A visita do diretor da CIA a Moscou volta a revelar uma dinâmica que se repete: enquanto os EUA e a Rússia combinam negociação, pressão e disputa. A Ucrânia sequer é convidada de pedra, ficando sob o risco de ser a última a saber, relegada enquanto os imperialismos negociam sobre seu território e seu futuro. Não confiamos na paz dos imperialismos. Defendemos uma paz justa, baseada na soberania e no direito da Ucrânia à autodeterminação.

Por Rubén Tzanoff e Oleg Vernyk

Um segredo aberto

Em novembro de 2021, o então diretor da CIA, William Burns, viajou a Moscou. Reuniu-se com Putin e outros responsáveis russos. A visita ocorreu diante das evidências de que a Rússia preparava uma ofensiva contra a Ucrânia. Foi apenas alguns meses antes da invasão em larga escala.

Na terça-feira, 25 de agosto de 2026, John Ratcliffe, atual chefe da espionagem estadunidense, viajou a Moscou. A viagem se transformou em um segredo aberto. Agora a situação é diferente. A guerra já dura mais de quatro anos e as negociações não conseguiram detê-la. Nesse contexto, o imperialismo norte-americano mantém abertos canais diretos com o imperialismo russo.

Para que foi? A viagem e as especulações

A viagem não foi anunciada previamente. As primeiras informações vieram de meios de comunicação estadunidenses. A ausência inicial de explicações oficiais alimentou diferentes especulações.

Para que Ratcliffe foi a Moscou? Para advertir o Kremlin contra uma eventual agressão a um país da OTAN? Para discutir uma possível retomada das negociações sobre a Ucrânia? Foram tratadas também as relações da Rússia com o Irã?

O Kremlin confirmou que houve “reuniões de trabalho” entre os chefes da espionagem dos dois países e que não houve reunião com Putin. Trump classificou a viagem como “semirrotineira” e minimizou as versões sobre uma missão específica.

As afirmações são vagas. E, partindo de quem as faz, mais do que confirmar, fazem pensar: “quando os lobos negociam, os cordeiros pagam”.

Não há elementos para afirmar que as reuniões tenham fechado um acordo secreto, mas tampouco se pode ignorar sua importância política.

Com certeza, nada de positivo para a Ucrânia

Há uma conclusão que não depende de conhecer os detalhes secretos da reunião: nenhuma negociação sobre o futuro da Ucrânia deveria ser realizada às costas do povo ucraniano. No entanto, essa vem sendo a tônica central dos imperialismos norte-americano e russo.

Ambos defendem seus próprios interesses estratégicos. Os EUA buscam recompor sua hegemonia mundial, enfraquecida, mas ainda sustentada. A Rússia busca ampliar sua influência, consolidar suas conquistas e romper o isolamento produzido pela invasão.

Que os EUA informem Zelensky sobre as reuniões realizadas em Moscou não significa que a Ucrânia participe das negociações nem que decida sobre elas.

Tudo é feito às costas do povo ucraniano. Um povo que luta por sua existência, seu território e seu direito de decidir livremente seu futuro.

Trump e Putin: aproximação e disputa

A relação entre Trump e Putin não é, até o momento, uma aliança estável. Tampouco é um confronto permanente.

Trump abriu canais diretos com Putin desde o início de seu segundo mandato. Em 2025, houve conversas telefônicas diretas, depois das quais delegações dos dois países se reuniram em Riad. Em agosto de 2025, Trump e Putin se reuniram no Alasca e também não selaram um acordo definitivo. Agora, em agosto de 2026, Moscou volta a ser palco de contatos de alto nível.

É uma relação contraditória, pragmática e mutável. Negociam enquanto disputam regiões de influência, principalmente no Leste Europeu.

Mas existe um denominador comum: as grandes decisões são discutidas com a Ucrânia relegada a um papel secundário.

Os imperialismos não negociam uma paz justa para os povos

Rejeitamos a invasão e a ocupação russas. Rejeitamos qualquer justificativa política para o imperialismo de Putin.

E denunciamos o papel expansionista e de dominação de Trump, dos EUA, da UE, da OTAN e de qualquer outra potência imperialista.

Não é uma saída favorável ao povo ucraniano trocar um imperialismo por outro. Os EUA e a Rússia podem se enfrentar por seus interesses, mas também podem negociar quando encontram pontos de acordo.

Quando negociam, cada um defende seus próprios interesses de potência. Em ambos os casos, colocam a Ucrânia como uma semicolônia.

Por isso, desconfiamos de qualquer «paz» construída sobre a divisão de territórios, as zonas de influência ou os interesses econômicos das grandes potências. Uma paz justa deve partir de outro princípio: o direito do povo ucraniano de decidir seu próprio destino.

Isso significa defender o fim da agressão russa. A retirada das tropas de ocupação. A recuperação dos territórios ocupados. E garantias para que a Ucrânia possa exercer seu direito à autodeterminação.

Junto ao povo ucraniano que resiste

Junto aos companheiros da Liga Socialista Ucraniana (LSU), a Liga Internacional Socialista (LIS) sustenta uma posição independente do governo de Zelensky, de todos os governos e de todos os blocos imperialistas.

Apoiamos a resistência do povo ucraniano diante da invasão russa. Defendemos seu direito de decidir livremente seu futuro.

Nossa solidariedade é ativa. É com os trabalhadores, os jovens e a população civil que sofrem uma guerra que não provocaram.

A LIS participa de ações concretas de solidariedade operária e internacionalista. Fazemos isso em unidade, para além das diferenças. Uma delas é o Comboio Internacional de Solidariedade com a Ucrânia. Uma iniciativa que busca levar ajuda humanitária e política ao povo que resiste e sobrevive em meio à guerra.