«A ditadura Ortega-Murillo transformou a repressão em uma arquitetura de poder que transcende o corpo e se instala na própria possibilidade do comum»
Cristhian Alvarenga López, jornalista nicaraguense no exílio
Falar de abril na Nicarágua não é apenas falar de números: de mortos, de pessoas presas, de exilados, migrações forçadas e famílias separadas. É falar de vidas suspensas. De projetos interrompidos. De famílias que aprenderam a se comunicar por códigos, a calar em público, a resistir em silêncio, por medo de represálias.
E nessa realidade há frases que não se esquecem. Não porque sejam grandiloquentes, nem porque pretendam ser históricas, mas porque vêm de um lugar onde a dor já não precisa de adornos. Uma das pessoas ex-presas políticas, enquanto eu a entrevistava, me disse com muita serenidade e firmeza: abril dói — e muito. É o sentimento de milhares de nicaraguenses que, antes de serem silenciados, estiveram na linha de frente, defendendo uma pátria contra o abutre e feroz capitalismo, que queria impor que nossos avôs e avós ficassem sem pensão e que, ao mesmo tempo, saíram às ruas para exigir uma real proteção ao meio ambiente, como no caso do voraz incêndio que destruía o pulmão da América Central: a Reserva da Biosfera de Bosawas.

Em uma pátria onde ainda não cicatrizou a dor deixada pela ditadura de Somoza, nem os erros cometidos durante a revolução — um país assolado por calamidades e com uma classe política que roubou durante décadas não apenas dinheiro, mas também a esperança de um povo, além de ter negociado o futuro de milhares de pessoas —, é evidente que “há dores que não se narram: carregam-se”. Outra frase que me foi dita com força por uma liderança camponesa comunitária, de uma organização de base — gente que é referência no meu percurso como ativista de direitos humanos.
E desses sofrimentos que se carregam, abril está repleto — que, para a Nicarágua, não é apenas um mês. É uma ferida aberta na memória coletiva. Desde 2018, esse nome deixou de ser uma referência no calendário para se tornar um ponto de ruptura: o momento em que milhares de pessoas saíram às ruas com demandas legítimas e se depararam com uma resposta marcada pela violência, pela repressão e pelo medo institucionalizado, por autoritários, capitalistas e burgueses que desencadearam ferozmente uma onda de repressão que deixou 328 mortos, pessoas desaparecidas e milhares de exilados até hoje.
A ditadura Ortega-Murillo transformou a repressão em uma arquitetura de poder que transcende o corpo e se instala na própria possibilidade do comum. Não se trata apenas da violência exercida nos espaços de encarceramento — onde o castigo físico e psicológico busca quebrar a vontade individual —, mas de uma estratégia mais profunda: a desarticulação deliberada do tecido social. O fechamento massivo de 5.600 organizações não é um excesso, mas um método; uma forma de esvaziar de sentido os espaços onde a sociedade pensa, se organiza e se reconhece como sujeito coletivo. Assim, o poder não apenas impõe silêncio, mas produz isolamento, transforma a desconfiança em norma e priva a vida social de sua capacidade de encontro.
Seria injusto falar de abril sem nomear aqueles que, de diferentes partes do mundo, acompanharam o povo nicaraguense. Aqueles que estenderam a mão a migrantes e exilados, sustentando não apenas necessidades materiais, mas também algo mais profundo: a dignidade, a escuta, a possibilidade de continuar sendo comunidade longe de casa.

Essa solidariedade internacional não é um gesto simbólico; é uma forma concreta de resistência que permite seguir tecendo redes ali onde o poder tentou romper tudo.
Porque o que está em jogo na Nicarágua não é apenas uma crise política. É também o resultado de um modelo que combina autoritarismo, corrupção e práticas neoliberais que precarizaram a vida das maiorias enquanto concentram poder e riqueza em uma elite cada vez mais fechada.
O regime de Ortega-Murillo não se limita à perseguição da dissidência; encarna uma forma de poder que, como em outras experiências autoritárias do século XX, esvazia as instituições até transformá-las em meros instrumentos de dominação. Não é um fenômeno novo: já o caudilho Francisco Franco transformou o Estado espanhol em uma extensão de sua vontade, anulando qualquer pluralidade sob a ficção de uma ordem única; ou Augusto Pinochet, que, sob o amparo de um projeto, utilizou a violência para reconfigurar a sociedade a partir do medo e da exclusão; ou Jorge Rafael Videla, cuja máquina repressiva não apenas eliminou corpos, mas buscou apagar identidades inteiras. Inclusive em El Salvador, o assassinato de Dom Óscar Arnulfo Romero durante uma missa evidenciou até que ponto o poder é capaz de destruir qualquer limite ético quando se sente ameaçado pela verdade. Tudo o que esses ditadores fizeram é o que fazem Ortega e Murillo: fizeram com que o Estado deixasse de ser um mediador para se tornar um dispositivo de controle total, onde a institucionalidade já não garante direitos, mas administra desigualdades, aprofundando as fraturas históricas que recaem, como sempre, sobre aqueles que foram sistematicamente excluídos. E nem se fala da perseguição religiosa, porque é o cotidiano vivido por sacerdotes, religiosas, religiosos e leigos comprometidos.
Nesse contexto, pensar o futuro não pode ser um exercício ingênuo. A Nicarágua não precisa apenas de uma mudança política: precisa de uma reconstrução profunda. E essa reconstrução passa, necessariamente, por pilares que a história latino-americana nos ensinou a não ignorar: memória, verdade, justiça e garantias de não repetição.
Sem memória, a dor se dilui e corre o risco de se repetir. Sem verdade, as feridas são negadas. Sem justiça, a impunidade se normaliza. E sem garantias de não repetição, qualquer tentativa de futuro se constrói sobre areia.

Abril dói porque não terminou. Porque seus efeitos seguem presentes em quem continua preso — 43 até março de 2026 — e em 11 pessoas desaparecidas; em quem teve que partir — ao menos 800 mil nicaraguenses, 11,6% da população total, entre abril de 2018 e novembro de 2025, segundo dados do Coletivo de Direitos Humanos para a Memória Histórica da Nicarágua —; em quem permanece dentro do país medindo cada palavra. Dói porque a justiça segue sendo uma dívida pendente. Porque a memória, em muitos casos, continua sendo um ato de coragem.
Abril dói. E dói muito. Mas também nos lembra que reconstruir é possível — se for feito com verdade, com justiça e, sobretudo, com memória coletiva.
À ditadura capitalista de Ortega e Murillo, que tentou nos tirar tudo — a terra, a voz, a esperança —, resta ainda uma certeza que não poderão domesticar: a palavra segue de pé. E com ela, a memória, que não se rende nem se negocia.
Voltar não é uma consigna vazia. Voltar é um ato político. É a afirmação de que nenhum regime é eterno, de que toda forma de dominação encontra seu limite na dignidade dos povos. Voltaremos não apenas a um território, mas à possibilidade de reconstruí-lo desde baixo, desde aqueles que nunca deixaram de sustentá-lo, mesmo em meio ao medo.
E quando esse dia chegar — porque chegará —, não será um presente nem uma concessão. Será o resultado da memória organizada, da verdade dita em voz alta, da justiça exigida sem descanso. Será o dia em que a palavra deixará de ser resistência para voltar a ser horizonte.
Então a Nicarágua não apenas terá sobrevivido: terá aprendido a não esquecer. E, nesse aprendizado coletivo, nascerá um país diferente. Não perfeito, mas mais digno. Não silencioso, mas profundamente livre e anti-imperialista diante de qualquer poder de fato.







