É uma vitória da mobilização que, ao mesmo tempo, condensa a crise habitacional. O despejo de uma idosa, a resposta massiva nas ruas e a ocupação da Puerta del Sol colocaram a crise habitacional no centro da cena. Maricarmen voltará para sua moradia com um novo contrato, mas o problema que originou seu despejo continua em aberto: milhares de famílias continuam ameaçadas por aluguéis inacessíveis, despejos e especulação imobiliária. A decomposição do governo e do regime é cada vez mais evidente e coloca a necessidade de construir uma nova alternativa política, revolucionária e socialista.
Por Rubén Tzanoff
Um despejo que condensou a crise existente
Em 23 de setembro, Maricarmen Abascal, de 87 anos, foi despejada da residência da rua Alcalde Sáinz de Baranda, no distrito madrilenho de Retiro, onde havia vivido durante 71 anos. Ela tinha reconhecida uma deficiência de 50% e mobilidade reduzida.
A residência havia passado para as mãos da Urbagestión, que adquiriu o imóvel em 2018. Maricarmen tinha um contrato de aluguel antigo e o conflito se prolongou durante anos por sua situação jurídica. Finalmente, após um longo processo judicial, o Tribunal Supremo permitiu executar o despejo. Posteriormente, a empresa propôs um aluguel que chegou a 1.650 euros mensais, uma quantia impossível de ser paga pela mulher.
O despejo foi executado em 23 de setembro, diante da resistência de ativistas do Sindicato de Inquilinas e Inquilinos e de uma operação policial. Maricarmen acabou sendo levada ao hospital.
Para além das particularidades jurídicas do caso, a cena condensou uma realidade vivida por milhares de pessoas: uma moradia que durante décadas foi um lar transformou-se em uma mercadoria para a obtenção de lucro capitalista, convertendo um direito em um negócio inescrupuloso e desumano.
Por essa realidade, amplamente vivida no Estado espanhol, o caso de Maricarmen rapidamente ultrapassou os limites de um conflito pontual.
A gota d’água
A resposta foi imediata. Na mesma tarde do despejo, houve manifestações em diferentes cidades e, no sábado, 26 de setembro, milhares de pessoas ocuparam as ruas de Madri sob a palavra de ordem “Nenhuma Maricarmen mais”. Foi uma mobilização massiva cuja repercussão ultrapassou Madri e chegou a todo o mundo.
A marcha deu lugar a uma ocupação na Puerta del Sol. Desde sábado, 26, o acampamento tornou-se um espaço de organização e protesto, onde se encontram coletivos e sindicatos de moradia, organizações estudantis, bombeiros contra os despejos e setores da esquerda revolucionária, entre outros.
A imagem de Sol voltou a trazer à memória o 15-M de 2011, quando a praça se transformou em símbolo de uma mobilização que transbordou os canais institucionais com os “Indignados”. Hoje, a moradia concentra um descontentamento muito mais amplo: salários que não são suficientes, aluguéis que absorvem uma parcela crescente da renda, jovens que não conseguem se emancipar e famílias sob a ameaça permanente de perder sua casa.
A mobilização também não se limitou a Madri. Houve protestos e acampamentos em diferentes cidades e, em 28 de setembro, ocorreram manifestações em Barcelona durante a visita de Pedro Sánchez, enquanto o Sindicat de Llogateres reivindicava contratos renováveis automaticamente, redução dos aluguéis e limites aos fundos de investimento. A crise habitacional voltou a ocupar a primeira página.
A mobilização venceu: Maricarmen voltará para casa
Na segunda-feira, 28, começou uma negociação entre a família e a Urbagestión, com mediação da Empresa Municipal de la Vivienda y Suelo de Madrid.
Maricarmen poderá voltar para sua residência quando receber alta médica. O novo contrato terá duração de oito anos e o aluguel não poderá superar 30% de sua renda líquida, cerca de 500 euros mensais. O acordo também contempla garantia pública, seguro contra inadimplência, seguro multirriscos e assessoria jurídica, econômica e fiscal.
É o triunfo de uma mobilização que conseguiu colocar o caso no centro do debate público e acelerar uma negociação que permanecia sem solução havia anos. Mas seria um erro parar por aqui: Maricarmen volta para casa, mas o problema que provocou seu despejo continua.
Não foi um raio em céu aberto
A mobilização não surgiu do nada. Durante anos, acumularam-se lutas contra os despejos, os aluguéis abusivos, a turistificação e a especulação imobiliária. A Plataforma de Afetados pela Hipoteca, os sindicatos de inquilinos, as organizações de bairro e numerosas plataformas locais e nacionais protagonizaram centenas de conflitos.
Em outubro de 2024, dezenas de milhares de pessoas se manifestaram em Madri para exigir a redução dos aluguéis. Em novembro do mesmo ano, Barcelona viveu outra mobilização de enorme dimensão, que chegou a colocar a possibilidade de uma greve de inquilinos.
Em 5 de abril de 2025, ocorreram mobilizações simultâneas em cerca de 40 cidades espanholas. Os sindicatos de inquilinos reivindicaram redução dos aluguéis, o fim dos despejos e medidas contra a especulação.
Em 2026, a pressão continuou. O protesto por Maricarmen somou-se a conflitos concretos nos bairros e cidades e à atividade de organizações que há anos enfrentam despejos e fundos de investimento.
Por isso, o caso de Maricarmen é um ponto de condensação da grave crise habitacional: uma história individual que expressa um problema coletivo acumulado durante anos.
Uma emergência inadiável
Os dados mostram a dimensão do problema. Em 2025, foram realizados 25.540 despejos relacionados ao aluguel na Espanha. Na Catalunha foram registrados 6.814 e em Madri, 2.267.
A pressão afeta aqueles que estão prestes a perder sua moradia e também aqueles que conseguem conservá-la sacrificando uma parcela cada vez maior de sua renda, que não acompanha o custo de vida.
Segundo o Eurostat, em 2025, 7,2% da população espanhola vivia em domicílios que destinavam pelo menos 40% de sua renda disponível aos custos de moradia. Entre os domicílios em risco de pobreza, o percentual chegava a 29,9%, e nas cidades espanholas alcançava 8,2%.
O Banco da Espanha estimou, para 2024, que os domicílios de inquilinos destinavam, em média, 26,7% de sua renda líquida ao aluguel; entre os menores de 35 anos, 27,4%. Em Madri, o peso médio chegava a 34,5% e, em Barcelona, a 31,3%.
A crise atinge especialmente a juventude. Em 2025, a Espanha esteve entre os países da UE onde se deixa o lar familiar mais tarde: a idade média foi de 30,2 anos. A isso se soma a superlotação: 26,9% dos jovens entre 15 e 29 anos da UE viviam em domicílios superlotados.
Em julho de 2026, o preço da moradia acumulou 36 meses consecutivos de aumentos. O preço médio chegou a 2.112 euros por metro quadrado.
Não estamos, portanto, diante de um problema local ou excepcional, mas de uma crise social que atravessa a Europa e assume características particularmente graves na Espanha.
Sánchez sempre com a mesma coisa: remendos e manobras eleitorais
A pressão social obrigou o Governo a aprovar, em 29 de setembro, dois decretos reais sobre habitação. Entre as medidas estão a proteção contra determinados despejos de pessoas vulneráveis até 2030, a prorrogação extraordinária dos contratos que terminarem até dezembro de 2028, a regulamentação dos aluguéis por temporada e por quartos e restrições à compra de moradias por fundos de investimento até 2028.
Um segundo decreto incorpora a renovação automática dos contratos, mas ficou separado do primeiro para facilitar sua tramitação parlamentar, cujo resultado estará atravessado pela polarização e pelo esgotamento existentes. O Governo também promoveu alguns planos habitacionais limitados.
São medidas que introduzem mecanismos de proteção ou ampliam outros já existentes. Mas são insuficientes para modificar estruturalmente a situação habitacional. A divisão do pacote evidencia as dificuldades do Executivo para reunir apoio parlamentar às medidas mais controversas e suas constantes manobras e remendos, que não colocam no centro a resolução dos problemas sociais de fundo, mas sim sua permanência em um poder cada vez mais abalado e seu posicionamento eleitoral.
O fundamental é saber quem possui, controla e regulamenta a moradia e para que ela é utilizada: ela deve ser considerada um direito social e não uma mercadoria fonte de rentabilidade.
PP e Vox: outras respostas vindas da direita
O PP responsabilizou o Governo do PSOE pela crise e defendeu que o problema seja resolvido fundamentalmente por meio do aumento da oferta, recorrendo assim ao mercado capitalista que gera a crise.
O Vox relaciona explicitamente a crise habitacional à imigração e propõe aquilo que denomina “prioridade nacional” no acesso à moradia pública e aos serviços sociais, juntamente com a liberalização do solo, redução de impostos e colaboração público-privada.
Essas respostas reacionárias da direita e da extrema direita são opostas às formuladas pelo movimento de moradia.
Quem paga pela crise?
O problema não consiste somente na necessidade de construir mais apartamentos. A moradia tornou-se um importante campo de acumulação de capital. Grandes proprietários, empresas imobiliárias, fundos abutre e outros atores financeiros participam de um mercado no qual o valor dos imóveis aumenta enquanto os salários ficam para trás em relação aos aluguéis.
Os fundos de investimento tornaram-se um dos principais alvos das mobilizações. O próprio Governo reconhece o problema ao incluir em seus novos decretos uma proibição temporária de determinadas compras de moradias por fundos de investimento.
A isso se somam o peso das hipotecas e do endividamento das famílias, o crescimento dos aluguéis turísticos e temporários, a gentrificação dos bairros populares e a insuficiência histórica de moradia social.
O resultado global é uma transferência permanente de renda de quem trabalha para quem possui as moradias.
Os grandes prejudicados: trabalhadores e jovens
Quem mais sofre com a crise são os trabalhadores cujos salários não permitem acessar uma moradia independente; os jovens que adiam durante anos sua emancipação; as famílias obrigadas a compartilhar moradia; as pessoas idosas ameaçadas de perder suas casas; e os domicílios que precisam escolher entre pagar o aluguel ou arcar com outras despesas básicas.
A moradia não é apenas um problema imobiliário, mas também salarial, trabalhista e social. Quando um trabalhador precisa destinar um terço ou mais de sua renda ao aluguel, qualquer aumento de preços, redução da jornada, doença ou perda do emprego pode transformar-se em um drama familiar.
Do conflito individual à coordenação das lutas
Enquanto a luta pela moradia ocupa Sol, desenvolvem-se conflitos trabalhistas e sociais em diferentes setores. A Airbus protagonizou duas greves em 2026 e a saúde, a educação e outros serviços públicos também protagonizam greves e mobilizações. O problema é que as lutas permanecem separadas.
O acampamento de Sol já expressa uma forma de coordenação entre coletivos de moradia, estudantes, trabalhadores e organizações políticas. Temos que apoiá-lo, defendê-lo de qualquer tentativa de despejo e fortalecê-lo para promover a auto-organização. Uma forma de fazê-lo é impulsionar mobilizações e muitas “Puertas del Sol” por todo o Estado.
A referência ao 15-M não é apenas simbólica. Trata-se de recuperar a ideia de que uma praça pode transformar-se em espaço de organização democrática e coordenação de diferentes conflitos sociais.
Enquanto setores dos movimentos de moradia reivindicam uma greve geral, UGT e CC. OO., as centrais majoritárias, olham para o outro lado.
Uma resposta de transição diante da crise
A partir da SOL, apoiamos a luta e propomos uma resposta que comece pelas reivindicações imediatas e avance em direção a transformações estruturais.
Garantir o retorno de Maricarmen e soluções habitacionais estáveis para aqueles que foram despejados; proibir os despejos; congelar e limitar os aluguéis de acordo com os salários dos trabalhadores; estabelecer aluguéis sociais e contratos estáveis; regulamentar e limitar os aluguéis turísticos, temporários e por quartos quando forem utilizados para contornar a regulamentação residencial; ampliar massivamente a moradia pública e social; expropriar as moradias de grandes proprietários e fundos de investimento destinadas à especulação para destiná-las ao aluguel social; impedir que a moradia pública volte a ser privatizada; e desenvolver um plano estatal de construção de moradia popular de acordo com as necessidades sociais.
É preciso garantir, além disso, que nenhum trabalhador tenha que destinar uma parcela insuportável de seu salário para pagar um teto e proteger as famílias endividadas contra execuções hipotecárias e abusos financeiros.
Não à austeridade para as guerras: moradia, saúde e educação
A discussão sobre os recursos públicos também não pode ser separada do modelo econômico geral. No compasso do bloco imperialista da UE, a Espanha aumentou seus gastos em “defesa”, como chamam o rearmamento: em 2025 foram gastos 10,471 bilhões de euros no Plano Industrial e Tecnológico para a Segurança e a Defesa, dentro do aumento do esforço militar.
Os fatos demonstram que o Governo mente quando sustenta que esses gastos são compatíveis com o fortalecimento dos serviços públicos. Os recursos públicos devem ser direcionados às necessidades sociais, entre elas um verdadeiro plano de moradia pública. Não à austeridade para as guerras imperialistas. Recursos para as necessidades da classe trabalhadora e do povo!
O capitalismo e a moradia como mercadoria
O caso de Maricarmen permite enxergar o problema a partir de um ponto de partida concreto. É uma vitória que a mobilização tenha revertido o despejo e demonstra que existe força para lutar! Também é preciso apontar para a resolução da situação enfrentada, ou que está à beira de ser enfrentada, por milhões de pessoas.
A luta pela moradia não pode ser separada da luta contra o conjunto do sistema que transforma as necessidades sociais em negócios. A experiência destes dias, ainda em curso, deixa uma conclusão: quando uma reivindicação consegue uma mobilização suficientemente ampla, pode mudar decisões que pareciam encerradas.
A saída de fundo passa por aprofundar a auto-organização, coordenar as lutas e construir uma alternativa política revolucionária que coloque as necessidades da maioria acima dos interesses do capital.
Nessa perspectiva, a moradia digna é parte de um programa mais amplo para virar tudo de cabeça para baixo e avançar rumo ao socialismo.








