Por Sangeen Bacha e Imran Kamyana

A declaração do estado de emergência e a imposição do regime de governo direto do governador em Khyber Pakhtunkhwa, em 11 de outubro de 2026, não apenas prolongam a crise política, social e econômica que já afeta a província, como também representam sua manifestação explosiva em nível nacional.

Durante vários dias, o Pakistan Tehreek-e-Insaf (PTI) vinha anunciando uma marcha longa. No entanto, a data não parava de mudar, de vez em quando surgiam notícias sobre negociações e os dirigentes do partido emitiam declarações contraditórias. A direção do PTI permaneceu indecisa quanto à data da marcha e à sua futura linha de ação. Um fator importante por trás dessa hesitação foram as divisões internas, as divergências e a fragmentação do partido, que se intensificaram continuamente depois que, nos últimos anos, deixou de manter boas relações com o Estado e atraiu sua ira.

Por outro lado, o Governo federal e as instituições estatais temiam que o protesto pudesse degenerar em um confronto grave e em derramamento de sangue. Isso também ficava evidente na linguagem corporal e nas declarações dos líderes da facção que atualmente encabeça o protesto. Após vários dias, ou talvez até semanas, de negociações nos bastidores e esforços de mediação que uma parcela significativa da direção do PTI também esperava que ajudassem a evitar o confronto direto ou medidas extremas, que não resolveram o assunto, o Governo federal finalmente decidiu impor o estado de emergência e destituiu o Governo provincial liderado pelo PTI.

O governo federal justificou oficialmente a medida alegando a suposta falta de ação do Governo provincial no combate ao terrorismo, enquanto o PTI a classificou como um ataque ao seu mandato eleitoral.

No entanto, considerar esse episódio, em sua totalidade, como um mero confronto entre o PTI e o Governo federal significaria reduzir uma realidade muito mais ampla a um contexto político limitado. As questões fundamentais são: quais interesses de classe estão em jogo nessa luta? Quais são as forças subjacentes que a impulsionam? E, acima de tudo, qual é o papel dos trabalhadores de Khyber Pakhtunkhwa nesse confronto? Quem tem em sua agenda o emprego, a educação, a saúde e a segurança deles?

O trágico, porém, é que o PTI não é o único a apresentar a situação atual como uma luta pelos direitos democráticos e pelo respeito ao mandato popular diante da repressão estatal. Muitos setores dos chamados progressistas e nacionalistas também estão tentando enquadrá-la nesses mesmos termos, seja por fraqueza ideológica, oportunismo ou, simplesmente, por sua hostilidade ao Estado.

O fato é que, assim como praticamente todos os partidos políticos estabelecidos ou dominantes do país — com a possível exceção do Partido Popular do Paquistão (PPP), ao menos em seus primeiros anos —, o PTI não é um partido democrático em seu funcionamento interno, nem um partido que tenha surgido e se desenvolvido por meios democráticos. Tampouco sua chamada “luta” tem qualquer relação com a democracia ou com os direitos democráticos. Como praticamente todas as principais direções e correntes políticas da política dominante, o PTI é um produto do Estado paquistanês. É um partido cujas bases foram forjadas na hostilidade à democracia, no autoritarismo e em ideias fascistas. O investimento maciço do Estado no partido, seu clientelismo e a repressão aos partidos políticos rivais desempenharam um papel decisivo no auge do PTI.

O fato de esse projeto, assim como muitos outros projetos políticos patrocinados pelo Estado, ter acabado se voltando contra ele é outra questão completamente diferente. Uma vez privado do apoio estatal, o PTI buscou refúgio na desgastada retórica da democracia, seguindo um padrão já estabelecido anteriormente pelo PML-N e pelo PPP.

Durante seus 13 anos no poder em Khyber Pakhtunkhwa e seus quase quatro anos no Governo federal, o PTI não poupou esforços para reprimir os movimentos populares e restringir os direitos democráticos de amplos setores da população. Entre eles estavam o Movimento pelos Direitos do Povo da Caxemira, o Movimento Pashtun Tahafuz (PTM), em Pakhtunkhwa, e os protestos de trabalhadores, de grande e pequena escala, em todo o país.

Nesse contexto, descrever a situação atual como um golpe de Estado contra a democracia ou apresentá-la como uma luta entre democracia e ditadura equivale a um crime político.

A ascensão do PTI a partir de 2011 ocorreu em uma sociedade já assolada pela pobreza generalizada, pelo desemprego, pela corrupção e pela desigualdade social, além de um ressentimento e uma desilusão crescentes em relação aos partidos políticos tradicionais. Ademais, décadas de políticas neoliberais haviam dado origem a uma classe média urbana relativamente numerosa. Nessas condições específicas, sobretudo após o retumbante fracasso do governo do PPP que chegou ao poder em 2008, o vazio político criado ofereceu ao PTI amplas oportunidades para crescer.

Essa ascensão, contudo, não foi simplesmente resultado do apoio popular. O respaldo da facção dominante da classe dirigente do Estado (basicamente, o Exército) naquele momento desempenhou um papel fundamental na construção da imagem de Imran Khan como um messias, processo que envolveu o uso amplo e indiscriminado dos meios de comunicação corporativos. Esse apoio foi fundamental para que seu partido avançasse na arena política, conquistasse espaço às custas de seus rivais e, por fim, chegasse ao poder por meio do que, na época, foi a pior fraude eleitoral da história do país.

Isso, porém, não era exatamente um fenômeno novo na política paquistanesa. O Estado já havia promovido anteriormente diversas forças políticas para servir aos seus interesses. Na verdade, essa prática profundamente enraizada — e, por vezes, descarada — de engenharia política tornou-se uma característica habitual da chamada democracia do país.

Também no caso do PTI, a estagnação ou o retrocesso do movimento operário criou as condições para o surgimento de um partido capaz de entrelaçar, de maneira atraente, tendências fundamentalistas religiosas, chauvinismo paquistanês, palavras de ordem anticorrupção, acusações exageradas e promessas de desenvolvimento em uma narrativa política adaptada às aspirações da classe média emergente.

Às vezes, Imran Khan usava o estilo de vida ocidental como exemplo; em outras ocasiões, apelava aos sentimentos religiosos; em outras, invocava o Estado de Medina para projetar a visão de um Estado de bem-estar social; e, em outras ainda, apresentava a China como modelo. Por vezes, combinava todos esses temas em um único discurso. Essa narrativa política contraditória atraía não apenas setores da classe trabalhadora para além da classe média, mas também elementos lumpen, novos-ricos da classe média alta e setores da burguesia.

Como era de se esperar, porém, a política do PTI nunca chegou a desenvolver um programa coerente e “comum” capaz de enfrentar os problemas econômicos profundamente enraizados do país, a má gestão e a corrupção. O apoio político, alimentado pela crise nacional, pelas privações da população e pela ausência de uma alternativa confiável, foi se concentrando cada vez mais em torno de uma única figura. Uma vez que o PTI chegou ao poder, o fracasso de suas afirmações, promessas e palavras de ordem tornou-se inevitável.

Nessas circunstâncias, as contradições e tensões na relação de Imran Khan com o Estado se intensificaram continuamente, à medida que ele se deixava cada vez mais consumir pela ilusão de sua própria popularidade eterna e invencível e de sua própria infalibilidade. Em determinado momento, essa figura política apoiada pelo Estado entrou em confronto com seus antigos patrocinadores, pois buscava não apenas consolidar seu controle sobre o poder, mas também, junto com seu círculo mais próximo, dominar o próprio Estado que o havia acolhido e estabelecer sua própria ditadura pessoal sem limites.

Não se tratava de uma luta pelo bem-estar popular, pelo desenvolvimento ou pela libertação e emancipação da classe trabalhadora. Pelo contrário, durante o mandato do PTI no Governo federal, as condições de vida da população comum se deterioraram ainda mais devido aos efeitos das reformas estruturais do FMI, da inflação, do desemprego, das privatizações e da repressão estatal.

Esse conflito interno entre diferentes facções do Estado girava em torno de questões de poder, controle sobre o aparato estatal e domínio político. Com o passar do tempo, o próprio Imran Khan passou a exercer um controle cada vez maior sobre a agenda política do partido, independentemente de seu conteúdo, de suas estruturas organizativas e de seus processos internos de tomada de decisão. A margem de manobra dos militantes e apoiadores do PTI para questionar as decisões da direção foi sendo progressivamente reduzida.

Enquanto isso, tanto dentro quanto fora do PTI, o debate político foi se limitando cada vez mais a apoiar ou se opor a Imran Khan, em vez de abordar os problemas fundamentais enfrentados pela população. Assim, as queixas populares e as contradições sociais que haviam aberto caminho para a ascensão do PTI permaneceram sem solução durante sua gestão política e, em vez disso, tornaram-se mais complexas, arraigadas e agudas.

O PTI voltou ao poder em Khyber Pakhtunkhwa para seu terceiro mandato consecutivo após as eleições de 2013, 2018 e 2024. Apesar desse longo período no poder, porém, a situação na província não parou de se deteriorar. Tendo chegado ao poder com a promessa de erradicar a corrupção, o partido tornou-se responsável por níveis de má gestão, pilhagem e corrupção em Pakhtunkhwa difíceis de igualar na história do país. Nos últimos tempos, o Governo provincial liderado pelo PTI tem se mostrado cada vez mais explícito ao demonstrar que a segurança pública, o bem-estar e a prosperidade da população não são suas prioridades. Seu objetivo primordial, ao contrário, é a adoração a Imran Khan.

Segundo dados do Instituto Paquistanês de Estudos para a Paz (PIPS), o número de atentados terroristas graves na província chegou a 111 em 2021, subindo para 169 em 2022, 174 em 2023, 295 em 2024 e 413 em 2025. Isso representa um aumento de aproximadamente 272% entre 2021 e 2025.

Ao analisar essa situação, não se pode ignorar a política do PTI de negociação e reconciliação com o Talibã. Embora nem o Estado paquistanês nem o Governo federal possam, de forma alguma, se eximir da responsabilidade por essas circunstâncias, é igualmente impossível negar que o PTI foi o partido político do establishment paquistanês mais compreensivo em relação ao Talibã e mais conciliador com ele. Em 1º de outubro de 2021, Imran Khan confirmou que seu governo estava mantendo conversas com determinadas facções do grupo proscrito Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP) e considerando a possibilidade de repatriar e reassentar aqueles dispostos a depor as armas. As negociações avançaram ainda mais em junho e julho de 2022. Mesmo antes disso, Khan já havia defendido abertamente que fosse permitido ao Talibã abrir escritórios no Paquistão.

Em agosto e setembro daquele ano, notícias sobre o reaparecimento de homens armados em Swat e em outras regiões, bem como sobre seu possível retorno, provocaram grande alarme nas comunidades locais. A população de Swat, que já havia pagado um preço alto pela ocupação talibã, pelo terrorismo e pelas operações militares, deixou claro, por meio de protestos, que não aceitaria que grupos armados voltassem a dominar suas regiões. Expressões semelhantes de resistência popular também surgiram em outras partes da província.

Após a Revolução de Saur, em 1978, no Afeganistão, a ditadura de Zia-ul-Haq, sob o patrocínio dos Estados Unidos, fomentou e cultivou militantes religiosos fanáticos. Nas décadas seguintes, as instituições estatais continuaram adotando políticas de colaboração e concessões com diversos grupos armados, de acordo com seus interesses estratégicos. Essa trajetória histórica lançou as bases para a disseminação do extremismo por toda a região, cujas consequências devastadoras ainda são sentidas atualmente. De fato, a situação se deteriorou consideravelmente desde que o Talibã voltou ao poder no Afeganistão.

Enquanto isso, décadas de políticas estatais fomentaram uma economia e um sistema político baseados no dinheiro ilícito, profundamente entrelaçados com grupos armados fundamentalistas. O PTI, por sua vez, é produto dessa mesma ordem política.

A situação da educação e da saúde em Khyber Pakhtunkhwa também é fundamental para avaliar o longo período de governo do PTI na província. Segundo o relatório do Instituto de Educação do Paquistão, Estatísticas da Educação do Paquistão 2023–24, aproximadamente 4,5 milhões de crianças entre cinco e dezesseis anos estão fora da escola na província.

De acordo com a Pesquisa sobre a Força de Trabalho 2024–25, do Escritório de Estatísticas do Paquistão, a taxa de desemprego na província continuou aumentando e é a mais alta entre as quatro províncias do país. O relatório do Auditor-Geral do Paquistão intitulado Auditoria de Desempenho das Iniciativas de Saúde em Khyber Pakhtunkhwa (2017–18 a 2021–22) revela que, dos 2,071 bilhões de rúpias destinados à melhoria dos hospitais das sedes distritais, aproximadamente 1,603 bilhão de rúpias permaneceu sem ser gasto.

Da mesma forma, escândalos de corrupção envolvendo bilhões de rúpias e irregularidades financeiras tornaram-se frequentes na província e recorrentes na cobertura jornalística. Na corrida para privatizar hospitais e escolas, o Governo de Pakhtunkhwa, liderado pelo PTI, também tentou repetidamente superar outros governos provinciais. Enquanto isso, os protestos de trabalhadores contra essas políticas antipopulares foram reprimidos com extrema brutalidade.

Segundo a Estratégia Orçamentária 2026–27 do Governo de Khyber Pakhtunkhwa, há 4.468 pessoas para cada médico na província, em comparação com a média nacional de 723 pessoas por médico. As instalações hospitalares são totalmente insuficientes, e até mesmo os serviços médicos de emergência carecem de recursos para lidar com situações críticas.

Ao mesmo tempo, aumentou a dependência de hospitais privados para a realização de tratamentos por meio do programa do Cartão Sehat. As irregularidades nas despesas e nos pagamentos do Cartão Sehat também continuaram sendo motivo de controvérsia. Mas a questão fundamental é: por que uma parcela tão grande dos recursos públicos é destinada a pagar hospitais privados pelos tratamentos, em vez de investir nos hospitais públicos — em seus prédios, equipamentos modernos, respiradores, medicamentos e profissionais de saúde?

Quando os hospitais públicos não dispõem de instalações sanitárias adequadas e os pacientes são obrigados a recorrer a instituições privadas, o setor privado sai beneficiado. A carga econômica, juntamente com o sofrimento causado pelo acesso insuficiente aos serviços de saúde, recai, em última instância, sobre a população.

A corrupção e a utilização dos fundos de desenvolvimento em Khyber Pakhtunkhwa também são motivos de grande preocupação. Segundo uma reportagem publicada pelo The News em 18 de setembro de 2026, o Auditor-Geral do Paquistão identificou irregularidades e ressalvas de auditoria no valor total de 551 bilhões de rúpias nas contas do governo provincial referentes ao exercício financeiro de 2023–24. Entre elas estavam despesas não autorizadas, pagamentos excessivos e problemas relacionados ao uso indevido e à má gestão dos recursos.

Devido à corrupção e à baixa qualidade da construção, numerosos projetos de desenvolvimento, estradas e edifícios públicos em Khyber Pakhtunkhwa começam a se deteriorar ou desmoronar pouco depois de concluídos. Apesar de todos esses problemas, o Governo do PTI não conseguiu incluir as preocupações da população comum em sua agenda política.

As reivindicações apresentadas para a recente “marcha longa” também não tinham qualquer relação com os problemas enfrentados pela população. Por isso, o protesto não conseguiu atrair apoio popular significativo nem despertar entusiasmo entre os habitantes de Pakhtunkhwa. Por outro lado, no momento em que este artigo foi escrito, a mobilização em apoio ao PTI nas demais províncias também era praticamente inexistente.

Os próprios líderes do PTI afirmaram repetidamente que receberam votos para garantir a libertação de Imran Khan, e não para resolver os problemas enfrentados pela população!

Ao longo de todo esse confronto com o Estado e o Governo federal, os problemas enfrentados pela população comum não apenas ficaram à margem da agenda, como ambas as partes também exploraram deliberadamente a agitação e o confronto para relegar a segundo plano as preocupações populares e os problemas reais da sociedade. Além disso, não se pode ignorar o possível papel das divisões e rivalidades entre facções dentro do próprio Estado na configuração da situação atual — e no estímulo à postura linha-dura adotada por uma facção do PTI sob a liderança de Sohail Afridi.

É evidente que nada disso pretende apoiar a imposição do estado de exceção nem isentar o Estado de sua responsabilidade. O objetivo, antes, é desmascarar o PTI, que agora se apresenta como vítima e esconde suas ambições reacionárias por trás de sua cínica invocação da “democracia”, revelando-o como mais uma manifestação da política corrupta patrocinada pelo Estado e da ordem econômica neoliberal na qual está profundamente enraizado. Suas ambições autoritárias se estendem até o terreno do fascismo.

Em última análise, porém, assim como muitos projetos políticos anteriores, o próprio PTI é fruto da engenharia política conduzida pelo mesmo Estado com o qual agora está em conflito. Entretanto, na operação em grande escala destinada a acabar com o partido ou reduzir sua influência, são mais uma vez os trabalhadores que estão arcando com os maiores custos políticos e econômicos.

O problema não se limita a um único partido ou governo. Nenhum dos partidos atualmente no poder tem coragem de questionar os fundamentos econômicos desse sistema imperialista. Consequentemente, nenhum deles dispõe de uma solução viável ou sustentável para os problemas urgentes enfrentados pela população. Deixando de lado a onipresente economia subterrânea, a economia oficial do Paquistão atravessa, na prática, um prolongado período de contração. Segundo o relatório mais recente do Banco Mundial, quase metade da população paquistanesa vive em condições de pobreza extrema, e a taxa de pobreza continua aumentando. O descontentamento social está atingindo níveis sem precedentes.

Nessas condições, é praticamente inexistente a possibilidade de que um processo democrático sólido crie raízes sobre uma base capitalista. A crise do capitalismo, não apenas no Paquistão, mas no mundo inteiro, inclusive nos países desenvolvidos, está obrigando os Estados a recorrer a níveis cada vez maiores de repressão, crueldade e restrição dos direitos democráticos. Em sociedades atrasadas e assoladas por crises profundamente enraizadas, como o Paquistão, a democracia continua sendo uma miragem até mesmo segundo os próprios critérios do capitalismo. A repressão estatal e o governo arbitrário são a norma, independentemente do partido que esteja no poder, inclusive o PTI.

Portanto, é um engano cínico difundir a ideia de que a imposição do estado de exceção ou do “governo do governador” em Khyber Pakhtunkhwa constitui um ataque monumental à “democracia”. Igualmente condenável é a narrativa de que a destituição do governo provincial antipopular do PTI resolverá, de alguma forma, os problemas da província e produzirá uma melhora substancial na vida da população comum.

Para os marxistas, a democracia não é um conceito abstrato nem um mero “princípio”. Interpretamos a democracia de acordo com os interesses históricos de nossa classe. O mesmo vale para os direitos humanos. São palavras de ordem que as classes dominantes sempre utilizaram para enganar os trabalhadores e manter os oprimidos e explorados sob seu domínio. Portanto, um dos principais deveres dos revolucionários é expor os interesses de classe ocultos por trás de cada palavra de ordem e de cada reivindicação.

O PTI, que se autodenomina um partido da “juventude”, não conseguiu sequer revogar a proibição dos sindicatos estudantis, em vigor há décadas, durante seus quase quatro anos no Governo federal e seus 13 anos no Governo provincial. Tampouco os chamados partidos democráticos ou “progressistas”, como o PML-N e o PPP, tiveram coragem de fazê-lo.

A situação do movimento sindical é tal que menos de 1% dos trabalhadores do país desfrutam do direito de se organizar em sindicatos. Até mesmo os sindicatos existentes estão sendo progressivamente reprimidos. As restrições à imprensa, aos meios de comunicação tradicionais e às redes sociais se intensificam dia após dia.

No que diz respeito às redes sociais, mais uma vez, as grandes redes e campanhas baseadas em insultos, mentiras, obscenidades e rumores — dirigidas por correntes políticas como o PTI — contaminaram e degradaram plataformas públicas que antes eram relativamente livres. Ao fazer isso, também forneceram ao Estado novos pretextos para justificar a censura.

Nas condições atuais desse sistema, seja imposto o governo do governador, seja mantido o governo do ministro-chefe provincial, a classe trabalhadora não conseguirá escapar do desemprego, da pobreza, do terrorismo, das privatizações e da destruição das instituições públicas enquanto os interesses exploradores das classes que monopolizam o poder e os recursos continuarem protegidos. Nessas condições, tampouco será possível alcançar uma paz duradoura ou uma democracia saudável.

Trata-se de uma luta entre diferentes facções da classe dominante, cada uma perseguindo seus próprios interesses. Seu programa não anuncia nada além de novas dificuldades para os trabalhadores, os camponeses, os estudantes e o conjunto das massas exploradas.

Medidas como o estado de emergência e o “Governor’s Rule” podem agravar ainda mais a situação já lamentável da liberdade de expressão, da liberdade de opinião e dos direitos democráticos. Mas isso não significa que, sempre que o PTI ou qualquer outro partido da política dominante da classe dirigente for atacado, devamos começar a apoiá-lo em nome da defesa da democracia, nem segui-lo como se fosse o salvador e líder do povo.

Seja uma questão econômica ou política, seja o desemprego ou a supressão das liberdades democráticas, os trabalhadores devem lutar por seus direitos com suas próprias forças. Para os oprimidos e explorados, a democracia deve significar, antes de tudo, o direito de formar sindicatos e outras organizações, fazer propaganda, criticar, reunir-se e empreender uma luta coletiva por seus interesses comuns sem restrições. Sem esses direitos, tudo o que se diz sobre democracia é engano e fraude. O PTI, juntamente com todos os demais partidos da política dominante, é parte integrante desse sistema fraudulento.

A questão fundamental que se coloca para o povo trabalhador não é quem deve ocupar o trono do poder. Nosso verdadeiro desafio é como derrubar esse sistema de exploração. A solução não está nem na mudança dos métodos de governo nem na transferência do poder de um partido para outro. Está na luta revolucionária, unida e independente, da classe trabalhadora, dos estudantes, dos camponeses e de outros setores explorados e oprimidos da sociedade.

Enquanto a classe que produz toda a riqueza social não assumir o controle dos meios de produção, da economia, da política e do Estado, a roda da exploração continuará girando, a democracia permanecerá uma miragem e a repressão continuará sendo a norma. Na época atual, a luta pelas liberdades democráticas fundamentais só pode ser travada por meio de um programa de socialismo revolucionário.