Entre os dias 22 e 25 de maio será realizado em Buenos Aires o XIV Congresso do MST. O mesmo será atravessado por toda uma série de discussões políticas internacionais, em meio a um mundo polarizado e de fortes disputas interimperialistas, com processos nos quais intervimos a partir do desenvolvimento dinâmico e do crescimento da Liga Internacional Socialista, que é um aspecto prioritário dentro de nossas tarefas internacionalistas. Em nosso Congresso, além disso, faremos debates profundos sobre a situação nacional e as perspectivas que vêm pela frente. Debateremos um balanço a fundo de tudo o que foi realizado nos últimos anos. E, partindo daí, teremos intercâmbios e propostas sobre nossa orientação política e de construção militante para o próximo período. Depois do Congresso, socializaremos em conjunto tudo o que foi debatido e resolvido. Como antecipação, neste artigo queremos nos referir em particular a um dos debates que serão centrais em nosso Congresso: a oportunidade histórica que a esquerda anticapitalista e socialista tem diante de si.
Por Sergio García
Estamos atravessando um momento que merece especial atenção, uma análise profunda e em perspectiva, e logicamente uma política e orientação para intervir nele. Referimo-nos ao fato que emerge como principal novidade política: o notório avanço político, consequência da virada à esquerda de uma faixa importante da população, que antecipa em pesquisas e estudos de opinião um apoio político e eleitoral à companheira Myriam Bregman e à esquerda identificada com a Frente de Esquerda Unidade. Vamos então debater, a partir desse fato, toda uma série de questões políticas, teóricas e estratégicas que aqui antecipamos para conhecimento da militância de esquerda, das milhares e milhares de simpatizantes que nos apoiam e de todas e todos os trabalhadores e jovens que queiram fazer parte desses debates transcendentes.
A crise profunda do governo Milei
Estamos atravessando um novo momento no país, uma nova conjuntura marcada por uma série de características que, em conjunto, golpeiam muito fortemente o projeto de Milei. Há uma combinação de avanço da crise econômica e política e maiores respostas sociais. No econômico, torna-se evidente que, ao não conseguir controlar a inflação e ter previsões de cerca de 30% ao ano, o governo perde por dois lados: cai uma de suas principais bandeiras discursivas, e os aumentos de preços alimentam o mal-estar social. Ao mesmo tempo, caem a produção, o consumo e a arrecadação. Além disso, existem mais instabilidades e críticas do establishment diante de um governo que não transmite segurança de poder ser reeleito.

A crise econômica se combina com a política, centralmente em torno do caso Adorni, que é carro-chefe de uma série de fatos de corrupção que vieram à luz publicamente, como os empréstimos do Banco Nación, os funcionários com casas em Miami, o caso $LIBRA, entre outros. Mas o caso Adorni atravessa a conjuntura porque joga por terra o outro eixo discursivo libertário: a suposta luta contra as castas. Milei aparece como ator central da defesa de um corrupto e é isso que milhões de pessoas percebem. O governo se enfraquece tanto se Adorni cair quanto se continuar, porque na opinião pública já perdeu.
A essas questões soma-se o avanço de processos de luta, ainda com muito peso nas províncias do interior e não no centro político do país. É o começo de algo que pode ser muito maior. Vimos elementos de “provincialazos” em Catamarca, jornadas docentes massivas em Córdoba e auto-organizadas em Santa Fé, transbordando a burocracia e radicalização em Chubut, entre outros exemplos. Acaba de ser realizada uma multitudinária Marcha Federal Universitária. O que vem depois? O mais provável é um avanço desse processo, que, se em algum ponto der um salto na zona da AMBA (zona metropolitana da cidade de Buenos Aires), pode começar a mudar a situação de fundo e abrir perspectivas inéditas e muito positivas.
A crise do peronismo como fator essencial do presente
O outro elemento central que atravessa a situação do país nos últimos anos e que hoje adquire novos sintomas é a profunda crise do peronismo. Em certo sentido, não poderíamos falar de um avanço político da esquerda se não existisse essa crise tão profunda do PJ. Porque, se algo faz parte da realidade de milhões, é a raiva crescente contra o governo Milei e, ao mesmo tempo, uma profunda decepção que ainda persiste ocasionada pelos governos peronistas anteriores, dos quais o último de Alberto Fernández, CFK e Massa foi um salto qualitativo.
Isso debilitou notoriamente a relação do peronismo com sua base social, como se expressa cotidianamente nos locais de trabalho, de estudo e nos bairros populares. Não se trata apenas de um problema eleitoral, no qual inclusive, pela crescente raiva contra Milei, ainda em meio a essa crise o peronismo pode capitalizar algo. Trata-se de algo mais profundo que evidencia a ruptura por baixo de faixas importantes, que não querem apoiar mais do mesmo, impulsionando o fenômeno mais positivo que é a busca por algo novo pela esquerda. Começou uma virada à esquerda
Como dizíamos no início deste artigo, tudo o que foi descrito anteriormente está originando uma virada à esquerda de uma faixa da população. É o fato mais importante da nova conjuntura que vivemos, o fator mais dinâmico que temos de interpretar em toda sua magnitude como condição necessária para responder corretamente a ele. Porque não falamos de uma guinada qualquer nem comparável a outras de etapas anteriores. Essa guinada tem um caráter inédito e muito positivo, ao encontrar como atração política diretamente a esquerda revolucionária e não variantes reformistas ou possibilistas. Pela primeira vez, essa busca à esquerda se conecta com a figura de Myriam Bregman e com a esquerda identificada com a FIT-U, de posições políticas anticapitalistas e socialistas. Sabendo disso é que um setor importante a está escolhendo diante da pergunta sobre em quem votaria ou apoiaria no país. Ou seja, há uma decisão, expressa em cerca de 10% ou mais da população, de escolher para o governo uma figura que representa um programa definido. Porque não estamos diante de eleições legislativas nem em um debate parlamentar. Todas as pesquisas que se fazem estão enquadradas no debate e em perguntas sobre o futuro do país e os possíveis candidatos presidenciais. E, nesse contexto, pela primeira vez aparece uma figura de nossa frente muito bem posicionada. É um fenômeno incomum e ao mesmo tempo muito positivo.
Ao mesmo tempo, embora a medição tenha características eleitorais, cometeríamos um erro se reduzíssemos sua análise apenas a esse aspecto. Porque o trânsito de uma virada à esquerda no país está e estará sempre combinado ao desenvolvimento da luta de classes e a uma possível ascensão social. Em certo sentido, a mudança positiva que está se materializando na consciência de vários milhões é parte e ao mesmo tempo antecipação de possíveis mudanças bruscas no futuro do país. Não podemos desvincular esse avanço político da possibilidade de uma crise social maior a médio prazo. Apenas para tomar o último exemplo histórico de nosso país, recordemos que o Argentinazo de 2001 também foi precedido por um avanço da esquerda nos dois anos anteriores, tanto eleitoralmente quanto na direção de setores sindicais e estudantis. Por isso temos que ver a situação em conjunto e ter também uma política integral para esse fenômeno, que, como dizíamos, tem como elemento novo e histórico que a virada encontra nossa frente e sua principal figura política em primeira linha para capitalizá-la.

Muda a realidade, que mude a Frente de Esquerda
Em geral se diz que não se podem esperar resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa. Isso, que evidentemente é assim, hoje é um problema político ainda mais profundo para nossa Frente de Esquerda Unidade. Já nas conjunturas anteriores se impunha uma mudança, por não poder a Frente continuar marcada por um formato eleitoral limitado, rotineiro e distante de uma estratégia de fundo para intervir. Agora, na nova situação de avanço e virada à esquerda, a urgência de uma mudança de qualidade é total. Nenhuma política é revolucionária se, diante de uma mudança profunda na situação, não a acompanhamos com mudanças políticas e organizativas da mesma magnitude, que se materializem em uma melhora qualitativa das ferramentas políticas que temos. Este é o debate central e urgente que temos de realizar na Frente de Esquerda Unidade.
Desde o MST vimos levantando que temos uma proposta a respeito e a colocamos à disposição de um debate coletivo. Em nossa opinião, um salto positivo seria se conformássemos um partido comum, unificado entre os integrantes da FIT-U, com nosso programa e incorporando intelectuais, referências sociais e setores afins. Um partido nosso, que ao mesmo tempo tenha um funcionamento democrático que permita a organização livre de correntes internas e permita a construção de acordos, assim como também o debate público de posições quando houver nuances ou diferenças.
Como levantamos através de nosso companheiro Alejandro Bodart no discurso de encerramento do ato na Plaza de Mayo, estamos muito abertos a debater outras propostas e possibilidades. Nos importa que haja um avanço de verdade, não fazemos esquemas nem nos atamos a uma única possibilidade. Por exemplo, se os companheiros do PTS propõem fazer um PT, um novo partido dos trabalhadores, estamos a favor de fazê-lo. Em todo caso, é preciso debater como seria, quais passos em comum damos, como organizamos seu impulso, a quem o propomos e com qual programa. Seria muito positivo que expressassem uma proposta a respeito, para poder iniciar um debate profundo, se essa for a possibilidade de avanço. Na Plaza de Mayo, Gabriel Solano, do PO, negou essa possibilidade de debater sobre um Partido dos Trabalhadores, dizendo que já temos a Frente de Esquerda. Refletindo assim que não compreende nem a magnitude do processo e da oportunidade que se vive, nem o fato evidente de que a FIT-U tem muitos limites que devem ser superados.
Em uma nota de resposta a um artigo do PO, Guillo Pistonesi, da direção do PTS, diz que há força da classe trabalhadora e que “A tarefa não é contemplá-la de fora nem encerrá-la nos limites atuais da FIT-U, mas dar-lhe uma ferramenta política comum. A oportunidade não é que a FIT-U se olhe a si mesma conservando suas proporções atuais”. Compartilhamos que não devemos nos encerrar e que a FIT-U não pode seguir igual. Temos então que avançar em debater a fundo e em unidade como oferecemos e como construímos essa ferramenta política comum, da qual temos de ser protagonistas e impulsionadores. Porque é uma tarefa que, para ser feita a fundo e positivamente, tem de ser feita em unidade, sem ficar sendo impulsionada ou construída por um único partido, o que tornaria impossível que cumpra o papel destacado que deveria cumprir.
Podemos e queremos governar. Aproveitar a situação agora
O avanço da esquerda é tão notório no cenário político nacional que em todo tipo de programas de TV, streamings e redes sociais se debate sobre a esquerda ou convidam Myriam Bregman para que apresente suas propostas. Também diferentes meios nacionais cobriram nosso importante ato na Plaza de Mayo buscando ali declarações e propostas. O que está em debate não é algo menor. Como dizíamos, não se trata de jornalistas opinando se a esquerda conseguirá alguns deputados a mais. Debate-se que a candidata da Frente de Esquerda está entre as possíveis mais votadas na próxima disputa eleitoral. E isso habilita um debate sobre se a esquerda pode governar, se está preparada para fazê-lo. Acreditamos que nossa tarefa é assumir esse debate com toda audácia. Não nos centrando em fazer hipóteses sobre a possibilidade de ganhar uma eleição ou não. Mas colocando no centro o que implica que vários milhões nos apoiem e como isso repercutirá em milhares de trabalhadores, jovens, intelectuais e profissionais que se colocariam à disposição para fazer parte da luta por mudanças de fundo. Se na esquerda consolidarmos esse apoio em meio a essa virada, e se a mesma em algum ponto do caminho se conectar com uma ascensão generalizada e uma crise social de magnitude, abrir-se-ão condições únicas para que essa relação entre localização política e mobilização de milhões abra as comportas para a disputa pelo poder. É sobre isso que estamos debatendo, por trás de pesquisas que se referem apenas ao próximo processo eleitoral.
Por isso consideramos equivocado o enfoque que os companheiros do PO fazem nesse debate, refletido em um artigo de Néstor Pitrola. Ali retiram toda transcendência do avanço político que está se desenvolvendo, criticam o PTS por eleitoralismo e o MST por dizer na Plaza de Mayo que em cem anos não tivemos uma oportunidade como esta. As definições do PO refletem uma incompreensão profunda do fenômeno em curso e do pano de fundo de possibilidades revolucionárias que se abrem, se soubermos atuar corretamente, com audácia e buscando os maiores níveis de unidade. Em vez de se posicionar, como o PO, procurando argumentos a serviço de uma disputa fratricida muito fora de lugar e alheia às tarefas políticas do momento.
Nós acreditamos que, se em todos os lugares se debate sobre quem pode governar e se localiza Myriam Bregman e a Frente de Esquerda Unidade como atores destacados dessa futura disputa, é preciso sair agora com mais força, nos postular politicamente, percorrer o país, organizar eventos públicos, dizer com força que sim queremos e podemos governar. É preciso convocar mais do que nunca a organizar milhares conosco, começando essa tarefa coletivamente em torno da figura de Myriam e somando a partir daí todas e todos os principais dirigentes dos partidos da frente. E é preciso fazê-lo, logicamente, enquanto impulsionamos com força e nas ruas todos os processos de luta que estão em curso hoje. Essa tarefa prioritária que é lutar agora e com força para derrotar Milei não nega a tarefa política de nos postularmos e aproveitar a ascensão política e a virada à esquerda que vivemos. Repetidas vezes o PO comete o erro estratégico de separar a luta social-sindical da luta política. E esse erro grosseiro e permanente que comete adquire dimensões ainda piores em um momento como este, de oportunidade histórica para a esquerda revolucionária.

Partido, partidos e estratégia revolucionária
Outro debate de fundo, teórico e estratégico, que a situação atual gera e sobretudo as perspectivas que poderiam se abrir, é como atuamos desde a esquerda anticapitalista e socialista se em algum ponto se combinarem um maior crescimento do apoio político à esquerda do que hoje se expressa, com um salto qualitativo na luta nas ruas, até abrir uma crise revolucionária que coloque em questão o problema do poder e dê origem a formações auto-organizadas ou organismos de duplo poder. Pelo peso do trotskismo e de nossa frente, essa combinação abriria uma situação inédita de oportunidades políticas. E nós queremos debater em nosso Congresso e também com o restante dos partidos da FITU todas essas questões.
Se em algum momento ficarmos diante de um processo revolucionário e em uma localização política muito destacada, é preciso partir da realidade de que existem diferentes partidos com diferentes graus de desenvolvimento e influência, com desigualdades em setores e regiões e sem que ninguém seja hegemônico, nem esteja colocado que o seja. E que, portanto, será necessário contar com toda essa força que temos para lutar por mudanças de fundo. Nesse sentido, para nós é decisivo buscar mecanismos para tentar construir estratégias comuns, e acreditamos que seria muito equivocado que alguma força acreditasse poder resolver o problema sozinha, porque isso poderia derivar em orientações limitadas, fechadas ou autoproclamatórias.
Há uma necessária unidade a construir e uma necessária lealdade para tentá-la. Em nosso caso, reconhecemos que, se a companheira Myriam e sua organização encabeçam esse processo político, queremos debater profundamente e com lealdade política como ajudamos em tudo o possível para que o processo se desenvolva e avance muito mais. Porque quem quer e acredita na revolução, quando se abrem oportunidades históricas, tem de atuar em função desses objetivos revolucionários, propondo e debatendo, afastado do método de polemizar por polemizar utilizado por aqueles que apenas querem ganhar uma discussão. Não é esse o método revolucionário, mas sim aquele que coloca o debate profundo em função do avanço do processo revolucionário. Até a principal experiência histórica revolucionária, a Revolução Russa, demonstrou na realidade que, em seu momento, foram necessários acordos entre partidos e diferentes forças. Primeiro, os bolcheviques tiveram de fazer um acordo e incorporar toda a corrente de Trotsky, que era muito importante. E depois todos juntos fizeram um acordo com os socialistas revolucionários por seu peso no campesinato. Assim atuam aqueles que querem fazer a revolução, colocando essa necessidade política acima de diferenças passadas ou inclusive parciais do presente. Porque sempre haverá acordos, luta de ideias ou, em alguns temas, diferenças. A questão é se tudo isso é colocado dentro de um marco estratégico comum ou não. E nós acreditamos que é possível fazê-lo.
Nosso XIV Congresso debaterá todos esses temas políticos, teóricos e estratégicos. E vamos debater nossas conclusões com outras organizações, intelectuais, referências sociais e aliados nessa luta. Vamos propor a organização de fóruns, painéis e eventos de intercâmbio de ideias, espaços especiais dedicados a esses temas dentro de nossas ferramentas de comunicação digitais, audiovisuais e impressas, para incentivar, por diferentes vias, a participação de milhares. Em particular com as e os companheiros do PTS queremos abordar toda essa questão estratégica a fundo, trocando visões sobre o processo revolucionário e saber como enxergam esses problemas políticos que, em algum ponto do caminho, podem se tornar decisivos. Temos vontade de tentar acordos estratégicos? Abrimos um debate profundo e leal para explorá-los? Assumimos que é possível conviver com base em fortes acordos de fundo e, nesse marco, respeitando divergências que logicamente possam surgir? Nosso Congresso seguramente responderá positivamente a esses interrogantes. Esperamos que a localização política que os companheiros do PTS têm hoje os leve a se colocar problemas políticos e teóricos semelhantes, sem se fecharem equivocadamente. Vêm tempos apaixonantes e de enormes oportunidades políticas. O desafio é resolver bem e em unidade como responder a elas. Para tentar evitar que, por não fazê-lo ou não tentá-lo, em algum ponto se perca uma oportunidade política que, insistimos, é histórica. Façamos este e todos os debates profundamente. O XIV Congresso do MST assumirá esse desafio e tentará contribuir positivamente para as tarefas colocadas à esquerda revolucionária.
(Sergio García, autor desta nota, é diretor do Periodismo de Izquierda e integra pela MST a Mesa Nacional da Frente de Esquerda. Seu artigo faz parte da edição impressa mensal da Alternativa Socialista, que pode ser comprada em todas as sedes do MST ou em formato digital através de periodismodeizquierda.com)






