Por uma campanha unitária da esquerda, eliminando cumplicidades e ambiguidades

Partido Comunista dos Trabalhadores

“Um caça italiano foi atingido na Arábia Saudita!”, grita a imprensa burguesa, com ares de escândalo. Mas o que as forças militares italianas estão fazendo no Reino da Arábia Saudita, ainda mais em um contexto de guerra? “Defendemos nossos interesses nacionais!”, brada o poderoso ministro Crosetto. Mas quais são exatamente os interesses italianos na Arábia Saudita e, de modo mais geral, na região do Oriente Médio? Esse é o ponto que os governos burgueses italianos — todos eles — pudicamente escondem sob um véu de retórica hipócrita.

Partamos de um dado objetivo. A presença militar italiana no Oriente Médio é massiva e se prolonga há décadas: a missão Unifil no Líbano, ampliada pelo governo Prodi em 2006; a missão EuNavfor-Operação Atalanta, ao largo da Somália, aprovada pelo governo Berlusconi em 2008; a missão militar no Líbano (Mibil), lançada em 2015 pelo governo Renzi; a Prima Parthica-Inherent Resolve no Iraque, aprovada em 2014 pelo governo Letta; a participação na missão da OTAN no Iraque e no Kuwait desde 2020, aprovada pelo governo Conte; a missão Emasoh-Agenor no Estreito de Ormuz desde 2020, aprovada pelo governo Conte; e a missão Aspides no Mar Vermelho, Golfo de Áden e Golfo Pérsico, lançada pelo governo Meloni com voto bipartidário no Parlamento, do PD e do M5S, em 2024.

Tudo isso se soma a presenças militares que remontam a várias décadas: como a participação na Multinational Force and Observers (MFO), no Sinai egípcio, que remonta a 1981, e a missão Combined Maritime Forces (CMF), em torno da Península Arábica, iniciada em 2002.

Os governos de todas as cores políticas renovaram e financiaram ao longo do tempo todas essas missões por ocasião de cada lei orçamentária. Todos os partidos burgueses, de todas as cores políticas, votaram a favor de sua renovação. Incluindo as chamadas esquerdas “radicais”, quando estiveram envolvidas em responsabilidades de governo, como ocorreu nos primeiro e segundo governos Prodi, com o Partido da Refundação Comunista (cinco anos no total), e no segundo governo Conte, com a Aliança Verdes e Esquerda.

A verdade é que todos os governos burgueses agiram, por sua própria natureza, como comitês de negócios do imperialismo italiano. Certamente, dentro do quadro de suas alianças internacionais (OTAN, UE). Mas também em função de seus próprios interesses nacionais específicos. Ainda mais hoje.

O Oriente Médio, juntamente com a África, é atualmente o principal teatro operacional do chamado Plano Mattei. Um plano determinado principalmente pelos grandes monopólios energéticos (ENI, ENEL) e pela indústria bélica italiana. O plano não se limita de forma alguma à proteção das rotas comerciais. Diz respeito também, e sobretudo, a investimentos diretos na extração de matérias-primas, a gigantescas operações imobiliárias (Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos) e à construção militar. A Fincantieri constrói a frota militar do Catar, a Leonardo atua em toda a região, a começar pelo Estado sionista, a ENI e a ENEL avançam no mesmo caminho aberto pela indústria bélica, e vice-versa. Não por acaso, a Arma dos Carabinieri se candidata a participar da “nova estrutura militar” prevista pelo Board of Peace para Gaza, ao mesmo tempo em que já atuou na Cisjordânia no treinamento da polícia pró-sionista da ANP. Enquanto isso, a Itália disputa com a França a divisão de sua antiga área colonial na África Subsaariana, hoje em declínio: incluindo o Níger (rico em urânio), onde as tropas italianas são atualmente a única presença militar ocidental remanescente após a retirada obrigatória dos franceses.

Poderíamos continuar por muito tempo…

Por que, então, hoje quinhentos militares italianos estão estacionados na Arábia Saudita, e seus aviões de guerra estão sediados na base saudita de King Fahd? Porque estão ali há nada menos que doze anos, no marco de uma presença militar multifacetada. Uma presença hoje reforçada pelo deslocamento de tropas do Kuwait por ocasião da guerra entre EUA e Irã.

“As monarquias do Golfo são nossas aliadas, os ataques do Irã e dos houthis são inadmissíveis e nós os condenamos com firmeza”, exclama Tajani. Uma confissão em toda regra. Isso significa que a Itália participa, de fato, com sua própria presença militar direta, da proteção de seu aliado saudita contra o Irã e contra os houthis. Estes são acusados de se defenderem legitimamente da guerra de agressão sionista estadunidense com todos os meios disponíveis: incluindo o bombardeio das bases militares americanas (e não apenas delas) instaladas em todas as monarquias do Golfo; incluindo o bloqueio de Ormuz por parte do Irã e o bloqueio do Estreito de Bab el-Mandeb pelos houthis. Somente o fim da agressão sionista estadunidense pode remover seus efeitos e restabelecer as rotas comerciais.

Nesse contexto, o anúncio do ministro Crosetto de um reforço da missão militar italiana no Mar Vermelho, seja ela autônoma ou integrada à Aspides, vai exatamente na direção oposta. Crosetto atua sob pressão direta dos armadores, ao preço de aumentar, de fato, o envolvimento italiano na guerra sionista estadunidense no Oriente Médio. Infelizmente, ele pode contar com o voto parlamentar de ampla unidade nacional (Fratelli d’Italia, Lega, Forza Italia, PD, M5S) a favor da missão naval Aspides, na primavera de 2024: um fato que demonstra apenas a subordinação de todos os partidos burgueses ao interesse superior do imperialismo italiano. É a confirmação da cumplicidade entre a direita e o “campo amplo” na política externa, para além de todas as suas contradições transversais.

É impressionante que aquelas esquerdas ucranófobas que se opõem a qualquer ajuda indireta italiana à defesa da Ucrânia contra o imperialismo russo — em quase cinco anos, 3 bilhões, ao todo 50 euros per capita — se calem ou balbuciem diante da direta presença militar italiana no Oriente Médio, infinitamente mais cara em seu conjunto e em sua duração, hoje, de fato, em apoio a uma agressão imperialista dos EUA. E que cheguem a votar regularmente pelo seu financiamento anual, de qualquer forma formando coalizões com aqueles que votam a favor (PD, M5S, Renzi).

A todas as esquerdas — políticas, sindicais, associativas e dos movimentos — propomos publicamente uma campanha unitária que diga: fora os militares italianos do Oriente Médio e de todas as missões no exterior! Revogação imediata da missão Aspides!