Declaração Política da Marea Socialista e da Liga Internacional Socialista (LIS)
6/9/2026
Acaba de se tornar público um terrível acordo entre os EUA de Trump e o governo de Delcy Rodríguez e do PSUV, que significa uma entrega total dos recursos petrolíferos do povo venezuelano, equivocadamente denominado por alguns como um “acordo histórico”, quando, na realidade, trata-se de uma espécie de confisco em massa dos recursos venezuelanos. O acordo, ou melhor, o roubo direto contra o povo da Venezuela, supera amplamente outros acordos entreguistas e medidas antipopulares realizadas até o momento pelo governo venezuelano. Para a classe trabalhadora, os setores populares e a maioria do povo, parece não haver fim para a sequência de más notícias, nem para a aplicação de políticas abertamente nefastas para suas condições de vida e de trabalho. Por isso, é necessário situar esse novo e escandaloso salto na dependência do país dentro do que ocorreu durante todo o período anterior.
Durante mais de uma década, o regime liderado por Nicolás Maduro empreendeu um processo sistemático de cortes e liquidação de conquistas fundamentais da classe que sustenta a economia do país. Para saldar e encobrir as brechas da corrupção, do desfalque astronômico e de um endividamento ilegítimo e fraudulento, Maduro e sua cúpula liquidaram os salários, as indenizações trabalhistas, a negociação coletiva, as pensões e aposentadorias, conduzindo a educação e a saúde públicas à ruína.
Essa política de espoliação não poderia ser executada sem uma brutal violência de Estado. Ela veio acompanhada do encarceramento de dirigentes sindicais, ativistas políticos de todas as tendências e dissidentes, assim como da perseguição incansável à esquerda de oposição. O resultado foi milhares de trabalhadores e presos políticos amontoados nas prisões venezuelanas, sob flagrantes violações do devido processo legal e dos direitos humanos.
É indispensável refrescar a memória em um contexto no qual a dinâmica dos acontecimentos busca sufocar a consciência. Não podemos permitir que o injustificável seja justificado diante dos setores populares nacionais e internacionais: o quadro atual é de um entreguismo, submissão, perda de soberania e saque imperialista inéditos, acordado por todas as cúpulas com os EUA e Trump.
O sequestro de Maduro e o negócio colonial do «acordo histórico»
Após os bombardeios do último dia 3 de janeiro e o sequestro de Nicolás Maduro pelas forças repressoras globais e imperialistas estadunidenses (em um cenário agravado pelas trágicas consequências do terremoto de 24 de junho), assistimos ao anúncio do pretenso «acordo histórico» entre o governo tutelado da «presidenta encarregada» Delcy Rodríguez e a administração dos EUA.
O «negócio» anunciado pela Casa Branca, ratificado por Delcy Rodríguez e apoiado de forma submissa pela Direção Nacional do PSUV, entrega o controle de grande parte das reservas petrolíferas da Venezuela à potência norte-americana e às suas transnacionais privadas por até 100 anos. Estas passam a assumir o controle de mais de 21% das reservas e de aproximadamente 65 bilhões de barris. Além disso, não há um retorno real nem substancial de receitas para a nação (as quais são retidas e capturadas à força em contas do Tesouro estadunidense), estabelecendo-se, assim, uma relação de submissão estritamente colonial.
Devemos denunciá-lo categoricamente: o petróleo venezuelano está sendo saqueado e roubado pelos Estados Unidos. Esse roubo descarado de nossos recursos energéticos, somado ao peso esmagador de uma gigantesca e ilícita dívida externa, que se transforma em um novo fardo e desfalque para a nação, com uma reestruturação realizada pelo imperialismo e acatada pelo governo, chega a 240 bilhões. Com o despojo de nossas riquezas e a sangria do endividamento fraudulento, torna-se absolutamente impossível pagar a imensa dívida social acumulada com os trabalhadores e o povo.
Por essa razão, a dívida deve ser submetida a uma Auditoria Pública e Cidadã e desconhecida por ser falsa, ilegítima, corrupta e odiosa. A dívida que deve ser paga é a dívida social: salários, indenizações trabalhistas, pensões, serviços, saúde, educação, meio ambiente e a reconstrução após os terremotos. Temos que romper com esse esquema colonial, única forma de tornar possível garantir salários dignos que ao menos cubram o custo da cesta básica, assim como superar um quadro de condições de trabalho catastróficas que hoje só pode ser classificado como uma verdadeira escravidão moderna.
Delcy Rodríguez, Jorge Rodríguez e Diosdado Cabello aprofundam a violação sistemática de direitos da qual foram coautores e corresponsáveis junto com Maduro. Hoje, retratam de forma inaceitável sua total disposição para liquidar o próprio conceito de nação venezuelana em favor dos saqueadores imperialistas. E lideram um governo que perdeu toda independência e soberania. Atuam como representantes de uma espécie de protetorado norte-americano, dedicados a garantir os interesses imperialistas dentro da Venezuela.
Com sua atuação, não apenas entregam o controle de grande parte das riquezas petrolíferas do país aos EUA, mas também são funcionais para que esse imperialismo decadente utilize a Venezuela como ponta de lança para avançar sobre toda a região, fortalecendo seus planos militares e econômicos, tudo no marco de sua disputa interimperialista com a China. Repudiamos tudo isso e lutamos por um país e um continente onde nenhuma potência imperialista saqueie e domine, e sejamos os povos a decidir o que fazer com nossos bens comuns.
Cúpulas cúmplices e ofensiva patronal
Por sua vez, as demais cúpulas tradicionais acompanham e aplaudem esse despojo. María Corina Machado e o «maricorinismo», juntamente com setores que ensaiam questionar o anúncio, não rejeitam a entrega em si, mas reivindicam que sejam eles, e não Delcy Rodríguez, a administrar a entrega em nome do país. Todas as frações das cúpulas demonstraram ser profundamente entreguistas e servis aos interesses imperialistas de Donald Trump e Marco Rubio.
Paralelamente a esses planos das cúpulas, a patronal reunida na Fedecámaras aproveita a conjuntura para dar o golpe final: impulsionar a reforma da Lei Orgânica do Trabalho para conferir força de lei àquilo que, na prática, vem sendo aplicado há anos: a eliminação definitiva das indenizações trabalhistas e dos direitos dos trabalhadores.
A urgência de respostas anti-imperialistas e da mobilização popular
Apesar desse cenário adverso e do estado de desmobilização em que, de modo geral, se encontra a classe trabalhadora, o eixo anti-imperialista começou a articular vozes críticas de rejeição contundente ao saque e à violação da soberania. E é necessário estimular respostas e mobilizações comuns nesse sentido.
Da Marea Socialista e da LIS, valorizamos com profundo interesse as confluências e articulações contra a entrega do país. Vemos uma potencialidade real para estruturar uma resposta de luta que leve o debate nacional para onde as cúpulas e seus senhores imperialistas se sintam incomodados, impulsionando a mobilização e a maior unidade de ação organizada nas ruas, contra a ocupação ianque e na denúncia e enfrentamento de todas as medidas que liquidam a soberania do país.
Essa luta anti-imperialista não pode ser vista como uma tarefa exclusiva de alguns setores, nem do chavismo crítico, nem de setores políticos reduzidos. É um chamado urgente ao conjunto da classe trabalhadora e dos setores populares que sofremos os estragos desta crise. Hoje, a possibilidade de recuperar salários compatíveis com o custo de vida, trabalho digno, moradia, saúde e educação passa inevitavelmente pela libertação da ocupação e da ingerência imperialista sobre nosso território e nossos recursos. Não se trata de uma proclamação abstrata ou ideológica, mas de uma necessidade concreta.
Embora não tenhamos conseguido, de conjunto, dar uma resposta a tempo e com força quando o madurismo começou a desmantelar nossas conquistas históricas, nada está definitivamente perdido. A situação é complexa, mas nos últimos meses começaram a se desenvolver algumas reivindicações sociais; existem os mecanismos e a força social para revertê-la. Se soubermos coordenar amplamente entre todos os setores que genuinamente queremos uma Venezuela livre de negócios e interesses imperialistas e de um governo que é completamente servil aos seus interesses.
Por tudo isso, saudamos as iniciativas anti-imperialistas e unitárias que estão surgindo e que devem servir para impulsionar a mais ampla mobilização operária e popular. Sabendo também que essa luta anti-imperialista tem uma relação direta com a luta anticapitalista, porque não há como derrotar os planos que querem liquidar nossa soberania sem enfrentar todo o poder capitalista que está por trás deles. Temos que levar em conta a má experiência de projetos políticos e governos que ficaram no meio do caminho ou não quiseram avançar sobre o coração dos interesses capitalistas e, por não fazê-lo, fracassaram repetidamente.
Por uma nova ferramenta política da classe trabalhadora
Ao mesmo tempo, toda essa realidade reafirma a necessidade imperiosa de construir uma nova ferramenta política para o povo venezuelano, que não tenha qualquer relação com os interesses estadunidenses nem com nenhum setor político das velhas cúpulas ou daqueles que fizeram parte delas ou foram cúmplices delas. Por isso, convocamos a dar passos firmes em direção a uma articulação política e social de caráter anti-imperialista, anticapitalista e antiburocrático, organizada com um programa de fundo e de ruptura com os interesses ianques e das grandes corporações capitalistas, e orientada a reativar a histórica consciência anticolonialista e independentista do povo venezuelano.
Façamos algo novo e unitário a partir da classe trabalhadora, de forma independente de todo setor capitalista e patronal, com o objetivo de colaborar na construção de uma saída política para que, algum dia, os trabalhadores governemos a Venezuela. Esse é o grande desafio do momento, e, da Marea Socialista e da LIS, colocamo-nos à disposição dessa tarefa junto a cada ativista e organização que decida assumir essa luta. Enquanto seguimos construindo nossa organização revolucionária dentro da Venezuela, que se coloca à disposição de todas essas lutas sociais e políticas, e à qual convidamos a se somar.
Anulação do acordo petrolífero entre os EUA-Trump e Delcy Rodríguez-PSUV.
Não à recolonização da Venezuela.
Basta de um governo empregado dos EUA.
Luta nacional e nas ruas pela defesa da soberania.
O petróleo para o bem-estar dos trabalhadores, não para Trump e as transnacionais.
Por uma nova alternativa política anti-imperialista, anticapitalista e antiburocrática.








