Secretariado do MST
7/9/2026

Um grupo diverso, entre os quais estão camaradas com quem compartilhamos espaços de militância há 40 anos, enviou uma carta à direção nacional da FIT-U. A Frente já havia se reunido com a maioria deles e, com alguns, tivemos reuniões bilaterais, compartilhamos alguns pontos de vista, publicamos suas propostas e realizamos algumas atividades em conjunto.

Entendemos que a maioria é movida por uma preocupação legítima com a situação da Frente em um momento em que existe uma enorme oportunidade para a esquerda em nosso país. Fraternalmente, queremos apresentar nossa opinião, que, já adiantamos, é crítica em relação ao que escreveram recentemente, pois não acreditamos que isso ajude a encontrar pontos de contato para avançar.

Vocês propõem Comitês Unitários. Nós também os propusemos em seu momento. A realidade é que eles não se concretizaram e, muito provavelmente, não se concretizarão. Precisamos responder por que isso acontece.

Quando nós, por decisão de um Congresso, propusemos integrar os comitês convocados pelo PTS junto com alguns de vocês, levávamos em consideração aquilo que o partido de Bregman havia insinuado e posteriormente explicitado: que seriam comitês para impulsionar um novo partido na perspectiva de um governo dos trabalhadores. Como sabem, há anos vínhamos propondo que a FIT-U evoluísse de uma simples frente eleitoral para um movimento ou partido comum, com liberdade de tendências e um método para atuar unidos na luta de classes. Por isso, consideramos muito interessante abrir esse debate com o PTS, que, para nós, é estratégico.

A partir da carta que vocês enviaram e de várias atividades realizadas, entendemos que vocês não veem — ou minimizam — a importância de dar passos na construção de um grande partido revolucionário na disputa pelo governo e pelo poder. Ou, pelo menos, não vemos que tenham qualquer proposta relacionada a esse tema.

Para nós, esse é o desafio mais importante que a esquerda revolucionária tem pela frente, se realmente quisermos aproveitar a oportunidade que se apresenta. Porque, sem um partido revolucionário com dezenas de milhares de militantes, enraizado na classe trabalhadora e na juventude, é impossível impulsionar a auto-organização dos trabalhadores e disputar, com possibilidades de êxito, o poder. Algo que poderia se colocar como possibilidade em um futuro não muito distante, devido ao espaço que a esquerda em geral e a figura de Myriam em particular vêm conquistando, se aqueles que concordamos com isso o impulsionarmos em conjunto. Nenhum grupo, sozinho, pode fazê-lo.

O PO e a IS rejeitaram a proposta do PTS de construir um partido da nova classe trabalhadora e todas as nossas propostas sobre esse tema. Em seu lugar, propõem manter a FIT-U tal como vinha funcionando, isto é, como um acordo eleitoral, sem se abrir para discutir ou mudar absolutamente nada. Depois, lançaram por conta própria comitês enganosos, supostamente da Frente de Esquerda, mas que não são de fato, porque nem o MST nem o PTS participam e, portanto, tampouco Bregman. O PTS, por sua vez, fechou seus comitês para sua militância e sua periferia, algo que criticamos e continuamos criticando. Nossa posição é que eles deveriam ter sido unitários, com todos aqueles que enxergam a necessidade de construir um novo partido que supere os existentes.

Acreditamos que as propostas de sua carta também caminham no mesmo sentido que PO e IS em relação a esses debates, ao propor que os comitês deveriam ter seu centro na questão eleitoral. É isso que surge daquilo que vocês não dizem e de sua proposta de lançar a campanha pela candidatura de Bregman à presidência.

Hoje, infelizmente, não existem comitês conjuntos porque não há unidade sobre a dimensão da oportunidade, sobre a necessidade de superar o estágio meramente eleitoral da FIT-U e sobre o objetivo que esses comitês deveriam ter. Isso não mudará enquanto não forem alcançados acordos sobre esses temas.

O debate de Fate, que também encontra vocês em uma posição semelhante ou próxima à do PO e da IS, reflete as diferenças que também temos sobre o que a esquerda deve fazer na luta de classes. Vocês minimizam o que aconteceu. Mas, para aqueles que queremos saber se existem condições para um partido comum ou, pelo menos, para um acordo que vá além das eleições e apresente a esquerda não apenas nesse terreno, mas principalmente como uma opção de poder e na luta de classes, não é secundário o modo como se atua no movimento operário. Que tipo de unidade para disputar o governo pode ser construída se temos diferenças enormes sobre o modelo sindical que vamos aplicar e existem setores da esquerda que reproduzem vícios da burocracia sindical ou separam a luta sindical da política e se recusam a discutir a orientação das lutas em curso? Isso porque defendem uma Frente que deveria discutir apenas as listas alguns meses antes de cada eleição.

Também não vemos que vocês dimensionem, embora a mencionem, a importância da iniciativa que lançamos para preparar uma Grande Marcha da Bronca em 19 de setembro. Essa iniciativa, que ganha cada dia mais peso entre os lutadores, é uma oportunidade para começar a trabalhar em conjunto de maneira ampla, respondendo às necessidades mais urgentes do movimento de massas. Não é por acaso que a lançamos conjuntamente o PTS e o MST. Isso, assim como as coordenações zonais de apoio e unidade das lutas, são propostas que permitiriam construir a unidade a partir de baixo e ajudar a superar muitos dos problemas atuais. O problema é que nem o PO nem a IS se somaram às coordenadoras e resistiram à Marcha do dia 19, tentando mudar seu conteúdo, até que se tornou impossível sustentar suas posições. Eles são contra toda iniciativa ampla que surja fora do PSC, uma formação que poderia ter sido muito importante para unir o classismo se não a tivessem destruído ao aparelhá-la para controlá-la burocraticamente e contrapô-la a lutas importantes nas quais eles não são o centro.

Sobre a questão eleitoral, não vemos que hoje esteja em debate a continuidade da FIT-U. Esse é um falso debate. Em Bariloche, se houvesse PASO, seguramente, como já aconteceu várias vezes, depois das internas seria apresentada uma única lista. Inclusive, houve uma experiência semelhante à de Bariloche em Salta, em 2025, e isso não fez com que a FIT-U depois se rompesse, nem nada parecido.

Repetimos: o debate hoje não é eleitoral e vai além disso. Por via das dúvidas, também esclarecemos que não negamos a importância das disputas eleitorais, muito menos.

Entendemos que as diferenças que temos com vocês, assim como as que vimos discutindo com o PO e a IS, são importantes. Inclusive com o PTS temos diferenças, embora com eles estejamos dando alguns passos para esclarecê-las, enquanto avançamos no trabalho conjunto em diferentes iniciativas unitárias. Convidamos vocês a fazer parte delas, enquanto continuamos debatendo tudo o que for necessário.

Debatamos sobre os objetivos da unidade de que necessitamos e sobre como alcançá-la: se ela deve ser apenas eleitoral ou se é necessário avançar muito mais para organizar dezenas e centenas de milhares de pessoas e quais acordos estratégicos precisamos construir para nos transformar em uma opção de governo e de poder. Enquanto isso não estiver esclarecido, é utópico falar em comitês unitários, nem mesmo no plano eleitoral. Mas alguns passos muito importantes podem ser dados.

Fraternalmente, Secretariado do MST

1 – Carta à Mesa Nacional da FIT-U aqui. Essa carta é assinada por companheiros independentes juntamente com militantes de organizações que não fazem parte da FIT-U.

2 – O PO, acompanhado pela IS, tentou fazer com que fosse uma marcha convocada e controlada pela FIT-U, e não uma autoconvocação em unidade de ação com todos aqueles que querem derrotar os planos de Milei e que estejam de acordo com um documento com propostas de fundo, como foi proposto desde o início para realizar uma manifestação inclusiva e o maior possível.