadunidense, facilitou uma crescente presença de militares norte-americanos que já controlam pontos estratégicos do país, incluindo o aeroporto internacional de Maiquetía. Donald Trump e sua corja imperialista veem em nossa desgraça a oportunidade perfeita para consolidar seus planos coloniais de pilhagem sobre a Venezuela e toda a região. Soma-se a isso a chegada de uma suposta missão israelense de reconstrução, uma fachada que encobre chefes militares de um dos exércitos mais sanguinários do mundo, responsável pelo genocídio contra o povo palestino.

Por outro lado, as cúpulas da oposição patronal tampouco oferecem qualquer alternativa digna para a maioria da população. María Corina Machado demonstra um populismo cínico e inaceitável diante da dor alheia, pretendendo fazer crer que as vítimas soterradas sob os escombros clamam por seu retorno, enquanto seus seguidores recorrem à embaixada dos Estados Unidos para mendigar eleições imediatas, tendo como único objetivo levá-la ao poder. Condenamos energicamente aqueles que, fazendo-se passar por sindicalistas, atuam como operadores dessas agendas patronais e colonialistas. Sua submissão ao patrão estrangeiro em meio a este luto nacional torna-os indignos diante da classe trabalhadora.

A realidade econômica não dá trégua: o bolívar afunda cada vez mais, a desvalorização destrói nossas condições de vida sem parar e o regime de trabalho atua de forma tão devastadora quanto o próprio terremoto, aprofundando o empobrecimento e transformando-nos em mão de obra semiescrava para benefício dos patrões públicos e privados que enriqueceram com a pilhagem do nosso trabalho. Diante desse cenário, alertamos os trabalhadores e o povo venezuelano para que permaneçam vigilantes: não podemos permitir que o governo e o patronato aproveitem a confusão e a dor deste momento para impor novas reformas antitrabalhadores. Denunciamos a intenção, já em preparação antes do terremoto, de reformar a Lei Orgânica do Trabalho (LOTTT), cujo verdadeiro objetivo é eliminar o valor real das prestações sociais, retirando um patrimônio histórico de nossas famílias.

Diante do abandono oficial, saudamos com profundo respeito a imensa solidariedade de base que emergiu do próprio povo. São os trabalhadores e os moradores que, com suas próprias mãos, removem os escombros em busca de sobreviventes e organizam, de forma autônoma e digna, os abrigos e centros de arrecadação. Essa solidariedade entre iguais e essa auto-organização popular constituem a verdadeira base e o caminho para construir uma saída genuína para a crise geral. Não contamos com nenhuma cúpula, seja ela qual for.

Exigimos do governo nacional, de forma imediata, que destine a totalidade dos recursos do país para enfrentar a emergência de maneira eficiente: a busca incansável por sobreviventes, a reconstrução urgente do sistema de saúde e a indenização integral das milhares de famílias que perderam tudo. Os recursos existem, mas hoje estão sendo levados pelo imperialismo e depositados em contas no exterior por meio da espoliação de nossas riquezas petrolíferas. Exigimos, agora mais do que nunca, que esses recursos do petróleo retornem imediatamente ao país. Da mesma forma, é dever inadiável do Estado reivindicar, exigir e recuperar os recursos venezuelanos retidos no Fundo Monetário Internacional (FMI), bem como o ouro depositado na Inglaterra. Insistimos que, neste momento, o mais importante e prioritário é destinar esses recursos ao atendimento da emergência nacional; porém, para garantir isso, os trabalhadores e a população em seu conjunto devem se organizar para exercer uma rigorosa auditoria e controle social desde baixo. Não podemos confiar, em hipótese alguma, à burocracia corrupta nem às demais cúpulas a gestão desses recursos.

Ao mesmo tempo, a reconstrução do país passa necessariamente pela restituição imediata do salário mínimo como um direito fundamental que nos foi retirado. Exigimos o cumprimento rigoroso do artigo 91 da Constituição da República Bolivariana da Venezuela (CRBV): um salário mínimo digno e equivalente ao custo da Cesta Básica! O financiamento da emergência e da sobrevivência das famílias deve sair dos lucros daqueles que historicamente exploraram a classe trabalhadora.

Aos trabalhadores e aos setores populares não resta outra alternativa senão pensar e agir com independência. Com solidariedade de classe, autonomia e auto-organização a partir das bases, devemos assumir hoje um papel protagonista desde baixo enquanto durar esta tragédia. Essa resposta solidária e emergencial deve transformar-se na base organizativa e de luta que nos permita acumular a força necessária para enfrentar e resolver, com nossas próprias mãos, todas as demais catástrofes políticas e econômicas que nos afligem. A saída para esta crise não virá de nenhum pacto por cima; trata-se de uma tarefa histórica que só poderemos conquistar por meio da mobilização independente.

Autonomia e independência da classe trabalhadora diante de todas as cúpulas e do imperialismo!

Pela reconstrução nacional a partir das bases da classe trabalhadora!

Corrente Sindical e de Luta “Primeiro de Maio”