Por Umair Khurshid (JKNSF)

Enquanto estas palavras estão sendo escritas, o povo da Jammu Caxemira administrada pelo Paquistão (PAJK) permanece nas ruas após quase 10 dias de apagão, cerco e violência estatal. Desde aproximadamente 23h35–23h45 da noite de 5 de junho, toda a região foi isolada do mundo. O acesso à internet foi cortado, as redes de telefonia móvel foram bloqueadas ou severamente interrompidas, cidades foram militarizadas e áreas inteiras foram lançadas em um quase silêncio, enquanto tropas paramilitares e a polícia realizam incursões, prisões, bombardeios e disparos.

Esse apagão tem o objetivo de impedir que as pessoas se comuniquem entre si, evitar que feridos e familiares das vítimas consigam chegar ao mundo exterior, ocultar a dimensão da violência estatal e dar tempo para que o Estado e seus meios de comunicação construam sua própria narrativa antes que o povo possa falar por si mesmo. Cerca de duas dezenas de pessoas foram martirizadas e mais de 200 ficaram feridas até o momento, embora o número real possa ser maior, já que o apagão e as restrições de acesso tornaram a verificação independente quase impossível. Casas de ativistas, trabalhadores e dirigentes do Comitê Conjunto de Ação Popular (JAAC) foram invadidas. Manifestantes foram atacados com gás lacrimogêneo, cassetetes, bombardeios e munição real.

Apesar disso, o movimento não foi derrotado. Os protestos permanentes continuam, as pessoas seguem saindo às ruas em grande número e o Estado fracassou em sua tentativa de empurrar as massas de volta ao silêncio. De fato, já existem relatos de que o governo foi colocado na defensiva e tenta abrir negociações. Como as comunicações continuam interrompidas e o acesso a informações confiáveis permanece bloqueado, a natureza exata dessas conversas não pode ser afirmada com certeza. Seria incorreto declarar uma vitória completa enquanto o cerco continua e as pessoas permanecem sob ameaça, mas já constitui uma conquista significativa do movimento que, após dias de disparos abertos contra a população, o Estado tenha sido obrigado a voltar a considerar a negociação.

O que se desenrola hoje não é nem uma explosão repentina nem uma disputa limitada a uma cláusula específica. Trata-se da etapa mais recente e mais aguda de um movimento de massas que cresceu ao longo de anos de indignação, organização, traições, repressão, vitórias parciais, promessas descumpridas e renovadas lutas. A atual insurreição não pode ser compreendida sem retornar ao caminho que levou até aqui: as primeiras campanhas contra as contas de eletricidade e os preços do trigo, a longa marcha de 2024, as conquistas inacabadas que se seguiram, o confronto renovado de 2025 e o retorno das mesmas reivindicações não resolvidas em 2026.

Como tudo começou

As raízes imediatas do movimento encontram-se na crise econômica que se seguiu ao período da COVID. Em toda Jammu Caxemira, a população enfrentou aumentos acelerados nos preços da eletricidade, dos combustíveis, dos alimentos e uma deterioração das condições de vida. Enquanto trabalhadores, estudantes, jovens desempregados e famílias das camadas médias baixas lutavam para sobreviver, a elite política continuava desfrutando de privilégios que pareciam cada vez mais desconectados da realidade cotidiana.

Entretanto, as dificuldades econômicas por si só não produzem automaticamente um movimento de massas. Essas questões funcionaram como catalisadores, mas as condições políticas vinham se desenvolvendo há anos.

Os acontecimentos em torno da revogação do Artigo 370 pela Índia, em agosto de 2019, tiveram um profundo impacto em toda Jammu Caxemira. Embora as mudanças constitucionais imediatas tenham ocorrido no lado administrado pela Índia, suas ondas de choque políticas foram sentidas em toda a região. O acontecimento renovou os debates sobre soberania, representação, autodeterminação e o futuro de Jammu Caxemira como um todo. Também expôs as limitações das principais forças políticas que atuam na Jammu Caxemira administrada pelo Paquistão, muitas das quais se mostraram incapazes de oferecer qualquer resposta política significativa.

Como resposta, diversas forças de esquerda, nacionalistas e progressistas tentaram construir coalizões mais amplas. Uma dessas iniciativas foi a Aliança Nacional Popular (PNA), que buscava reunir diferentes correntes da oposição política. Embora essas iniciativas tenham gerado entusiasmo e, em determinados momentos, amplo apoio popular, tiveram dificuldades para desenvolver um programa político coerente capaz de conectar as questões constitucionais mais amplas às preocupações econômicas cotidianas da população. Como resultado, não conseguiram se consolidar como organizações de massas duradouras.

Ao mesmo tempo, a piora das condições econômicas, a inflação, o aumento das tarifas de serviços essenciais e a queda do padrão de vida ampliaram constantemente o descontentamento social. No início da década de 2020, a frustração política e as reivindicações econômicas começaram a convergir, criando as condições para um movimento com uma base social mais ampla do que as campanhas anteriores.

Os primeiros protestos contra as altas contas de eletricidade e os preços do trigo foram impulsionados por organizações de esquerda e nacionalistas, grupos estudantis e sindicalistas. Entre elas, a Federação Nacional dos Estudantes de Jammu Caxemira (JKNSF) desempenhou um papel ativo na mobilização dos estudantes e de outros setores da juventude, participando de manifestações, organizando debates e relacionando as reivindicações econômicas imediatas a questões mais amplas de direitos democráticos, representação política e controle dos recursos locais.

Os protestos locais contra os preços da eletricidade e do trigo começaram a surgir em diferentes áreas durante 2022 e 2023. Essas mobilizações frequentemente incluíam queimas simbólicas de contas de energia, campanhas de não pagamento, acampamentos de protesto, greves comerciais e manifestações locais. O que inicialmente parecia uma série de protestos isolados desenvolveu-se gradualmente em um movimento mais amplo, conectando comunidades de toda a região.

Um dos primeiros centros importantes de agitação surgiu em torno de Rawalakot, onde os protestos contra os preços do trigo ajudaram a demonstrar o potencial de uma ação de massas sustentada. À medida que essas campanhas se espalhavam, os ativistas passaram a reconhecer cada vez mais a necessidade de uma plataforma comum capaz de coordenar as atividades em toda Jammu Caxemira. Esse processo levou, finalmente, à formação do JAAC em setembro de 2023.

A força contraditória do movimento

A formação do JAAC representou uma grande conquista. Pela primeira vez em muitos anos, um movimento conseguiu reunir setores sociais como trabalhadores, estudantes, sindicatos de transportes, comerciantes, organizações nacionalistas e ativistas de esquerda.

As tarifas comerciais de eletricidade atingiram particularmente os comerciantes. Donos de pequenas empresas, lojistas, transportadores e outros setores médios tinham razões econômicas imediatas para apoiar o movimento. Além disso, frequentemente mantinham vínculos sociais e políticos com correntes nacionalistas e progressistas. Essa composição ampla conferiu enorme força ao movimento. Contudo, também introduziu contradições que se tornariam mais visíveis à medida que a luta avançava.

Com o proletariado industrial praticamente inexistente na região, à medida que comerciantes e transportadores ingressavam em maior número no movimento, passaram a adquirir crescente influência em sua direção. Isso não era apenas uma questão numérica. Nessas condições particulares, suas organizações possuíam um poder prático considerável: os comerciantes podiam fechar mercados e os sindicatos de transportes podiam interromper a circulação. Juntos, tinham a capacidade de impor greves comerciais e paralisações de transporte em distritos inteiros.

Essa influência crescente deslocou gradualmente o centro de gravidade do movimento. Muitas das forças que ajudaram a iniciar a luta provinham de tradições políticas de esquerda, nacionalistas, estudantis e progressistas. No entanto, a direção em expansão passou a adotar cada vez mais a linguagem de um movimento “não político”. Embora continuasse levantando reivindicações políticas, evitava desenvolver um programa político mais amplo capaz de explicar como essas reivindicações seriam conquistadas e sustentadas.

Essa continua sendo uma das principais limitações do movimento. Ele não desenvolveu um programa político e econômico abrangente. Essa lacuna tornou-se cada vez mais evidente à medida que o movimento se fortalecia. Ao mesmo tempo, seria um erro descartar o movimento por causa dessa fraqueza. A ausência de um programa não o impediu de se tornar a mais importante mobilização popular em Jammu Caxemira em décadas, mas ajuda a explicar por que tantas das mesmas questões continuam retornando.

A longa marcha de 2024

O primeiro grande ponto de inflexão chegou em maio de 2024. Após meses de organização, protestos, greves, negociações, boicotes ao pagamento das contas e crescente confronto com as autoridades, o movimento anunciou uma longa marcha rumo a Muzaffarabad, capital da Jammu Caxemira administrada pelo Paquistão.

O Estado respondeu com prisões, intimidações, bloqueios de estradas e o envio de forças adicionais. Dirigentes e ativistas do movimento foram detidos, enquanto uma campanha permanente de propaganda buscava apresentar o movimento como ilegítimo, financiado por forças estrangeiras e perigoso. No entanto, cada tentativa de deter a marcha parecia apenas fortalecer o apoio popular a ela.

À medida que as caravanas avançavam, eram recebidas por comunidades de toda a região. Vilarejos e cidades inteiras se mobilizaram em torno do movimento. Pessoas alinhavam-se ao longo das estradas para saudar os manifestantes, forneciam comida e água, abriam suas casas e ofereciam abrigo aos participantes. O que havia começado como uma campanha contra as contas de eletricidade e os preços do trigo havia se transformado em um verdadeiro movimento de massas, capaz de paralisar o Estado em amplas áreas de Jammu Caxemira.

O governo tentou deter a marcha pela força. Confrontos ocorreram em várias localidades quando os manifestantes enfrentaram bloqueios de estradas e forças de segurança. Durante esses confrontos, três manifestantes foram mortos e mais de 100 pessoas ficaram feridas, expondo a disposição do Estado de utilizar a violência contra um movimento cujas reivindicações estavam centradas em direitos democráticos e econômicos básicos.

As autoridades acabaram se vendo diante de um dilema. Impedir completamente a marcha corria o risco de provocar uma confrontação ainda maior, enquanto permitir sua continuidade poderia expor a própria fraqueza do governo. À medida que o movimento crescia e milhares avançavam rumo a Muzaffarabad, a margem de manobra do Estado se reduzia constantemente.

Diante da crescente pressão, o governo em Islamabad anunciou um pacote de 23 bilhões de rúpias, enquanto o governo da Jammu Caxemira anunciou importantes concessões. O movimento conseguiu impor reduções significativas nas tarifas de eletricidade e nos preços do trigo, ao mesmo tempo em que foram assumidos compromissos adicionais relacionados aos privilégios das elites e a outras reivindicações.

Pela primeira vez em muitos anos, a população viu um governo recuar diante da pressão de um movimento de massas. A vitória foi real, mas não foi completa.

O retorno do movimento em 2025

A vitória de 2024 alterou o clima político em toda Jammu Caxemira. Pela primeira vez em décadas, um movimento de massas havia forçado o Estado a recuar. Mas, à medida que os meses passavam, tornava-se cada vez mais claro que as questões mais profundas levantadas pelo movimento não haviam sido respondidas. A questão dos privilégios das elites permanecia. A questão do controle sobre os recursos locais permanecia. A responsabilização democrática continuava sendo pouco mais que um slogan na boca daqueles que não tinham qualquer intenção de prestar contas.

No final de 2025, o JAAC retornou com uma plataforma ampliada de 38 reivindicações. O movimento havia ultrapassado as questões da eletricidade e do trigo. Passou a levantar demandas relacionadas à saúde, educação, governança, emprego, prestação de contas, royalties da energia hidrelétrica, privilégios das elites, reformas democráticas e à abolição dos 12 assentos reservados na Assembleia Legislativa da Jammu Caxemira administrada pelo Paquistão para migrantes residentes no Paquistão. Esses assentos são frequentemente utilizados pelo Estado para influenciar ou manipular a política e o processo de formação de governos em Jammu Caxemira. Isso demonstrava que o movimento havia amadurecido por meio de sua própria experiência. O povo compreendeu que as contas elevadas e os altos preços do trigo não eram dificuldades isoladas, mas parte de uma ordem mais ampla baseada na extração de riquezas, no clientelismo e no controle externo.

O Estado compreendeu imediatamente que já não se tratava apenas de uma disputa sobre subsídios. Em 26 de setembro de 2025, quase 13 horas de negociações entre o JAAC, o governo da AJK e representantes federais fracassaram. O impasse concentrou-se principalmente em duas reivindicações: a abolição dos privilégios das elites e a eliminação dos 12 assentos dos migrantes. O governo podia negociar subsídios, adiamentos, comissões e medidas administrativas, mas se recusava a ceder em reivindicações que atingiam diretamente a estrutura política por meio da qual a região é governada.

À medida que a paralisação anunciada se aproximava, as autoridades responderam da mesma forma que voltariam a responder em 2026. Os serviços de telefonia móvel e internet foram suspensos. Forças de segurança foram mobilizadas. Os pontos de entrada e saída foram submetidos a maior controle. O Estado tentou quebrar a capacidade do movimento de se comunicar, se reunir e se deslocar antes que a greve pudesse ganhar força.

Apesar disso, a greve e a longa marcha ocorreram. Manifestações aconteceram em Muzaffarabad, Rawalakot, Kotli, Mirpur, Bhimber e outras cidades. Mercados fecharam, o transporte foi paralisado e o movimento demonstrou novamente sua capacidade de colocar a região inteira em suspensão. Os confrontos que se seguiram foram sangrentos e cinco pessoas foram mortas. Por fim, após dias de enfrentamentos, um novo acordo, relativamente vago, foi alcançado no início de outubro, refletindo as limitações da direção do movimento. O governo voltou a prometer a implementação das reivindicações e o movimento voltou a suspender suas ações imediatas. Contudo, a disputa fundamental permaneceu viva, porque o Estado não havia enfrentado o cerne da questão. Mais uma vez, havia comprado tempo sem resolver os problemas políticos que estavam no centro do conflito.

Em poucos meses, tornou-se evidente que a implementação das medidas estava paralisada, atrasada ou havia sido realizada apenas parcialmente. A lição de 2025 foi, portanto, ainda mais contundente do que a de 2024. O Estado podia ser forçado a recuar, mas recuaria apenas o suficiente para preservar a si próprio. Em questões que envolviam os privilégios das elites, a engenharia política e o controle sobre o futuro de Jammu Caxemira, resistiria até ser novamente obrigado a ceder.

A questão dos 12 assentos

Fora de Jammu Caxemira, as discussões sobre a reivindicação de abolir os 12 assentos destinados a migrantes que vivem no Paquistão são frequentemente mal compreendidas. A palavra “migrante” leva imediatamente muitas pessoas a acreditar que a disputa é motivada por hostilidade contra migrantes ou pessoas deslocadas. Essas interpretações ignoram completamente o conteúdo real da questão.

A reivindicação não é dirigida contra os migrantes, mas contra um arranjo que há muito tempo é visto como um mecanismo de engenharia política.

As pessoas eleitas por meio desses assentos participam da elaboração de leis para um território no qual não residem. Ao mesmo tempo, as leis que ajudam a criar não se aplicam aos lugares onde elas próprias vivem. Ao longo de décadas, esses assentos funcionaram repetidamente como um canal por meio do qual os resultados políticos dentro de Jammu Caxemira podem ser moldados por forças externas ao próprio território.

Até mesmo os partidos políticos tradicionais frequentemente criticaram esses assentos quando estavam na oposição, apenas para defendê-los quando as circunstâncias políticas mudavam. O padrão observado ao longo dos anos é difícil de ignorar. O partido que governa em Islamabad sempre obtém um sucesso desproporcional nesses assentos.

Para muitos apoiadores do movimento, a questão é fundamentalmente democrática. Diz respeito à representação política, à prestação de contas e ao direito das pessoas que vivem em um território de determinar a composição das instituições que governam esse território.

Como socialistas, apoiamos a abolição desses assentos não porque acreditamos que essa reivindicação, por si só, resolverá todos os problemas sociais e econômicos enfrentados por Jammu Caxemira. Sob a atual ordem constitucional, construída a partir do marco de 1974 e sustentada pelo controle exercido pelo Paquistão sobre a região, a classe dominante local continuaria sendo uma classe dominante, e a exploração não desapareceria com uma única reforma democrática. No entanto, isso não constitui um argumento contra a reivindicação. Os socialistas revolucionários sempre lutaram por direitos democráticos, mesmo quando esses direitos ficam aquém de uma transformação completa da sociedade, porque cada conquista democrática pode ampliar o terreno sobre o qual trabalhadores, estudantes, mulheres, camponeses e pobres conseguem se organizar e lutar.

O direito de formar sindicatos não elimina o capitalismo, assim como os sindicatos estudantis, a liberdade de expressão ou o direito de reunião. Ainda assim, cada um desses direitos oferece às pessoas comuns mais espaço para se organizar, falar, reunir-se, resistir e lutar contra aqueles que as governam. O mesmo se aplica à reivindicação de abolir os 12 assentos. Ela não acabará com a exploração por si só, mas removeria pelo menos um dos mecanismos históricos de controle político externo e enfraqueceria um instrumento por meio do qual a vontade política do povo de Jammu e Caxemira tem sido moldada, administrada e anulada a partir de fora. Para nós, trata-se de uma reivindicação democrática que deve ser defendida, não como um fim em si mesma, mas como parte da luta mais ampla pelo poder da classe trabalhadora, pelo controle dos recursos e por uma autogestão genuína.

De 5 a 15 de junho: o cerco que fracassou em quebrar o povo

O atual protesto é resultado direto de acordos que nunca foram implementados e de questões políticas que permaneceram sem solução. Seu estopim imediato foi a contínua disputa em torno dos 12 assentos dos migrantes, que haviam se tornado o símbolo mais evidente daquilo que muitos consideravam ser o controle político externo sobre Jammu Caxemira. As negociações fracassaram e os tribunais mantiveram a proteção constitucional desses assentos. Em resposta, o JAAC anunciou uma nova convocação para uma longa marcha em 9 de junho. A questão de saber se a direção deveria ter adotado uma abordagem diferente com a aproximação das eleições gerais, e se o caminho da ação direta é sempre o mais adequado, permanece em aberto para debate. De qualquer forma, o Estado respondeu com repressão antes mesmo que a marcha começasse.

Pouco antes da meia-noite de 5 de junho de 2026, os serviços de internet foram suspensos em grande parte de Jammu Caxemira. Não se tratou de uma medida administrativa isolada. Foi o primeiro passo de uma operação mais ampla contra o movimento. Nos dias seguintes, tropas da FC, dos Rangers, da polícia e de outras forças de segurança foram mobilizadas em toda a região. Estradas foram bloqueadas, ativistas foram presos e casas de dirigentes e militantes do JAAC foram invadidas e saqueadas.

O Estado acreditava que, ao interromper as comunicações e isolar as cidades umas das outras, conseguiria impedir que o movimento ganhasse impulso. Em vez disso, ocorreu exatamente o contrário. Na noite de 6 de junho, as forças estatais abriram fogo em Rawalakot. Entre os martirizados estava Shahzaib Habib, ativista do JAAC. Longe de intimidar a população, seu assassinato aprofundou a indignação popular.

Em 8 de junho, Rawalakot havia se tornado o centro de uma grande confrontação. Manifestantes que tentavam dar continuidade ao movimento enfrentaram disparos diretos. Relatos vindos do local apontavam para 13 mortes e centenas de feridos.

No dia seguinte, foi imposto toque de recolher em Rawalakot. Ainda assim, apesar das mortes e das restrições, os manifestantes continuaram se dirigindo à cidade. O Estado esperava que o medo interrompesse a marcha. Em vez disso, cada ato de repressão parecia atrair mais pessoas para a luta. Também surgiram relatos vindos de Kotli e de outras áreas sobre novos disparos, feridos e cerca de mais quatro mortes.

O que se seguiu foi talvez o desenvolvimento mais notável de todo o confronto. As caravanas continuaram avançando em direção a Rawalakot. Os manifestantes atravessaram barreiras, contornaram bloqueios e alcançaram áreas que as autoridades esperavam isolar. A mesma cidade onde o Estado tentou esmagar o movimento por meio do derramamento de sangue transformou-se em um ponto de encontro para um número ainda maior de pessoas. Quando as marchas chegaram aos arredores de Rawalakot, ficou claro que a repressão havia fracassado em seu objetivo principal.

Em 11 de junho, as forças de segurança voltaram a abrir fogo diretamente contra os manifestantes. Pelo menos quatro pessoas foram martirizadas. O episódio expôs ainda mais claramente a realidade da estratégia estatal. Em vez de responder às reivindicações do movimento, o governo recorria cada vez mais abertamente à força para intimidar e dispersar os protestos. Mais uma vez, os assassinatos fracassaram em produzir o efeito pretendido.

A partir de 12 de junho, as mulheres passaram a participar em números muito maiores, juntando-se a protestos permanentes, manifestações e atos públicos apesar da repressão em curso. As fases anteriores do movimento haviam sido marcadas por restrições informais e pressões conservadoras que limitavam a visibilidade e a participação feminina. O crescimento da presença das mulheres tornou-se, portanto, um dos acontecimentos políticos mais importantes da luta. Isso refletia o fortalecimento das tendências progressistas dentro do movimento e o enfraquecimento das tentativas de manter as mulheres à margem da vida política pública.

Em 14 de junho, as forças de segurança atacaram novamente os manifestantes. Segundo relatos vindos do local, pelo menos três pessoas foram martirizadas e outras oito ficaram feridas quando a FC e os Rangers abriram fogo ao tentar dispersar manifestantes pacíficos. A essa altura, o padrão já era inconfundível. O Estado não se apoiava mais apenas em prisões, bloqueios de estradas, invasões e apagões de comunicação. Estava recorrendo cada vez mais à violência direta numa tentativa de esmagar o movimento.

Em 16 de junho, os protestos permanentes e as mobilizações continuavam apesar de tudo o que havia ocorrido nos dez dias anteriores. Incapaz de retirar o movimento das ruas por meio de balas, prisões, invasões, toques de recolher e bloqueios de comunicação, o Estado começou a aprofundar ainda mais o cerco. Relatos vindos do terreno indicavam restrições ao fornecimento de alimentos, suprimentos médicos e outros bens essenciais às áreas de protesto. O Estado tentava não apenas reprimir o movimento, mas desgastá-lo por meio do isolamento e da privação.

A JKNSF faz parte dessa luta desde o início. Muito antes de o movimento se tornar manchete, militantes da JKNSF já estavam envolvidos na organização dos estudantes, no apoio aos protestos, na articulação entre reivindicações econômicas e demandas democráticas e na construção do ambiente político do qual o movimento emergiu. Nossos camaradas participaram de manifestações, greves, protestos permanentes, debates e mobilizações em todas as fases da luta.

Diferentemente de alguns setores da esquerda que se dissolvem completamente em movimentos mais amplos, a JKNSF buscou manter uma posição política independente enquanto permanecia plenamente comprometida com a própria luta. Apoiamos o movimento. Nós o defendemos contra a repressão estatal. Participamos dele. Ao mesmo tempo, reconhecemos também suas limitações.

A maior fraqueza do JAAC nunca foram suas reivindicações. A maioria delas é democrática e legítima. O problema é que reivindicações não são a mesma coisa que um programa, e o movimento ainda não desenvolveu um programa político e econômico coerente que explique como essas injustiças podem ser superadas de forma permanente.

Outra grande fraqueza tem sido sua incapacidade de incorporar de maneira mais direta setores organizados da classe trabalhadora à luta. Trabalhadores da saúde, funcionários do setor elétrico e outros servidores públicos já estavam mobilizados em torno de suas próprias reivindicações. Compreendemos que trazer trabalhadores do setor público para um movimento de massas não é simples, especialmente sob condições de repressão, intimidação e ameaça de perseguição. Mas o JAAC já contava com amplo apoio popular. Se as reivindicações desses trabalhadores tivessem sido conscientemente articuladas às demandas democráticas e econômicas mais amplas do movimento, teria sido possível atrair um setor importante de trabalhadores cuja posição lhes confere um poder estratégico real. Sua participação não apenas ampliaria a base social da luta, mas também fortaleceria sua capacidade de resistir à repressão e avançar além do protesto em direção a uma pressão organizada de massas.

Essa crítica, contudo, não deve ser confundida com oposição ao movimento. Pelo contrário, levantamos essas questões justamente porque fazemos parte da luta e porque queremos que ela avance. O movimento já abalou a ordem existente, expôs a brutalidade do Estado e demonstrou que pessoas comuns podem desafiar forças que antes pareciam intocáveis. Sua coragem, amplitude e persistência merecem o apoio integral de todas as forças progressistas, democráticas e revolucionárias do mundo.

Nossa crítica, portanto, não vem de fora do movimento, mas de dentro dele. Defendemos o JAAC e o movimento popular mais amplo contra a repressão estatal, a propaganda, as prisões, as proibições, as balas e o cerco. Ao mesmo tempo, acreditamos que o movimento só poderá avançar se aprofundar sua base social, conectar as reivindicações democráticas às lutas dos trabalhadores, das mulheres, dos estudantes e dos pobres e desenvolver um programa capaz de transformar a indignação de massas em poder político duradouro. Apoiar seriamente o movimento significa estar ao seu lado, defendê-lo, participar dele e também contribuir para fortalecê-lo onde ele ainda é frágil.

Chamado à solidariedade!

Enquanto estas últimas linhas estão sendo escritas, o Estado volta a intensificar o cerco. O envio de suprimentos essenciais às áreas de protesto está sendo restringido, enquanto são feitos preparativos para uma nova operação contra o movimento. Isso faz da solidariedade não uma questão de simpatia distante, mas uma responsabilidade política imediata.

A principal tarefa internacionalista neste momento é demonstrar solidariedade ativa àqueles que enfrentam a repressão, compreendendo ao mesmo tempo as questões políticas mais profundas que estão por trás da confrontação imediata. Convocamos sindicatos, organizações estudantis, forças progressistas, acadêmicos, escritores, jornalistas, grupos socialistas e organizações da classe trabalhadora no Paquistão, no Sul da Ásia e em todo o mundo a erguer suas vozes em apoio ao povo de Jammu Caxemira, exigir o fim imediato do cerco e se posicionar contra a repressão conduzida pelo Estado.

A luta em Jammu Caxemira não diz respeito apenas a tarifas, subsídios ou assentos parlamentares. Trata-se de direitos democráticos, representação política, controle sobre os recursos e do direito das pessoas comuns de moldar seu próprio futuro. Seu êxito não pertenceria apenas ao povo de Jammu Caxemira; fortaleceria todas as lutas contra a exploração, a repressão, a expropriação e o governo antidemocrático na região. Sua derrota tampouco seria apenas uma derrota de Jammu Caxemira; fortaleceria a mão de todos os Estados e classes dominantes que acreditam que movimentos populares podem ser esmagados por meio da força, do cerco, da propaganda e do medo.

O povo de Jammu Caxemira já demonstrou que pode lutar e obrigar o Estado a recuar. A questão agora é saber se o movimento conseguirá transformar esses atos de resistência em conquistas políticas duradouras. Nesse sentido, a solidariedade internacional é ao mesmo tempo essencial e urgentemente necessária.