A jornada de sábado, 19 de setembro (19S), lotou a Praça de Maio e repercutiu nas principais localidades de todo o país. Ela sintetizou dezenas de lutas e muita indignação acumulada diante de reivindicações reprimidas, que precisavam se expressar e responderam a essa convocação unitária e diversa. Foi um duro golpe contra Milei e os cúmplices da quadrilha que nos governa. Um grande passo adiante para organizar nacionalmente toda a energia mobilizada, unir e fortalecer as lutas parciais e os espaços setoriais e avançar no plano nacional de luta de que precisamos. Também para mostrar uma saída alternativa pela esquerda para o povo trabalhador. Há uma grande oportunidade para avançar e aproveitá-la em toda a sua dimensão e, para isso, é imprescindível tirar todas as conclusões dessa jornada.

Por Guillermo Pacagnini

A Marcha da Indignação foi se tornando realidade à medida que o sábado, 19 de setembro, se aproximava. Para além dos limites do espaço de referência da esquerda e dos setores combativos, a iniciativa foi se estabelecendo nas conversas cotidianas nos bairros, nos locais de trabalho e de estudo. Milhares e milhares de pessoas foram se apropriando dessa iniciativa, e a indignação acumulada contra um governo que vem colhendo cada vez mais repúdio popular começou a transbordar.

Por isso, no sábado, a Praça de Maio, as diagonais e as ruas do centro político do país ficaram lotadas. Quando as colunas, com suas lideranças formadas por referências, personalidades e organizações, chegaram, a Praça já estava tomada por pessoas que marcharam a pé, com suas famílias, em grupos e individualmente, como acontece nos grandes acontecimentos políticos. Mas também marcaram presença, com suas bandeiras e representações, os principais setores em luta: trabalhadores, jovens, ambientalistas, moradores dos bairros e setores populares; a universidade e as organizações sociais; o Garrahan e uma numerosa coluna da saúde; a Fate; os aposentados; os movimentos de direitos humanos e da cultura; e dezenas de coletivos de diversos âmbitos que vêm reivindicando contra o ajuste, as arbitrariedades de Milei e seu plano de fome e entrega. Mais de 150 artistas somaram sua força para demolir a narrativa anticultural que os de cima querem colocar na moda. A Marcha da Indignação, de Cantilo, ecoou várias vezes, demonstrando a atualidade de sua mensagem. Não faltaram emoção nem força nas ruas. Um único grito contra o governo liberal-fascista. Por salários, trabalho, aposentadorias, programas sociais, saúde e educação. Por uma saída para os milhões de endividados e pelo fim da criminalização e da repressão. Contra o FMI, Trump e a agressão imperialista. Pela unidade das lutas, pela coordenação, contra a burocracia e para preparar e exigir a greve nacional. Um amplo arco unitário em torno de uma grande palavra de ordem capaz de convocar: derrotar Milei e o plano do FMI e de seus cúmplices por meio da greve geral. O documento unitário, lido em todas as praças do país, sintetizou esses eixos e fincou a bandeira do protesto e da proposta, em defesa de uma saída alternativa.

A marcha causou um grande estrago político. Em Milei e nos de cima. O governo e seus porta-vozes na mídia tentaram diminuir sua importância, mas fracassaram. Porque a realidade e as imagens da massividade contrataram. A marcha esteve presente em todas as notícias e tomou conta das redes sociais. Tanto a manifestação na Praça quanto as realizadas em todo o território nacional.

Havia 70 mil pessoas na Praça e milhares em todo o país. Mas o sucesso político foi além disso, porque a manifestação alcançou muitos outros setores. Foi acompanhada atentamente por muitas pessoas que não conseguiram marchar, mas acompanharam tudo pelas redes, receberam sua mensagem, guardaram-na na memória e talvez venham a se mobilizar ou a se organizar com aqueles que a convocaram.

Praça de Maio lotada pela Marcha da Indignação. (Pedro Pallero)

Uma marcha histórica

É importante destacar as principais conclusões da Marcha da Indignação, não apenas apontar sua massividade, que se sobressai em relação às manifestações de rua que vêm ocorrendo, mas também seu aspecto distintivo, qualitativo. São características que abrem um caminho e nos colocam diante da necessidade e da responsabilidade de dar continuidade à mobilização.

  • Lançamos a marcha a partir da esquerda, mas ela foi além da esquerda. Isso se deveu ao amplo arco unitário que a convocou, aos setores peronistas dissidentes que se aproximaram decepcionados com seus dirigentes e aos setores independentes que marcharam.
  • Foi histórica porque superou as reivindicações setoriais. Porque uniu diferentes lutas e indignações. A indignação daqueles que se mobilizaram pela universidade, pela saúde, pela infância, contra os cortes nos recursos destinados às pessoas com deficiência e aos aposentados. Foi um salto adiante porque conseguiu fazer com que as reivindicações convergissem e passassem a questionar diretamente o governo. Uma marcha político-social que colocou a necessidade de derrotar o monstro da Casa Rosada, seu plano e seus cúmplices.
  • Não se tratou apenas de uma necessidade objetiva de mobilização contra Milei. Houve uma construção que se desenvolveu ao longo de semanas; uma política e uma orientação para articular essas indignações. Para pressionar aqueles que sempre desmobilizam e conseguir que setores em disputa com o peronismo e com os sindicatos tradicionais se mobilizassem. E para reunir a maior unidade possível de toda a esquerda política e social. Uma iniciativa que colocamos de pé a partir do PTS e do MST para promover uma autoconvocação, da qual muitos outros se apropriaram e se tornaram sujeitos ativos dessa construção. Essa foi a chave do sucesso da convocação: ela conseguiu atingir setores de trabalhadores e jovens independentes.
Cele Fierro, Alejandro Bodart, Guillermo Pacagnini, Ingrid Urrutia e Norma Lezana.

As chaves de uma jornada bem-sucedida

Sem dúvida, a indignação acumulada contra o governo e a enorme necessidade de frear seus ataques foram um dos motores que transformaram essa marcha em um acontecimento de tamanha magnitude. A massividade dessa manifestação de rua foi uma demonstração incontestável de que o repúdio a Milei está crescendo. A polarização continua, o monstro se recolhe em Olivos e se refugia em sua base de apoio para tentar retomar a ofensiva, mas não consegue, apesar da colaboração de seus cúmplices. O polo opositor cresce. Cada vez mais pessoas repudiam suas medidas e exigem mudanças, e grande parte desse descontentamento social se expressou no dia 19.

Houve uma segunda chave que contribuiu para criar o ambiente favorável ao sucesso da marcha: o enorme vazio político e sindical deixado por um peronismo que já não desperta entusiasmo, que deslocou suas propostas para a direita e se mantém distante das ruas. Soma-se a isso o repúdio provocado por suas direções sindicais, como a CGT, que faz acordos pelas costas dos trabalhadores, ou aquelas que criticam, mas não apoiam essas lutas de maneira consequente, invisibilizam-nas, não lhes dão continuidade ou as deixam isoladas. Por isso, a ação de massas também questionou fortemente os dirigentes das centrais sindicais, e grande parte dos conflitos e das diversas reivindicações presentes nas ruas, impulsionados pela militância de base e pelas direções combativas, alimentou a jornada. A terceira razão que explica essa mobilização multitudinária também está relacionada à radicalização de uma parcela dos trabalhadores, jovens, mulheres… que giram para a esquerda. A referência de Myriam Bregman, o crescimento da simpatia pela esquerda e pela FIT Unidad, assim como por suas figuras, como Cele Fierro, Alejandro Bodart e outros, foram fundamentais e se transformaram em fatores objetivos da realidade para impulsionar e consolidar essa iniciativa, além de dar rosto e ampliar o alcance da jornada massiva.

O ato de Kicillof não conseguiu ofuscar a marcha

Quase simultaneamente, nossa jornada enfrentou uma concorrência que não conseguiu ofuscá-la. O movimento “Direito ao Futuro”, espaço impulsionado pelo governador da província de Buenos Aires, realizou um plenário nacional em Avellaneda e lançou a candidatura de Kicillof. O ato refletiu fielmente a crise do peronismo. Seu eixo político foi a disputa interna feroz e canibal do Partido Justicialista (PJ), e não um programa alternativo à motosserra de Milei. Seu plano não era convocar à unidade e à mobilização nas ruas, mas lançar suas ambições eleitorais, pedindo que todos esperassem até 2027. Apesar do dinheiro investido na mídia, não conseguiram encobrir a Marcha da Indignação, que foi um acontecimento político de destaque nas redes sociais e na imprensa naquele sábado. Mas, essencialmente, o mais importante é que não conseguiram impedir que setores de sua própria base participassem da mobilização ou a acompanhassem com interesse e simpatia. Também o setor que troca farpas com Kicillof, o de Máximo, tentou disputar a marcha, incentivando visitas à casa de Cristina, mas tampouco conseguiu enfraquecer nossa ação. O chamado à base para não confiar nesses setores, para derrotar Milei sem voltar ao passado, esteve presente com toda a força na mensagem e no documento da Marcha da Indignação.

Uma política correta e os debates na esquerda

Essas razões objetivas não são suficientes para explicar o sucesso da iniciativa. Isso também tem a ver com uma política impulsionada desde o início. A iniciativa foi uma vitória política que lançamos e impulsionamos decididamente a partir do nosso partido, em acordo com o PTS, conseguindo articular mais de 350 organizações e referências. Ela foi estruturada em torno de cinco eixos fundamentais, que provocaram debates, mas se mostraram corretos para que a iniciativa fosse bem-sucedida.

1. Definir o eixo político da mobilização: convocar à luta para derrotar Milei, todo o seu plano e seus cúmplices, construindo e exigindo um plano de luta que avance em direção à Greve Geral, com um documento que apresentasse essa estratégia, esse método e uma saída alternativa.

2. Convocar o mais amplo arco unitário possível que concordasse com esse eixo político. Unidade na diversidade, pluralidade de identidades. Questionando, cobrando e/ou pressionando as direções sindicais e os movimentos sociais a se mobilizarem, para reunir o maior número possível de setores.

3. Realizar uma mobilização de caráter político e social. Não limitada aos setores sindicais ou apenas à esquerda, mas convocando todos os setores e coletivos que se opõem e enfrentam o governo e seus cúmplices. Não restringimos a convocação ao Frente de Izquierda Unidad ou a determinado espaço social ou sindical.

4. Articular todos os espaços setoriais de coordenação para colocar essa jornada em movimento, unir diferentes reivindicações, convocar o conjunto dos setores e ampliar qualitativamente o polo convocante. Por isso, convocamos as coordenações existentes e aquelas em formação, espaços como o EMVJ, a coordenação das organizações de aposentados, o PSC, a BFS etc. Também defendemos dar continuidade à iniciativa por meio de uma coordenação nacional que promova os debates e as ações necessários daqui para a frente.

5. Convocar uma jornada nacional. Para isso, era necessário reproduzir os espaços de coordenação em todo o país.

Com esses objetivos, convocamos primeiro uma reunião na Faculdade de Ciências Sociais para lançar a iniciativa. Depois, realizamos uma reunião nacional para reproduzi-la em todo o país, tanto nos espaços de coordenação regionais quanto nas ações que vieram a ser realizadas. Por fim, encerramos essa etapa com um grande plenário no Parque Lezama para enfrentar com a maior força possível a reta final até o 19S. Estabelecemos, assim, as bases para manter uma coordenação permanente e organizamos comissões unitárias, participativas e abertas para construir por consenso o documento político lido na Praça por personalidades independentes, além de definir o formato de uma marcha pautada pela unidade na diversidade.

Essa política não teve como adversários apenas o peronismo e as direções sindicais burocráticas. Também abriu um debate e evidenciou orientações diferentes dentro da esquerda.

Houve alguns grupos minoritários que, refletindo uma marginalidade extrema, optaram simplesmente por dar as costas à realidade e permanecer fechados em seu próprio mundo. É o caso do Nuevo MAS, que ignorou completamente a manifestação massiva do 19S e se refugiou em uma atividade do próprio partido. Assim como, em outras ocasiões, compareceram oportunisticamente a atos do PJ, desta vez mostraram sua face mais sectária e desapareceram por completo. Outro caso é o da Política Obrera, grupo de Altamira, que tentou desqualificar a marcha distorcendo a realidade e afirmando que ela havia ocupado apenas “metade da praça”. O mesmo argumento utilizado por alguns jornalistas reacionários.

Mas também houve debate dentro do FIT Unidad com o PO e o IS, cuja política foi uma verdadeira corrida de obstáculos que tivemos de superar para realizar a marcha potente e unitária que se concretizou no 19S. Primeiro, recusaram-se a participar desde o momento em que a iniciativa foi concebida. Depois, tentaram limitar seu caráter e sua amplitude, assumindo uma posição sectária. E, embora tenham acabado aderindo, nunca a impulsionaram decididamente. Esse debate é importante para tirarmos conclusões e refletirmos sobre a continuidade que está colocada.

  • Ambas as forças tiveram uma visão estreita e uma política muito conservadora. Fizeram uma leitura limitada e cética do momento político que estamos atravessando, minimizando a oportunidade aberta, o espaço político e social e a necessidade de adotar uma orientação ousada para projetar a esquerda e o FIT Unidad, articulando um amplo arco capaz de disputar espaço e concretizar uma mobilização massiva como a que estava colocada e que a realidade confirmou. Uma análise e uma política muito diferentes daquelas que estruturamos junto aos companheiros do PTS, atuando em unidade e assumindo a vanguarda na articulação de uma ampla coordenação.
  • Inicialmente, o PO foi contrário à convocação feita na Faculdade de Ciências Sociais para organizar a mobilização. Tentou organizar uma reunião alternativa a partir do setor dos aposentados, mas fracassou, pois as organizações daquele espaço aderiram à convocação unitária. Por isso, compareceu à reunião apenas para apresentar sua posição, com uma pequena delegação.
  • Diante da força que a convocação foi adquirindo, tanto o PO quanto o IS, que o acompanhou em todos os momentos, acabaram se adaptando e aderindo, mas tentaram limitar a convocação.
  • Os dois partidos lutaram para que a convocação ficasse restrita ao Frente de Izquierda e para que, a partir dele, os demais atores que estavam aderindo fossem subordinados. Uma política de caráter eleitoralista que entrou em choque com a vontade da ampla maioria dos convocantes que convergiram, diante da necessidade de construir um polo de articulação e mobilização muito mais amplo, unitário e de caráter político-social.
  • Por fim, o PO e o IS insistiram para que a coluna marchasse atrás de suas organizações sindicais e da bandeira do Plenário do Sindicalismo Combativo. Essa posição aparatista foi rejeitada pela maioria absoluta, pois ignorava o critério de unidade na diversidade de todos os setores e coletivos, muitos dos quais não pertencem a esses espaços, mas participaram ativamente da organização e da construção da marcha.

Como seguimos

Agora temos três desafios muito importantes pela frente. Por um lado, consolidar e continuar desenvolvendo os espaços de coordenação construídos para a marcha. Em cada província, em cada região, em cada frente de luta e em cada espaço de debate. E consolidar uma grande coordenação nacional para continuar organizando a indignação, preparando uma nova e grande convocação para debater e chegar a um consenso sobre as ações.

Em segundo lugar, fortalecidos pela experiência, devemos canalizar essa energia e essa força coordenada para apoiar com mais intensidade as lutas em curso e potencializar as próximas ações. O Encontro Plurinacional de Córdoba, a próxima Marcha Universitária de 15 de outubro, uma forte campanha contra a criminalização do protesto e a preparação de uma grande mobilização para cercar o Congresso quando tentarem discutir o Orçamento Nacional de ajuste e entrega. Com o espírito da Marcha da Indignação, com mais unidade na diversidade, para avançar na derrota de Milei.

E, de imediato, realizar uma nova convocação para rejeitar a recente decisão reacionária da Suprema Corte, que revogou a sentença que limitava a estrangeirização das terras. É preciso organizar uma grande mobilização para exigir a destituição de toda essa Corte de capachos de Milei. Uma Corte que lhe entrega, por meio de decisões tomadas em seus gabinetes, aquilo que o governo perdeu nas ruas com a mobilização massiva de 6 de agosto e que ignora as reivindicações dos ex-combatentes das Malvinas.

Em terceiro lugar, precisamos dar continuidade a um debate necessário. Embora a coordenação das lutas represente um enorme passo adiante, também precisamos avançar na organização política de toda essa indignação, fortalecendo e desenvolvendo uma nova alternativa de esquerda, com um programa de fundo, como aquele expresso no documento unitário e no documento do FIT Unidad, que apresente uma saída alternativa, operária e socialista para o povo trabalhador.

Nosso compromisso é aprofundar esse caminho, aquele que possibilitou o sucesso do 19S: apostar todas as nossas forças na luta e na unidade, à altura das necessidades e com a responsabilidade que cabe à esquerda revolucionária. Convidamos você a se somar a nós para continuarmos organizando juntos toda essa indignação e a fazer parte ativa dessa mobilização histórica para virar a página da história.