No último 11 de dezembro, em um congresso nacional fracionado em dois blocos, concretizou-se a última divisão — de uma longa lista — do Novo Partido Anticapitalista francês. Depois de uma doença terminal que começou poucos anos após sua fundação, com essa última divisão termina de morrer o pouco que restava do projeto original, que em seu momento foi uma experiência acompanhada com interesse e expectativas pela esquerda mundial. Abre-se uma nova etapa para os revolucionários, cheia de desafios e oportunidades.
Por Alejandro Bodart, secretário-geral do MST argentino e membro do Comitê Executivo da Liga Internacional Socialista
A iniciativa de construir o NPA e sua direção estiveram primeiro nas mãos da Liga Comunista Revolucionária e, depois de sua dissolução, nas dos quadros provenientes dessa corrente, filiados ao Secretariado Unificado – IV Internacional, comumente identificada como mandelista por seguir as orientações de seu fundador, Ernest Mandel, já falecido.
Embora, como em toda crise, existam múltiplas causas concatenadas, isso não exime da responsabilidade central pelo desmoronamento à direção da ex-LCR, majoritária no NPA, e a orientação que impôs desde o início. Impõe-se então tirar algumas conclusões, e é a serviço disso que vai esta tentativa de aproximação a um balanço.
A LCR
Essa organização foi fundada formalmente no calor das jornadas revolucionárias de Maio de 68 e foi durante décadas uma das correntes identificadas com o trotskismo de maior peso na realidade francesa e a usina ideológica de sua organização internacional, o SU.
Desde antes da morte de seu fundador em 1995 e dos debates sobre o futuro da revolução que se abriram na esquerda mundial com o desaparecimento da União Soviética, começou a se incubar uma crise e um fracionamento em sua direção, que em certa medida tentou ser contido anos depois com a fundação do NPA, embora isso só tenha conseguido adiá-lo por pouco tempo.
Aproveitando o crescimento de sua jovem e carismática figura, o carteiro Olivier Besancenot, que nas eleições presidenciais de 2002 e 2007 obteve respectivamente 1.200.000 e 1.500.000 votos, a LCR lançou em 2008 o chamado para construir um novo partido amplo e aberto tanto a indivíduos quanto a organizações anticapitalistas. O chamado teve uma repercussão enorme. Depois de poucos meses de preparação, em 8 de fevereiro de 2009 nascia o NPA, em um congresso fundacional que contabilizou mais de 9 mil membros e uma extensão que cobria praticamente toda a França.
A alegria duraria pouco
Como todos os partidos amplos de esquerda que surgiram no final do século XX e início do XXI [1] e que em parte inspiraram os dirigentes da LCR, além de suas limitações programáticas, seu sucesso, desenvolvimento ou fracasso sempre esteve ligado ao seu desempenho eleitoral.
Poucos meses após sua fundação, nas eleições europeias de 2009, a sigla do NPA obteve um importante 4,68% dos votos. Mas as expectativas que haviam sido criadas na maioria de sua militância, sobretudo nos setores independentes e em grande parte das “personalidades” que haviam se somado, foram frustradas porque não se conseguiu eleger deputados. Ao mesmo tempo, havia ocorrido a ruptura pela esquerda de Jean-Luc Mélenchon com o Partido Socialista, que rapidamente se transformou em um competidor dinâmico pelo mesmo espaço eleitoral.
Um ano depois, Besancenot anunciou que não seria candidato na eleição presidencial de 2012, terminando de desmontar as ilusões eleitorais que ainda restavam nos setores mais “amplos” do novo partido. Abriu-se uma crise de tal magnitude que, em 2011, desencadearia a ruptura de uma parte significativa dos dirigentes, quadros e militantes provenientes da LCR e a diáspora, em poucos meses, de cerca de 6 mil militantes. A crise latente da velha direção mandelista terminava assim de explodir, levando junto o novo partido. Os dirigentes rupturistas pela direita somaram-se de armas e bagagens ao projeto de colaboração de classes de Mélenchon.
Assim, o que havia começado com grandes ilusões terminava, dois anos depois, em um fracasso evidente.
Oportunidade perdida
Além da responsabilidade da ala direita da ex-LCR na crise de 2011, a responsabilidade do restante da direção mandelista do NPA foi inegável.
Em primeiro lugar, nunca combateram seriamente seus antigos camaradas, aos quais entregaram uma cifra milionária das finanças partidárias quando romperam e com os quais ainda, anos depois, compartilham o mesmo projeto internacional. Se os tivessem enfrentado de maneira consequente, o dano teria sido qualitativamente menor. Não o fizeram porque nunca consideraram estratégicas as diferenças que os separavam.
Subestimaram Mélenchon e não tiveram uma política para desmascarar seu projeto reformista, com o qual anos depois estão tentando confluir.
Justificaram, em vez de rejeitar, a decisão de Besancenot de renunciar à candidatura presidencial em 2012, o que terminou de afundar o NPA e abriu o caminho para Mélenchon se transformar na principal referência da “nova esquerda”. Esse erro grosseiro evidenciou, por sua vez, o caráter frouxo das jovens gerações que estavam assumindo as rédeas da organização.
Apesar desse golpe demolidor, nem tudo estava perdido. Os cerca de 3 mil militantes que, em 2012, ainda aderiam ao NPA e haviam resistido à pressão reformista eram uma acumulação muito importante que poderia permitir, em um processo, começar a reverter a crise. Mas, para isso, era necessário aceitar o fracasso do projeto original e adotar uma política e uma orientação destinadas a construir um forte partido revolucionário de vanguarda, no qual pudessem conviver democraticamente as diferentes correntes que haviam se constituído em seu interior. Isso implicava desenvolver uma orientação ligada às lutas operárias — sempre presentes — e combater o reformismo a partir de uma posição de classe e revolucionária. Algo que a direção majoritária não estava disposta a fazer. Em consequência, a sangria de militantes continuou e a crise se tornou crônica. O fracionamento entre uma maioria centrista cristalizada e o restante das correntes internas que se posicionaram politicamente à sua esquerda, algumas sectárias, tornava-se cada vez mais pronunciado.
Uma estratégia revisionista
A direção da ex-LCR havia abandonado, há muitos anos, a estratégia de construir um partido revolucionário, substituindo-a pela construção de um partido amplo, centrado no eleitoral e em um programa ambíguo de reformas radicais onde convivessem reformistas e revolucionários. Essa é a razão que os levou a dissolver a Liga e apostar todas as suas energias na construção do NPA. Quando esse projeto colapsou e os poucos setores reformistas que haviam aderido evaporaram, ficou sem estratégia.
Enquanto a maioria entrava cada vez mais em crise, provocando a paralisia da organização, as pequenas correntes que haviam entrado no NPA com o objetivo de se fortalecer dedicaram-se à sua própria construção. Infelizmente, por diferenças de projeto, esses grupos não conseguiram acordar uma estratégia comum para disputar e conquistar a direção.
A corrente à qual pertenço nunca teve uma atitude sectária em relação aos agrupamentos anticapitalistas amplos que surgiram em diversos países e que se transformaram, em determinado momento, em referências para setores de massas. De fato, apoiamos com entusiasmo a fundação do NPA, acompanhamos com interesse as experiências do Syriza e do Podemos em seus primeiros anos e fomos cofundadores do PSOL. Mas nunca nos confundimos. Todas essas formações tiveram, para nós, uma importância tática e, mais cedo ou mais tarde, estavam condenadas a retroceder. A estratégia para nós continua sendo a construção de partidos revolucionários e, por isso, a participação nessas experiências sempre foi avaliada em função de se ajudava ou não esse objetivo.
A LCR e sua corrente internacional, impactadas negativamente pelas mudanças produzidas no mundo nos anos 90, caíram em um profundo ceticismo que as levou a elaborar um equivocado tripé teórico — nova época, novo programa, novo partido — que está por trás de todos os erros políticos e de orientação que cometeriam nos anos seguintes, não apenas na França com o NPA, mas em nível internacional em cada país onde sua corrente interveio.
Em um artigo que escrevi em 2018 sobre o balanço do Congresso Mundial do Secretariado Unificado da IV, e que convido a ler[2], detive-me em explicar o quão nefasta foi para essa corrente a orientação derivada dessa fórmula: como a época da revolução socialista teria se encerrado, o programa de transição já não faria sentido e tampouco a construção de partidos leninistas.
Fracassado o partido amplo que tentaram construir e opostos a se reorientarem para a construção de um partido revolucionário, iniciaram o caminho para somar os restos do NPA à centro-esquerda da LFI de Mélenchon. Como chocaram-se com uma feroz resistência do restante das correntes internas, era apenas questão de tempo até decidirem romper com todas elas para alcançar esse novo objetivo. Isso, e não outra coisa, é o que acaba de acontecer no recente congresso de dezembro.
Impõe-se um reagrupamento revolucionário
No congresso estiveram representados cerca de 1.500 militantes. A plataforma oficialista obteve 48,3% dos votos, a plataforma de esquerda, que acompanhamos, 45,6%, e uma terceira chapa centrista, 6%. No último dia, o oficialismo não compareceu. Após o congresso, o oficialismo[3] e a ala esquerda[4] elaboraram comunicados que publicamos em nosso site.
A dinâmica assumida pelo setor mandelista pode ser percebida nas recentes declarações de Philippe Poutou, seu principal porta-voz: “Já não reivindico mais o trotskismo. É marxismo, mas de uma época muito particular que corresponde à luta antistalinista. Hoje já não estamos mais nisso…” (Libération, 7/1/23)
Por sua vez, os camaradas da plataforma de esquerda, que decidiram seguir unificados, elegeram uma direção comum e vêm participando fortemente das lutas em desenvolvimento, acabaram de publicar o seguinte documento público:
“O último congresso do NPA, em dezembro de 2022, foi a ocasião para que a maioria da direção cessante organizasse a divisão do partido, sem submetê-la à votação de todos os congressistas, porque estava claro que essa votação lhes seria desfavorável. Assim, agora há dois NPAs no panorama político, de tamanho semelhante. Lamentamos essa fragmentação e enfraquecimento das forças revolucionárias, contra os quais seguimos lutando sem ter conseguido evitá-los.“
“A cisão do NPA fica assim marcada pela divisão política entre, por um lado, a orientação para alianças com a NUPES no terreno eleitoral, com Philippe Poutou e Olivier Besancenot; por outro, a orientação para um Polo das e dos revolucionários, com militantes presentes nas lutas do mundo do trabalho, e um NPA-Juventude que agrupa várias centenas de membros.“
“Em uma recente entrevista ao Libération, Philippe Poutou lançou a fórmula ‘nossa obsessão não é o NPA’, confirmando a opção que havia tornado pública na primeira noite do congresso no programa da BFM-TV, de ‘trabalhar com a FI’, estabelecendo como objetivo candidaturas conjuntas para as eleições. Nós, militantes do NPA que nos opusemos a essa orientação em direção à NUPES e nos agrupamos em torno da plataforma ‘Atualidade e urgência da revolução’, mantemos, pelo contrário, a obsessão por um NPA que mantenha o rumo da extrema esquerda, um NPA militante capaz de levar adiante uma política de unidade de ação, inclusive com outras organizações, sem abandonar a construção de um partido operário comunista que surgirá através do reagrupamento das e dos revolucionários em favor das grandes lutas sociais que nos aguardam.”
A principal e mais numerosa corrente desse NPA de esquerda é a L’Étincelle, com presença nos sindicatos do transporte, automobilístico, educação e saúde, além de dirigir a Juventude do NPA. Coincidimos com essa corrente na posição sobre a Ucrânia e na necessidade de um reagrupamento dos revolucionários em escala nacional e internacional. A outra é Anticapitalismo e Revolução (AetR), mais voltada à atividade sindical. Uma terceira corrente menor é Democracia Revolucionária (DR), além de militantes não alinhados.
Responder às lutas dos trabalhadores e reagrupar a esquerda revolucionária são as tarefas mais importantes que os revolucionários franceses têm pela frente. A esse processo iniciado pelos companheiros e companheiras da Plataforma de Esquerda do NPA deveriam somar-se, sem sectarismo nem autoproclamação, os camaradas da CCR, que rompeu com o NPA em junho de 2021 após lançar uma candidatura presidencial própria, o que deu pretexto à maioria mandelista para iniciar seu giro burocrático de expulsões e assim enfraquecer a ala esquerda para que ela não conquistasse uma maioria clara no partido.
Se esse processo avançar, estão dadas todas as condições para colocar de pé um grande partido revolucionário na França. A situação objetiva está madura para o surgimento de uma verdadeira e poderosa alternativa de extrema esquerda. Esta é uma nova oportunidade que não deve ser desperdiçada. Da parte da LIS, estamos comprometidos com essa perspectiva.
Notas:
- Em 1999 surgiu o Bloco de Esquerda em Portugal, em 2004 foram fundados o PSOL no Brasil e o Syriza na Grécia, e em 2007 constituiu-se o Die Linke na Alemanha. Alguns anos depois, em 2014, surgiria o Podemos na Espanha. Antes destes, havia ocorrido o nascimento da Refundação Comunista na Itália e da Aliança Vermelha e Verde na Dinamarca.
- https://lis-isl.org/2018/03/10/nuestra-opinion-sobre-el-congreso-mundial-de-la-cuarta-internacional-su/
- https://lis-isl.org/2022/12/11/npa-declaracion-del-sector-que-se-retiro-del-congreso/
- https://lis-isl.org/pt/2022/12/francia-declaracion-del-congreso-del-npa/





